A Carne, de Jlio Ribeiro

Fonte:
RIBEIRO, Jlio.  A Carne. So Paulo: Martin Claret,  1999. (A Obra Prima de Cada Autor)

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de So Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
Neucrio Ricardo de Azevedo  Goinia/GO

Este material pode ser redistribudo livremente, desde que no seja alterado, e que as informaes acima sejam 
mantidas. Para maiores informaes, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>.

Estamos em busca de patrocinadores e voluntrios para nos ajudar a manter este projeto. Se voc quer ajudar de 
alguma forma, mande um e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso  possvel.


A Carne
Jlio Ribeiro

Ao Prncipe do Naturalismo,
Emlio Zola.

Aos meus amigos:
	Luiz de Mattos,
	M.H. de Bittencourt,
	J.V. de Almeida e
	Joaquim Elias;

ao distinto fisilogo
	Dr. Miranda Azevedo
									O.D.C.
									Jlio Ribeiro

A. M. Emile Zola

Je ne suis pas tmraire, je nai pas la prtention de suivre vos traces; ce nest pas 
prtendre suivre vos traces que dcrere une pauvre tude tant soit peu natulaliste. On ne vous 
imite pas, on vous admire.
	Nous nous chauffons, dit Ovide, quand le dieu que vit en nous sagite: eh bien! Le 
tout petit dieu qui vit en moi sest agit, et jai cret La Chair.
	Ce nest pas lAssommoir, ce nest pas la Cure, ce nest pas la Terre, mais, diantre! Une 
chandelle nest pas le soleil, et pourtant une chandelle claire.
	Quoi quil en soit, voici mon oeuvre.
	Agrerez-vous la ddicace que je vous en fais? Pourquoi pas! Les rois, quoique gorgs de 
richesses, ne ddaignent pas toujours les chtifs cadeaux des pauvres paysans.
	Permettez que je vous fasse mon hommage complet, lige, de serviteur fal en empruntant 
les paroles du pote florentin:
	Tuduca, tu signore, tu maestro.
	St. Paul, le 25 janvier 1888
		Jules Ribeiro.

Captulo I

O doutor Lopes Matoso no foi precisamente o que se pode chamar um homem feliz.
Aos dezoito anos de sua vida, quando apenas tinha completado o seu curso de 
preparatrios, perdeu pai e me com poucos meses de intervalo.
Ficou-lhe como tutor um amigo da famlia, o coronel Barbosa, que o fez continuar com 
os estudos e formara-se em direito.
No dia seguinte ao da formatura, o honesto tutor passou-lhe a gerncia da avultada 
fortuna que
lhe coubera, dizendo:
- Est rico, menino, est formado, tem um bonito futuro diante de si. Agora  tratar de 
casar, de ter filhos, de galgar posio. Se eu tivesse filha voc j tinha noiva; no tenho, procure-
a voc mesmo.
Lopes Matoso no gastou muito tempo em procurar: casou-se logo com uma prima de 
quem sempre gostara e junto  qual viveu felicssimo por espao de dois anos.
Ao comear o terceiro, morreu a esposa, de parto, deixando-lhe uma filhinha.
Lopes Matoso vergou  fora do golpe, mas, como homem forte que era, no se deixou 
abater de vez: reergueu-se e aceitou a nova ordem de coisas que lhe era imposta pela 
imparcialidade brutal da natureza.
Arranjou de modo seguro seus negcios, mudou-se para uma chcara que possua peno 
da cidade, segregou-se dos amigos e passou a repartir o tempo entre o manusear de bons livros e 
o cuidar da filha.
Esta, graas s qualidades da ama que lhe foi dada, cresceu sadia e robusta, tomando-se 
desde logo a vida, a nota alegre do eremitrio que se constitura Lopes Matoso.
Visitas de amigos raras tinha ele, porque mesmo no as acorooava: convivncia de fama 
no tinha nenhuma.
Leitura escrita  gramtica  aritmtica, lgebra, geometria, geografia, histria, francs, 
espanhol, natao, equitao, ginstica, msica , tudo isso Lopes Matoso exercitou a filha porque 
em tudo era perito: com ela leu os clssicos portugueses, os autores estrangeiros de melhor nota, 
e tudo quanto havia de mais seleto na literatura do tempo.
Aos quatorze anos Helena ou Lenita, como a chamavam, era uma rapariga desenvolvida, 
forte, de carter formado e instruo acima do vulgar.
Lopes Matoso entendeu que era chegado o tempo de tomar a mudar de vida, e voltou para 
a cidade.
Lenita teve ento timos professores de lnguas e de cincias; estudou o italiano, o 
alemo, o ingls, o latim, o grego; fez cursos muito completos de matemticas, de cincias 
fsicas, e no se conservou estranha s mais complexas cincias sociolgicas. Tudo lhe era fcil, 
nenhum campo parecia fechado a seu vasto talento.
Comeou a aparecer, a distinguir-se na sociedade.
E no tinha nada de pretensiosa, bas bleu: modesta, retrada mesmo, nos bailes, nas 
reunies em
que no de raro se achava, ela sabia rodear-se de uma como aura de simpatia escondendo com 
arte infinita a sua imensa superioridade.
Quando, porm, algum bacharel formado de fresco, algum touriste recm-vindo de Paris 
ou de Nova Iorque queria campar de sbio, queria fazer de orculo em sua presena, ento  que 
era v-la. Com uma candura adoravelmente simulada, com um sorriso de desdenhosa bondade, 
ela enlaava o pedante em uma rede de perguntas prfidas, ia-o pouco a pouco estreitando em 
um crculo de feno e, por fim, com o ar mais natural do mundo, obrigava-o a contradizer-se, 
reduzia-o ao mais vergonhoso silncio.
Os pedidos de casamento sucediam-se: Lopes Matoso consultava a filha.
-  i-los despedindo, meu pai, respondia ela. Escusa que me consulte. J sabe, eu no me 
quero casar.
- Mas, filha, olha que mais cedo ou mais tarde  preciso que o faas.
- Algum dia talvez, por enquanto no.
- Sabes que mais? estou quase convencido de que errei e muito na tua educao: dei-te 
conhecimentos acima da bitola comum e o resultado  ver-te isolada nas alturas a que te levantei. 
O homem fez-se para a mulher, e a mulher para o homem. O casamento  uma necessidade, j 
no digo social, mas fisiolgica. No achas, de certo, homem algum digno de ti?
- No  por isso,  porque ainda no sinto a tal necessidade do casamento. Se eu a 
sentisse, casar-me-ia
- Mesmo com um homem medocre?
- De preferncia com um homem medocre. Os grandes homens em geral no so bons 
maridos. Demais, se os tais senhores grandes homens escolhem quase sempre abaixo de si, por 
que eu, qu, na opinio de papai, sou mulher superior, no faria como eles, escolhendo marido 
que me fosse inferior?
- Sim, para teres uns filhos palermas...
- Os filhos puxariam por mim: a filosofia gensica ensina que a hereditariedade direta do 
gnio e do talento  mais comum da me para o filho.
- E do pai para a filha, no?
- De certo, e por isso  que eu sou o que sou.
- Lisonjeira!
- Lisonjeiro  papai que quer  fina fora que eu seja moa prodgio, e tanto tem feito que 
at eu j comeo acreditar. Voltando ao assunto, sobre casamento temos conversado, no 
falemos mais nisso.
E no falaram. Lopes Matoso ia despedindo os pretendentes com grandes afetaes de 
mgoa - que a menina no queria casar, que era uma original, que ele bem a aconselhava, mas 
que era trabalho baldado, mil coisas enfim que suavizassem a repulsa.
Sempre no mesmo teor de vida chegou Lenita aos vinte e dois anos, quando um dia 
amanheceu Lopes Matoso a queixar-se de um mal-estar indescritvel, de uma opresso fortssima 
no peito. Sobreveio um acesso de tosse, e ele morreu de repente sem haver tempo de chamar um 
mdico, sem coisa nenhuma. Matara-o congesto pulmonar.
Lenita quase enlouqueceu de dor: o imprevisto do sucedido, vcuo sbito e terrvel que se 
fez em torno dela, a superioridade e cultura do seu esprito que refugia a  consolaes banais, 
tudo contribua para acentuar-lhe o sofrimento.
Dias e dias passou a infeliz moa sem sair do quarto, recusando-se a receber visitas, 
tomando inconscientemente, a instncias dos fmulos, algum ligeiro alimento.
Por fim reagiu contra a dor plida, muito plida nas suas roupas de luto, ela apareceu aos 
amigos do pai, recebeu os psames fastidiosos do estilo, procurou por todos os meios afazer-se  
vida solitria que se lhe abria, vida tristssima, erma de afetos, povoada de lembranas dolorosas. 
Tratou de dar direo conveniente aos negcios da casa, e escreveu ao coronel Barbosa, 
avisando-o de que se retirava temporariamente para a fazenda dele.
Os negcios da casa nenhuma dificuldade ofereciam: a fortuna de Lopes Matoso estava 
quase toda em aplices e aes de estradas de ferro. Sendo Lenita, com era, filha nica, no 
havia inventrio, no havia delonga alguma judicial.
A resposta do coronel Barbosa no se fez esperar - que fosse, que fosse quanto antes; que 
sua velha esposa entrevada folgara doidamente com a notcia de ir ter junto de si uma moa, uma 
companheira nova; que com eles s morava um filho nico, homem j maduro, casado, mas 
desde muito separado da mulher, caador, esquisito, metido consigo e com os seus livros; enfim 
que se no demorasse com aprontaes, que atabulasse, e que marcasse o dia para ele a ir buscar.
Uma semana depois estava Lenita instalada na fazenda do velho tutor de seu pai: tinha 
levado consigo o seu piano, alguns bronzes artsticos, algum bibelots curiosos e muitos livros

Captulo 2
Pior do que na cidade, horrvel foi a princpio o isolamento de Lenita na fazenda.
A velha octogenria, alm de entrevada, era muito surda. O coronel Barbosa, pouco mais 
moo do que a mulher, sofria de reumatismo, e, s vezes, passava dias e dias metido na cama. O 
filho, o divorciado, estava caando havia meses no Paranapanema.
O trabalho da fazenda era dirigido por um administrador caboclo, homem afvel, mas 
ignorantssimo sobre tudo o que no dizia com a lavoura.
Lenita comia quase sempre s na vastssima varanda; depois de almoar ou de jantar ia 
conversar com o coronel, e fazia esforos incrveis para conseguir fazer-se ouvir da velha que, 
resignada e risonha, aumentava com a mo trmula a concha da orelha para apanhar as palavras.
Tal entretenimento cansava a moa, e ela recolhia-se logo aos seus cmodos para ler, 
para procurar distrair-se.
Tomava um livro, deixava; Tomava outro, deixava; era impossvel a leitura.
Apertava-lhe, constringia-lhe o nimo a lembrana do pai. E tudo lhe fazia lembrar - uma 
passagem marcada a unha em um livro, uma folha dobrada em outro.
Saa, ia de novo conversar, tornava a voltar, tomava a sair, era um inferno.
A mulher do administrador, carinhosa j por ndole, recebera do patro recomendaes 
especiais a respeito de Lenita.
A todo o momento eram copos de leite quente, copos de garapa, caf, doces, frutas.
Lenita ora recusava, ora aceitava uma ou outra coisa, indiferentemente, s por comprazer 
 boa mulher.
O coronel Barbosa dera a Lenita uma sala independente, um quarto amplo com duas 
janelas e uma alcova; pusera-lhe s ordens, para seu servio especial, uma mulatinha esperta, de 
alta trunfa e cor deslavada, e tambm um molecote acaboclado, risonho, de dentes muito 
brancos.
Lenita, por vezes, passava horas e horas  janela, contemplando as pendncias da 
fazenda.
Estava esta a meia encosta de um outeiro a cuja balda corria um
ribeiro. Em frente estendia-se o grande pasto. A monotonia de verdura clara era quebrada aqui e 
ali pelo sombrio da folhagem basta de alguns paus-d'alho, deixados propositadamente para 
sombra, e pelo amarelo sujo das reboleiras de sap. Ao fundo, de um lado, em corte brusco, a 
mata virgem, escura, acentuada, macia quase, confundindo em um s tom mil cores 
diversssimas; de outro em colinas suaves, o verde-claro alegre e uniforme dos canaviais 
agitados sempre pelo vento; mais alm, os cafezais alinhados, regulares, contnuos, como um 
tapete crespo, verde-negro, estendido pelo dorso da morraria. Em um ou outro ponto, a terra roxa 
de pedra de ferro, desnudada, punha uma nota estrdula de vermelho-escuro, de sangue 
coagulado.
E sobre tudo isso, azul, difano, puro, cetinoso, recurvava-se o cu em uma festa de luz 
branca, vivificante, mordente...
Quando se embruscava o tempo a paisagem mudava: o cu pardacento, carregado de 
nuvens plmbeas, como que se abaixava, como que queria afogar a terra. O revestimento verde 
perdia o brilho, empanava-se, amortecia em um desfalecimento mido.
Lenita deu em sair, em passear pelas cercanias, ora a p, acompanhada pela mulata, ora a 
cavalo, seguida pelo rapazinho.
Mas o exerccio, a pureza do ar, a liberdade do viver da roa, nada lhe aproveitou.
Uma languidez crescente, um esgotamento de foras, uma prostrao quase completa ia-
se apoderando de todo o seu ser: no lia, o piano conservava-se mudo.
Com a morte do pai, parecia ter-se-lhe transformado a natureza: j no era forte, j no 
era viril como em outros tempos. Tinha medo de ficar s, tinha terrores sbitos.
Ia para o quarto da entrevada, recostava-se em uma cadeira preguiosa e a se deixava 
ficar quieta horas e horas, mal respondendo s perguntas solcitas do coronel.
Quando voltava para os seus aposentos, tomada em caminho por um pavor inexplicvel, 
agarrava-se trmula  mulata.
No podia comer, tinha um fastio desolador, cortado por desejos violentos de coisas 
salgadas, de coisas extravagantes.
Sobrevieram-lhe salivaes constantes, vmitos biliosos quase incoercveis.
Uma manh no se pde levantar.
Acudiram apressados o coronel e a mulher do administrador; abeiraram-se do leito, 
instando com a enferma para que tomasse um ch de erva-cidreira, um remdio qualquer caseiro, 
enquanto no vinha o mdico que se tinha mandado chamar a toda a pressa.
Quando este chegou estava Lenita abatidssima: emaciada, lvida, com os olhos 
afundados em uma aurola cor de bistre, comprimia o peito, estertorava sufocada. Uma como 
bola subia-lhe do estmago, chegava-lhe  garganta, estrangulava-a. No alto da cabea, um 
pouco para a esquerda tinha uma dor circunscrita, fixa, lancinante, atroz: era como se um prego 
a estivesse cravado.
E seu sistema nervoso estava irritadssimo: o mais ligeiro rudo,
o jogo de luz produzido pelo abrir da porta arrancava-lhe gritos.
O doutor Guimares, mdico j velho, de fisionomia inteligente e bondosa, aproximou-se 
da cama, examinou a enferma detidamente, em silncio, sem tomar-lhe o pulso, sem incomod-la 
na mnima coisa, baixando-se muito, com as mos cruzadas nas costas, para ouvir-lhe a 
respirao, para escutar-lhe os gemidos, para atentar-lhe nas contraes da face.
- Quando comeou isto, coronel? perguntou.
- Doente tem ela estado desde que aqui chegou, mas assim, ruim,  s hoje.
- Sufoco! acudam-me! gritou de repente Lenita e, revolvendo-se, escoucinhando, 
dilacerava a camisa com as mos ambas, arranhava o peito. Um rubor sbito, vivssimo, colorira-
lhe o rosto, brilhavam-lhe os olhos de modo inslito.
- Sei o que isto , disse o mdico; tenho pela frente um conhecido velho, no me d 
cuidado, volto j.
E saiu.
Poucos minutos depois reapareceu, trazendo uma seringuinha de Pravaz.
- D-me o brao, minha senhora, vou fazer-lhe uma injeo, e ver como daqui a pouco 
nada mais h de sentir.
Lenita estendeu a custo o brao nu, e o doutor, tomando-o, ps-se a belisc-lo 
morosamente, demoradamente, em um lugar s, na altura do bceps; depois segurando a parte 
malaxada entre o dedo ndice e o polegar da mo esquerda, com a direita fez penetrar por baixo 
da pele a agulha do instrumento e, calcando no cabo do pisto, injetou todo o contedo do tubo 
de vidro.
Lenita, apesar de seu estado de irritabilidade nervosa, nem pareceu sentir.
O efeito foi pronto. Dentro de pouco tempo as faces descoraram, cessaram as crispaes 
nervosas dos membros, cerraram-se os olhos, e um suspiro de alvio entumeceu-lhe o peito.
Adormeceu.
- Deixemo-la assim, disse o mdico, deixemo-la dormir, quando acordar estar boa. 
Todavia vou receitar: no dispenso para estes casos o meu brumoreto de potssio.
E saram nos bicos dos ps. Junto de Lenita ficou a mulher  do administrador.

Captulo 3
Realizou-se o prognstico do mdico.
Lenita, aps um comprido sono, acordou calma, com os nervos sossegados, com os 
msculos distendidos, soltos. Mas estava abatida, mole, queixava-se de peso na cabea, de 
grande cansao. Passou dois dias na cama, e s ao terceiro pde levantar-se.
O apetite foi voltando aos poucos, e suas refeies foram sendo tomadas com prazer, a 
horas regulares.
Podia-se dizer que entrara em convalescena do cataclismo orgnico produzido pela 
morte do pai.
E Lenita sentia-se outra, feminizava-se. No tinha mais gostos viris de outros tempos, 
perdera a sede de cincia: de entre os livros que trouxera procurava os mais sentimentais. Releu 
Paulo e Virgnia, o livro quarto da Eneida, o stimo do Telmaco. A fome picaresca de 
Lazarilho de Tortnes f-la chorar.
Tinha uma vontade esquisita de dedicar-se a quem quer que fosse, de sofrer por um 
doente, por um invlido. Por vezes lembrou-lhe que, se casasse, teria filhos, criancinhas que 
dependessem de seus carinhos, de sua solicitude, de seu leite. E achava possvel o casamento.
A imagem do pai ia-se esbatendo em uma penumbra de saudade que ainda era dolorosa, 
mas que j tinha encanto.
Passava horas e horas junto da entrevada, conversava com o coronel, por vezes ria. 
- Isto vai melhor, muito melhor, dizia o bom do homem.  pr-se voc por a alegre, 
filhinha. O mundo  assim mesmo: o que no tem remdio remediado est.
Uma tarde, achando-se s em sua sala, Lenita sentiu-se tomada de uma languidez 
deliciosa, sentou-se na rede, fechou os olhos e entregou-se  modorra branda que produzia o 
balano.
Em frente, sobre um console, entre outros bronzes que trouxera, estava uma das redues 
clebres de Barbedienne, a da esttua de Agasias, conhecida pelo nome de Gladiador Borghese.
Um raio mortio de sol poente, entrando por uma frincha da janela, dava de chapa na 
esttua, afogueava-a, como que fazia correr sangue e vida no bronze mate.
Lenita abriu os olhos. Atraiu-lhe as vistas o brilho suave do metal ferido pela luz.
Ergueu-se, acercou-se da mesa, fitou com ateno a esttua: aqueles braos, aquelas 
pernas, aqueles msculos ressaltantes, aqueles tendes retesados, aquela virilidade, aquela 
robustez, impressionaram-na de modo estranho.
Dezenas de vezes tinha ela estudado e admirado esse primor anatmico em todas as suas 
minudncias cruas, em todos os nadas que constituem a perfeio artstica, e nunca 
experimentara o que ento experimentava.
A cerviz taurina, os bceps encaroados, o trax largo, a plvis estreita, os pontos 
retrados das inseres musculares da esttua, tudo parecia corresponder a um ideal plstico que 
lhe vivera sempre latente no intelecto, e que despertava naquele momento, revelando 
brutalmente a sua presena. 
Lenita no se podia arredar, estava presa, estava fascinada.
Sentia-se fraca e orgulhava-se de sua fraqueza. Atormentava-a um desejo de coisas 
desconhecidas, indefinido, vago, mas imperioso, mordente. Antolhava-se-lhe que havia de ter 
gozo infinito se toda a fora do gladiador se desencadeasse contra ela, pisando-a, machucando-a, 
triturando-a, fazendo-a em pedaos.
E tinha mpetos de comer de beijos as formas masculinas estereotipadas no bronze. 
Queria abraar-se, queria confundir-se com elas. De repente corou at  raiz  dos cabelos.
Em um momento, por uma como intussuscepo sbita, aprendera mais sobre si prpria 
do que em todos os seus longos estudos de fisiologia. Conhecera que ela, a mulher superior, 
apesar de sua poderosa mentalidade, com toda a sua cincia, no passava, na espcie, de uma 
simples fmea, e que o que sentia era o desejo, era a necessidade orgnica do macho.
Invadiu-a um desalento imenso, um nojo invencvel de si prpria.
Robustecer o intelecto desde o desabrochar da razo, perscrutar com pacincia, 
aturadamente, de dia, de noite, a todas as horas, quase todos departamentos do saber humano, 
habituar o crebro a demorar-se sem fadiga na anlise sutil dos mais abstrusos problemas da 
matemtica transcendental, e cair de repente, com os arcanjos de Milton, do alto do cu no lodo 
da terra, sentir-se ferida pelo aguilho da carne, espolinhar-se nas concupiscncias do cio, como 
uma negra boal, como uma cabra, como um animal qualquer... era a suprema humilhao.
Fez um esforo enorme, arrancou-se do feitio que a dementava, e, vacilante, 
encostando-se aos mveis e s paredes, recolheu--se ao seu quarto, fechou com dificuldade as 
janelas, atirou-se vesti sobre a cama.
Jazeu imvel largo espao.
Uma umidade morna, que se lhe ia estendendo por entre as coxas, f-la erguer-se de 
sbito, em reao violenta contra a modorra que a prostrara.
Com movimentos sacudidos, nervosos, atirou o xale, desabotoou rpida o corpete, 
arrebentou os coses da saia preta e das anguas, ficou em camisa.
Uma larga mancha vermelha, rtila, viva, maculava a alvura da cambraia.
Era a onda catamenial, o fluxo sangneo da fecundidade que ressumava de seus flancos 
robustos como da uva esmagada jorra o mosto nubente.
Mais de cem vezes j a natureza se tinha assim nela manifestado, e nunca lhe causara o 
que ela ento estava sentindo.
Quando aos quatorze anos, aps um dia de quebramento e cansao, se mostrara o 
fenmeno pela primeira vez ela ficara louca de terror, acreditara-se ferida de morte, e, com a 
impudcia da inocncia, correra em gritos para o pai, contara-lhe tudo.
Lopes Matoso procurara sosseg-la - que no era nada; que isso se dava com todas as 
mulheres; que evitasse molhadelas, sol, sereno, que dentro de trs dias, ou de cinco ao mais 
tardar, havia de estar boa, que se no assustasse da repetio todos os meses.
Com o tempo, os livros fisiologia acabaram de a edificar. em Pss aprendera que a 
menstruao  uma muda epitelial do tero, conjunta por simpatia com a ovulao, e que o 
terrvel e caluniado corrimento  apenas uma conseqncia natural dessa muda.
Resignara-se, afizera-se a mais esta imposio do organismo, assim como j estava afeita 
a outras. Somente, para estudo de si prpria, comeara de marcar, com estigmas de lpis 
vermelho, em calendariozinhos de algibeira, as datas dos aparecimentos.
Anoiteceu.
A mulata a veio chamar para a ceia. Encontrou-a deitada, encolhida, aconchegando-se 
nas roupas.
Perguntou-lhe se estava doente, ao saber que efetivamente o estava, saiu, avisou o senhor, 
trouxe as suas cobertas e travesseiros, arranjou uma cama no tapete, ao p do leito, quedou-se 
solcita para o que fosse preciso.
O coronel, cheio de cuidados, veio  porta do quarto interrogar Lenita.
Que no era nada, respondeu ela, que aquilo no passava de uma indisposio sem 
conseqncias, que havia de acordar boa no dia seguinte.
- Menina, voc sabe que agora seu pai sou eu. Se precisar de alguma coisa, franquezinha, 
mande-me chamar a qualquer hora, no receie me incomodar. A pobre da velha l est aflita, 
amaldioando o tolhimento que a faz no prestar para nada. No querer voc um ch de salva, 
um pouco de vinho quente?
- Obrigada, no quero coisa nenhuma.
- Bem, bem, j a deixo em paz. At amanh. Procure dormir. 
E saiu.
Lenita adormeceu. A princpio foi um dormitar interrompido, irrequieto, cortado de 
pequenos gritos. Depois apoderou-se dela um como langor, um xtase que no era bem viglia, e 
que no era bem sono. Sonhou ou antes viu que o gladiador avolumava-se na sua peanha, tomava 
estatura de homem, abaixava os braos, endireitava-se, descia, caminhava para o seu leito, 
parava  beira, contemplando-a detidamente, amorosamente.
E Lenita rolava com delcias no eflvio magntico do seu olhar, como na gua deliciosa 
de um banho tpido.
Tremores sbitos percorriam os membros da moa; seus plos todos hispidavam-se em 
uma irritao mordente e lasciva, dolorosa e cheia de gozo.
O gladiador estendeu o brao esquerdo, apoiou-se na cama, sentou-se a meio, ergueu as 
cobertas, e sempre a fit-la, risonho, fascinador, foi-se recostando suave at que se deitou de 
todo, tocando-lhe o corpo com a nudez provocadora de suas formas viris.
O contato no era o contato frio e duro de uma esttua de bronze; era o contato quente e 
macio de um homem vivo.
E a esse contato apoderou-se de Lenita um sentimento indefinvel; era receio e desejo, 
temor e volpia a um tempo. Queria, mas tinha medo.
Colaram-se-lhe nos lbios os lbios do gladiador, seus braos fortes enlaaram-na, seu 
amplo peito cobriu-lhe o seio delicado.
Lenita ofegava em estremees de prazer, mas de prazer incompleto, falho, torturante. 
Abraando o fantasma de sua alucinao, ela revolvia-se como uma besta-fera no ardor do cio. A 
tonicidade nervosa o erotismo, o orgasmo, manifestava-se em tudo, no palpitar dos lbios 
tmidos, nos bicos dos seios cupidamente retesados. Em uma convulso desmaiou.


Captulo 4
Lenita voltava  sade a olhos vistos.
Levantava-se cedo, tomava um copo de leite quente, dava um passeio pelo campo, 
almoava com apetite, depois do almoo sentava-se ao piano, tocava com brio peas marciais, 
alegres, movimentadas, de ritmo sacudido.
Ia ao pomar, comia frutas, trepava em rvores.
Jantava, ceava, deitava-se logo depois da ceia, levava a noite de um sono.
Tomara-se garrida: mirava-se muito ao espelho, cuidava com impertinncia do alinho do 
vestir, tomava os cabelos, que eram muito pretos, com flores de cor muito viva.
Abusava de perfumes: a sua roupa branca recendia a vetiver, a sndalo, a ixora, a peau 
d'Espagne.
Corria, saltava, fazia longas excurses a cavalo, quase sempre a galope, estimulando o 
animal com o chicotinho, com o chapu, de faces rubras, brilhantes os olhos, cabelos soltos ao 
vento.
Caava.
Um dia calmoso, depois do almoo, tomou uma espingardinha Galand de que 
habitualmente usava, atravessou o pasto, enfiou por um carreadouro sombrio, atravs de um 
vasto trato de mata virgem.
Seguiu distrada, em cisma, avanou muito, foi longe.
De repente prendeu-lhe a ateno um murmurejar de guas, doce, montono,  esquerda.
Tinha sede, teve desejo de beber, tomou para l, seguindo uma trilha estreita.
Parou assombrada ante o cenrio majestoso que a pouca distncia se lhe adregou.
No fundo de uma barroca muito vasta erguia-se um paredo de pedra negra, musgoso, 
talhado a pique: por sobre ele atirava-se um jorro de gua que ia formar no talvegue da barroca 
um lagozinho manso, profundo, cristalino.
Escadeando por sobre o aude natural que fechava a barroca pelo lado, baixo, derivava-se 
a gua, sonorosa, fugitiva.
No espelho calmo do lago refletia-se a vegetao luxuriante que o emoldurava.
Perobas gigantescas de fronte escura e casca rugosa; jequitibs seculares, esparramando 
no azul do cu a expanso verde de suas copadas alegres; figueiras brancas de razes chatas, 
protradas a estender ao longe, horizontalmente, os galhos desconformes como grandes membros 
humanos aleijados; canchins de folhas espinhentas, a destilar pelas fibras do crtex vermelho-
escuro um leite custico, venenoso; guarats esbeltos, lisos no tronco, muito elevados; taivas 
claras; paus-d'alho verdenegrosos, viosssimos, ftidos; guaiaps perigosos abrolhados em 
acleos lancinantes e peonhentos; mil lianas, mil trepadeiras, mil orqudeas diversas, de flores 
roxas, amarelas, azuis, escarlates, brancas -, tudo isso se confundia em uma massa matizada, em 
uma orgia de verdura, em um deboche de cores que excedia, que fatigava a imaginao. O sol, 
dardejando feixes luminosos por entre a folhagem, mosqueava o solo pardo de reflexos 
verdejantes.
Insetos multicolores esvoaavam zumbindo, sussurrando. Um soroco bronzeado soltava 
de uma caneleira seu sibilo intercadente.
Uma exalao capitosa subia da terra, casava-se estranhamente  essncia sutil que se 
desprendia das orqudeas fragrantes: era um misto de perfume suavssimo de cheiro spero de 
razes de seiva, que relaxava os nervos, e adormecia o crebro.
Lenita hauriu a sorvos largos esse ambiente embriagador, deixou-se vencer dos amavios 
da floresta.
Apoderou-se dela um desejo ardente, irresistvel, de banhar-se nessa gua fresca, de 
perturbar esse lago calmo.
Circunvolveu os olhos, perscrutou toda a roda, a ver se algum a poderia estar 
espreitando.
- Tolice! pensou, o coronel no sai, o administrador e os escravos esto no servio, no 
cafezal, no h ningum de fora na fazenda. Demais, nem isto  caminho. Estou s, 
absolutamente s.
Deps a espingarda e junto dela o chapu de palha, de abas largas, que a protegia nesses 
passeios, comeou a despir-se.
Tirou o paletozinho, o corpete espartilhado, depois a saia preta, as anguas.
Em camisa, baixou a cabea, levou as mos  nuca para prender as tranas e, enquanto o 
fazia, remirava complacente, no cabeo alvo, os seios erguidos, duros, cetinados, betados aqui e 
ali de uma veiazinha azul.
E aspirava com delcias, por entre os perfumes da mata, o odor de si prpria o cheiro bom 
de mulher moa que se exalava do busto.
Sentou-se, cruzou as pernas, desatou os cordes dos borzeguins Clark, tirou as meias, 
afagou corrente, demoradamente, os pezinhos os breves em que se estampara tecido fino do fio 
de Esccia. Ergueu-se, saltou das anguas, retorceu-se um pouco, deixou cair a camisa. A 
cambraia achatou-se em dobras moles, envolvendo-lhe os ps.
Era uma formosa mulher.
Moreno-clara, alta, muito bem lanada, tinha braos e pernas rolias, musculosas, punhos 
e tornozelos finos, mos e ps aristocraticamente perfeitos, terminados por unhas rseas, muito 
polidas. Por sob os seios rijos, protrados, afinava-se o corpo na cintura para alargar-se em uns 
quadris amplos, para arredondar-se de leve em um ventre firme, ensombrado inferiormente por 
velo escuro abundantssimo. Os cabelos pretos com reflexes azulados caam em franjinhas 
curtas sobre a testa indo frisar-se lascivamente na nuca. O pescoo era proporcionado, forte, a 
cabea pequena, os olhos negros vivos, o nariz direito, os lbios rubros, os dentes alvssimos, na 
face esquerda tinha um sinalzinho de nascena, uma pintinha muito escura, muito redonda.
Lenita contemplava-se com amor-prprio satisfeito, embevecida, louca de sua carne. 
Olhou-se, olhou para o lago, olhou para a selva, como reunindo tudo para formar um quadro, 
uma sntese.
Acocorou-se faceiramente, assentou a ndega direita sobre o joelho esquerdo erguido, 
lembrando, reproduzindo a posio conhecida da esttua de Salon, da Venus Accroupie.
Esteve, esteve assim muito tempo: de repente deu um salto, atufou-se na gua, surgiu, 
comeou a nadar.
O lago era profundo, mas estreito. Lenita ia e vinha, de uma margem para a outra, do 
paredo ao aude, do aude ao paredo. Passava por sob o jorro e dava gritos de prazer e de susto 
ao choque duro da massa lquida sobre o seu dorso acetinado.
Virava de costas e deixava-se boiar, com as pernas estendidas, com o ventre para o cu, 
com os braos alargados, movendo as mos abertas, vagarosamente, por baixo da gua.
Voltava-se e recomeava a nadar, rpida como uma flecha. 
Um calafrio avisou-a de que era tempo de sair da gua.
Saiu com o corpo arrepiado, glido, a tiritar. Quedou-se ao sol, em uma aberta, esperando 
a reao do calor, soltando, torcendo, sacudindo os cabelos. De seu corpo desprendia-se um 
vaporzinho sutil, uma aura tnue, que a envolvia toda.
O calor do sol e o seu prprio calor enxugaram-na de pronto. Vestiu-se, espalhou pelas 
costas os cabelos ainda molhados, ps o chapu, tomou a espingarda, e partiu para casa, a correr, 
trauteando um trecho dos Sinos de Comeville.
- Oh! meus pecados! Gritou o coronel ao v-la chegar, alegre, risonha, com os cabelos 
midos. Pois o  esta louquinha que se foi banhar no poo do paredo!
Aquilo  gua gelada... Com certeza pilhou um formidvel resfriamento!
- O que eu pilhei foi um formidvel apetite: hoje ao jantar hei de comer por quatro.
-  moleque, anda, vai, traz conhaque l de dentro, depressa.
- O coronel vai beber conhaque?
- Voc vai beber conhaque.
- Nunca provei tal coisa.
- Pois agora h de prov-lo,  o nico meio de fazermos as pazes.
Veio o conhaque, um conhaque genuno, velho, de 1848. Lenita bebeu um calicezinho, 
tossiu. Lagrimejaram-lhe os olhos, achou forte mas gostou; repetiu.

Captulo 5
Chegara o dia de principiar  a moagem.
J de vspera tinham os negros andado em uma faina a varrer a casa no engenho, a lavar 
os cochos e as bicas, a arear, a polir as caldeiras e o alambique, com grandes gastos de limo e 
cinza.
Mal amanhecera entrou-se a ver no canavial fronteiro uma fita estreita de 
emurchecimento que aumentava, que avanava gradualmente no sentido da largura. Era o corte 
que comeara. As roupas brancas de algodo, as saias azuis das pretas, as camisas de baeta 
vermelha dos pretos punham notas vivas, picantes, naquele oceano de verdura clara, agitadas por 
lufadas de vento quente.
No casaro do engenho, varrido, asseado, quatro caldeiras e o alambique de cobre 
vermelho reverberavam polidos, refletindo a luz que entrava pelas largas frestas. As fornalhas 
afundavam-se lbregas, escancarando as grandes bocas gulosas.
A gua, ainda presa na calha, espirrava pelas juntas da comporta sobre as lnguas da roda,
filetes cristalinos. As moendas brilhavam limpas, e os eixos e endentaes luziam negros de 
graxa. Compridos cochos e vasta resfriadeira abriam os bojos amplos, absorvendo a luz no pardo 
fosco da madeira muito lavada.
Ao longe, quase indistinto a princpio, mas progressivamente acentuado, fez-se ouvir um 
chiar agudo, contnuo, montono, irritante. A crioulada reunida em frente ao engenho levantou 
uma gritaria infrene, tripudiando de jbilo.
Eram os primeiros carros de cana que chegavam.
Arrastados pesadamente por morosos mas robustos bois de grandes aspas, avanavam os 
ronceiros veculos estalando, gemendo, sob a carga enorme de grossas e compridas canas, 
riscadas de verde e roxo.
Carreiros negros, altos, espadados, cingidos na altura dos fins por um tirador de couro 
cru, estimulavam, dirigiam os ruminantes com longas aguilhadas, com brados ostentricos:
-Eia, Lavarinto! Fasta, Ramalhete! Ruma, Barroso!
Os carros entraram no compartimento das moendas. Negros geis saltaram para cima 
deles, a descarregar. Em um momento empilharam-se as canas, de p, atadas em feixe com as 
prprias folhas.
Fez-se fogo na fornalha das caldeiras, abriu-se a comporta da calha, a gua despenhou-se 
em queda violenta sobre as lnguas da roda, esta comeou de mover-se, lenta a princpio, depois 
acelerada.
Cortando os atilhos de um feixe a golpes rpidos de faco, o negro moedor entregou as 
primeiras canas ao revolver dos cilindros. Ouviu-se um estalejar de fibras esmagadas, o bagao 
vomitado picou de branco o desvo escuro em que giravam as moendas, a garapa principiou a 
correr pela bica em jorro fano, verdejante. Aps pequeno trajeto foi cair no cocho grande, 
marulhosa, gorgolante, com grande espumarada resistente.
Os negros banqueiros, empunhando espumadeiras de compridos cabos, tomaram lugar 
junto s caldeiras.
Levada por uma bica volante, a garapa encheu-os em um tomo. A fornalha esbraseou-se, 
escandesceu, irradiando um calor doce por toda a vasta quadra. As espumadeiras destras 
atiravam ao ar em louras espadanas o melao fumegante, que tornava a cair nas caldeiras, 
refervendo, aos gorgoles.
Dominava no ambiente aroma suave, sacarino, cortando espaos por uma lufada tpida 
de cheiro humano spero, de catinga sufocante exalada dos negros em suor.
O coronel gostava da lavoura de cana; vencendo o seu reumatismo, passava os dias da 
moagem sentado em um banco de cabriva alto, largo, fixo entre duas janelas, a distncia 
razovel das caldeiras. Dirigia o trabalho, tomando o ponto ao melao em um tachinho de cobre 
muito limpo, muito areado, remexendo com uma p o acar na esfriadeira, quando este, 
transvazado os reminhis por uma bica volante especial, a parava, coalhando-se por cima em 
crosta amarela, quebradia.
Lenita no saa do engenho; tudo queria ela saber, de tudo se informava.
O coronel passava por verdadeiros interrogatrios - quais os meses do plantio da cana; 
que tempo levava esta na terra at ficar pronta para o corte; quando e quantas vezes devia ser 
carpida; como se cortava; que era baixar, que era levantar o podo; quais os sinais de 
maturidade; como se conhecia a cana passada; que era carimar; por que tinha menos vio e mais 
doura a cana de terra safada; como se plantavam as pontas.
Entrava em detalhes de lavoura, tomava notas; sabia que um alqueire agrrio paulista tem 
cem braas cinqenta; que a Quarta essa rea, em relao  lavoura de canas, chama-se quartel; 
que um quartel de terra prpria, em anos favorveis, d de quarenta a cinqenta carros de canas; 
que um carro de canas boas produz cinco arrobas de acar; que o acar sem barro, mascavo, 
faz mais conta em comrcio do que o acar com barro, alvo; que o barro  suprido com 
vantagem pelo estrume bovino.
Subia ao tendal, contava as frmas, duas em cada pau; computava o produto em acar 
das quatro tarefas de cada dia; calculava o que haviam de produzir, em aguardente, os resduos, a 
espuma, o mel; avaliava a capacidade dos caixes, dos estanques, dos vasos de tanoa de grande 
arqueao; punha-se ao fato dos preos; comparava os do ano corrente com os dos nove anos 
anteriores do decnio; generalizava, induzia, chegava a concluses positivas sobre a renda do 
municpio em futuro prximo, dada mesmo a eliminao do fator servil.
O coronel admirava-a. Um dia disse-lhe:
- Com uma mulher como voc  que eu devia ter casado.
Pobre eu no sou, mas estaria podre de rico se a tivesse tido para minha administradora 
desde os meus princpios. Inda se eu tivesse um filho ou um neto da sua idade para se casar com 
voc...
- Por falar em filho, quando vem o seu que est em Paranapanema? perguntou Lenita.
- Eu sei l? Aquilo  esquisito, sempre foi. Mete-se com os livros e fica meses sem sair 
do quarto. De repente vira-lhe a mareta, e l se vai ele para o serto, pe-se a caar e adeus! No 
se lembra mais de nada.
-  casado, parece-me ter ouvido dizer.
- Desgraadamente.
- Onde est a mulher?
- Na terra dela, em Frana.
- Com que, ento,  francesa?
- , ele casou-se por extravagncia em Paris; no fim de um ano nem ele podia suportar a 
mulher, nem ela a ele. Separaram-se. 
- No sabia que seu filho tinha estado na Europa.
- Esteve, esteve l dez anos; quando voltou at j falava mal o portugus.
- Em que pases esteve?
- Um pouco em toda a parte: esteve na Itlia, na ustria, na Alemanha, em Frana. Na 
Inglaterra foi que parou mais tempo: demorou-se l, aprendendo com um tipo que afirma que 
ns somos macacos.
- Darwin?
- Exatamente.
- Ento seu filho  homem muito instrudo?
- , fala umas poucas lnguas, e conhece bastantes cincias. Sabe at medicina.
- Deve ser muito agradvel a sua companhia.
- H ocasies em que  de fato, h outras em que nem o diabo o pode aturar. Est ento 
com uma coisa que ele chama em ingls... um nome arrevesado.
- Blue devils?
- H de ser isso. Ento voc tambm pesca um pouco da lngua dos bifes?
- Falo ingls sofrivelmente.
- Bem bom, quando Manduca vier e estiverem de veneta, temperaro lngua para matar o 
tempo.
- Estimarei muito ter ocasio de praticar.
E Lenita da em diante pensou sempre, mesmo a seu pesar, nesse homem excntrico que, 
tendo vivido por largo espao entre os esplendores do mundo antigo, a ouvir os corifeus da 
cincia, a estudar de perto as mais subidas manifestaes do esprito humano; que, tendo 
desposado por amor, de certo, uma das primeiras mulheres do mundo, uma parisiense, se deixara 
vencer de tdio a ponto de se vir encafuar em uma fazenda remota do oeste da provncia de So 
Paulo, e que, como isso lhe no bastasse, l ia para o serto desconhecido a caar animais 
ferozes, a conviver com bugres bravos.
Sabia que era homem de quarenta e tantos anos, pouco mais moo do que lhe morrera o 
pai.
Figurava-o em uma virilidade robusta que, se j no era mocidade, ainda no era velhice; 
emprestava-lhe uma plstica fortssima, atltica, a do torso do Belvedere; dava-lhe uns olhos 
negros, imperiosos, profundos, dominadores. Ansiava por que lhe chegasse a notcia de que ele 
vinha vindo, de que j tinha pedido os animais para transportar-se da estao  fazenda.
E continuava na sua alegria progressiva: a saudade do pai j no era dolorosa, era apenas 
melanclica.
Bebia garapa, mas preferia-a picada. Gostava muito de chupar canas: que era melhor do 
que garapa, dizia; que a cana descascada, torneada a canivete, triturada pelos dentes tinha um 
frescor, uma doura especial, que o esmagamento pelas moendas lhe tirava.
Detestava o furu-furu, mas em compensao adorava o ponto, o puxa-puxa. Quando o 
melao comeava na esfriadeira a engrossar, a cobrir-se de espuma amarela, ela corria-lhe o 
ndice da mo direita pela superfcie quente, tirava urna dedada grande, lambia-a com prazer 
dando estalinhos com a boca, fechando os olhos. Um dia um preto que tinha a seu cargo guiar a 
carroa de bagao para o bagaceiro, e que trazia ao p esquerdo uma grande pega de ferro, falou-
lhe:
- Sinh, olhe como est esta perna; est toda ferida. Ferro pesa muito, fale com sinh para 
tirar.
E mostrava o tornozelo ulcerado pela pega, ftido, envolto em trapos muito sujos.
- Mas que fez voc para estar sofrendo isto?
- Pecado, sinh; fugi.
- Era maltratado, estava com medo de apanhar?
- Nada, sinh: negro  mesmo bicho ruim, s vezes perde a cabea.
- Se voc me promete no fugir mais, eu vou pedir ao coronel que mande tirar o ferro.
- Promete, sinh: negro promete, palavra de Deus! Deixa estar. So Benedito h de dar a
sinh um marido bonito como sinh mesmo.
E deu uma grande risada alvar.
Lenita gostou do bom desejo e do cumprimento e sorriu-se.
De tarde falou ao coronel - que aquilo no tinha razo de ser, que era barbaridade, uma 
vergonha, uma coisa sem nome, que mandasse tirar o ferro.
- Ai, filha! voc no entende deste riscado. Qual barbaridade, nem qual carapua! Neste 
mundo no existe coisa alguma sem sua razo de ser. Estas filantropias, estas jeremiadas 
modernas de abolio, de no sei que diabo de igualdade, so patranhas, so cantigas.  chover 
no molhado - preto precisa de couro e ferro como precisa de angu e baeta. Havemos de ver no 
que h de parar a lavoura quando esta gente no tiver no eito, a tirar-lhe ccegas, uma boa 
guasca na ponta de um pau, manobrada por um feitor destorcido. No  porque eu seja maligno 
que digo e fao estas coisas; eu at tenho fama de bom.  que sou lavrador, e sei o nome aos 
bois. Enfim, voc pede, eu vou mandar tirar o ferro. Mas so favas contadas - ferro tirado, preto 
no mato.
A moagem continuava, o canavial se ia convertendo em palhaa:  verdura clara viva, 
sucedia um pardo tosco, sujo, muito triste. O vento esfregava as folhas mortas, ressequidas, 
arrancando delas um som spero de atrito, estalado, metlico, irritadssimo.
O bagaceiro crescia, avultava: na brancura esverdinhada punham notas escuras os sunos, 
bovinos e muares que a passavam o dia, mastigando, mascando, esmoendo. De repente armava-
se uma grande briga; ouviam-se grunhidos agudos, mugidos roucos, orneios feros. Uma dentada 
oblqua, um guampao, uma parelha de coices tinha dado ganho de causa ao mais forte.
O odor suave do primeiro ferver da garapa no comeo da moagem se acentuara em um 
cheiro forte, entontecedor, de acar cozido, de sacarose fermentada que se fazia sentir a mais de 
um quarto de lgua de distncia.

Captulo 6
Terminara a moagem, ia adiantada a primavera.
A flora tropical rejuvenescera na muda de todos os anos: os gomos, os brotos, a fronde 
nova rebentara pujante, aqui de um verde-claro deslavado, veludoso, muito tenro; ali lustrosa 
vidrenta, cor de ferrugem; alm rubra. Depois tudo isso se expandira, se robustecera, se 
consolidara em uma verdura forte, sadia, vivaz.
A natureza mudara de toilette e entrara no perodo dos amores.
Irrompia a florescncia com todo o seu luxo de formas, com toda a sua prodigalidade de 
matizes, com todo o seu esbanjamento de perfumes.
Por sobre os cafezais escuros atirara ela, com suave monotonia, um lenol de corolas 
alvssima, deslumbrante.
Na mata toda rvore, todo arbusto, toda planta tomava-se de estranha energia.
As flores, em uma abundncia impossvel, comprimiam-se nos galhos, empurravam-se, 
deformavam-se. No quebrantamento volpia amorosa pendiam, reviravam os clices, 
entornavam no ambiente ondas de plen, de pulverulncia fecundante.
 lascvia da flora se vinha juntar o furor ertico da fauna.
Por toda a parte ouviam-se gorjeios e assobios, uivos e bramidos de amor. Era o trilar do 
inambu, o piar do macuco, o berrar do tucano, o grasnar gargalhado do jacu, o retinir da 
araponga, o chiar do serelepe, o rebramar do veado, o miar plangente, quase humano dos felinos.
A essa tempestade de notas, a esse cataclismo de gemidos cpidos, sobrelevava o 
regougo spero do cachorro-do-mato, o guincho lancinante, frentico do carcar perdido na 
amplido.
A folhagem tremia agitada, esbarrada, machucada. Insetos brilhantes, verdes como 
esmeraldas, rubros como rubins, revoluteavam em sussurro, agarravam-se frementes. Os 
pssaros buscavam-se, beliscavam-se, em vos curtos, fortes, sacudidos, com as penas arrufadas. 
Os quadrpedes retouavam perseguiam-se, aos corcovos, arrepiando o plo. Serpentes silvavam 
meigas, enroscando-se em luxria  aos pares.
A terra casava suas emanaes quentes, speras, eltricas com o mormao lbrico da luz 
do sol coada pela folhagem.
Em cada buraco escuro, em cada fenda de rocha, por sobre o solo, nas hastes das ervas, 
nos galhos das rvores, na gua, no ar, em toda a parte, focinhos, bicos, antenas, braos, litros 
desejavam-se, procuravam-se, encontravam-se, estreitavam-se, confundiam-se, no ardor da 
sexualidade, no espasmo da reproduo.
O ar como que era cortado de relmpagos sensuais, sentiam-se passar lufadas de tpida 
volpia. Sobressaa a todos os perfumes, dominava forte um cheiro acre de semente, um odor de 
cpula, excitante, provocador.
Lenita estava preguiosa. Internava-se na mata e, quando achava uma barroca seca, uma 
sombra bem escura, reclinava-se aconchegando o corpo na alfombra espessa de folhas mortas, 
entregava-se  moleza ertica que estilava das npcias pujantes da terra. Voltava  casa, 
estendia-se na rede, com uma perna estirada sobre outra, com um livro que no lia cado sobre o 
peito, com a cabea muito pendida para trs, com os olhos meio cerrados, e assim quedava-se 
horas e horas em um lugar cheio de encantos.
Pensava constantemente, continuamente, sem o querer, no caador excntrico do 
Paranapanema, via-o a todo o momento junto de si, robusto, atltico como o ideara, dialogava 
com ele.
Ficara cruel: beliscava as criolinhas, picava com agulhas, feria com canivete os animais 
que lhe passavam ao alcance. Uma vez um cachorro reagiu e mordeu-a. Em outra ocasio pegou 
num canrio que lhe entrara na sala, quebrou-lhe e arrancou-lhe as pernas, desarticulou-lhe uma 
asa, soltou-o, findo com prazer ntimo ao v-lo esvoaar miseravelmente, com uma asa s, 
arrastando a outra, pousando os cotos sangrentos na terra pedregosa do terreiro.
O escravo, a quem ela fizera tirar o ferro do p, fugira de fato, como tinha previsto o 
coronel: um dia voltou preso, amarrado com uma corda pelos lagartos dos braos, trazido por 
dois caboclos. 
Que no havia remdio, disse o coronel, que dessa feita o negro tinha de tomar uma 
funda mestra por ter abusado do apadrinhamento de Lenita, que ia tomar a pr-lhe o ferro, e que 
no o tiraria mais nem  mo de Deus Padre.
Lenita, muito de adrede, no intercedeu. Sentia uma curiosidade mordente de ver a 
aplicao do bacalhau, de conhecer de vista esse suplcio legendrio, aviltante, atrozmente 
ridculo. Folgava imenso com a ocasio talvez nica que se lhe apresentava, comprazia-se com 
volpia estranha, mrbida na idia das contraes de dor, dos gritos lastimados do negro 
misrrimo que no , havia muito lhe despertara a compaixo.
Disfaradamente, habilmente, sem tocar de modo direto no assunto, conseguiu saber do 
coronel que o castigo havia de ter lugar na casa do tronco, no dia seguinte, ao amanhecer.
Passou a noite em sobressalto, acordando a todas as horas, receosa de que o sono 
imperioso da madrugada lhe fizesse perder o ensejo de ver o espetculo por que tanto anelava.
Cedo, muito escuro ainda, levantou-se, saiu, atravessou o terreiro, e, sem que ningum a 
visse, entrou no pomar.
Do lado de leste era este fechado pela fila das senzalas, cujas paredes de barro cru 
erguiam-se altas, inteirias, muito gretadas.
Havia uma casa mais vasta duas vezes do que qualquer outra: era a casa do tronco.
A essa chegou-se Lenita, encostou-se e, tirando do seio uma tesourinha que trouxera, 
comeou a abrir um buraco na parede,  altura dos olhos, entre dois barrotes e duas ripas, em 
lugar favorvel, donde j se protraa um torro muito pedrento, muito fendido, meio solto.
A tesourinha era curta, mas reforada, slida, de ao excelente, de Rodgers. A obra 
avanava, Lenita trabalhava com ardor, mas tambm com muita pacincia, com muito jeito. O 
ao mordia, esmoa o barro frivel quase sem rudo. Um rastilho de p amarelado maculava o 
vestido preto da moa.
Deslocou-se o torro, e caiu para dentro, dando um som surdo ao tombar no cho fofo, de 
terra mal batida.
Estava feito o buraco.
Lenita retraiu-se, ficou imvel, sustendo a respirao.
Aps instantes estendeu o pescoo, espiou. Nada pde ver: estava muito escuro dentro. 
Ouvia-se um ressonar alto, igual. 
Passou-se um longo trato de tempo.
O brilho das estrelas empalideceu. Uma faixa de luz branca desenhou-se ao nascente, 
ruborizou-se, purpurejou inflamada com reflexos cor de ouro. O ar tornou-se mais fino, mais 
sutil e a passarada rompeu num hino spero, desacorde, mas alegre, festivo, titnico, saudando o 
dia que despontava.
Ouviu-se o sino da fazenda vibrar muito sonoro.
Lenita tomou a espiar: a casa do tronco j estava clara.
A um canto espalmava-se um estrado de madeira engordurado, lustroso pelo rostir de 
corpos humanos sujos. As tbuas que o constituam embutiam-se em um slido prancho de 
cabriva, cortado em dois no sentido do comprimento: as duas peas por ele formadas 
justapunham-se, articulando-se de um lado por uma dobradia forte, presas de outro por uma 
fechadura de ferrolho. Na parte superior da pea fixa e na inferior da mvel havia piques 
semicirculares, chanfrados, que, ao ajustarem-se essas peas, coincidiam, perfazendo furos bem 
redondos, de um decmetro mais ou menos de dimetro.
Era o tronco.
Sobre o estrado, de ventre para o ar, com as pernas passadas, pouco acima dos tornozelos, 
nos buracos dos pranches, envolto em uma velha coberta de l parda, despedaada, imunda, 
tinha atravessado a noite o escravo fugido.
Dormira, ao bater do sino acordara.
Segurando-se a um joelho com as mos ambas, sentara-se por um pouco, espreguiara, 
volvera a deitar-se, com os membros doloridos, resignado.
Abriu-se a porta, e entrou o administrador seguido por um dos caboclos que tinham 
trazido o preto.
- Ol, seu mestre! gritou o caboclo, olhe o que aqui lhe trago: chocolate, caf, berimbau. 
E a correia na ponta do pau. Vai chuchar cinqenta para largar da moda de tirar cip por sua 
conta. No sabe que negro que foge d prejuzo ao senhor? Olhe s este pincel, est tinindo, est 
beliscando!
E sacudia ferozmente o bacalhau.
 um instrumento sinistro, vil, repugnante, mas simples.
Toma-se uma tira de couro cru, de trs palmos ou pouco mais de comprimento, e de dois 
dedos de largura. Fende-se ao meio longitudinalmente, mas sem separar as duas talas nem em 
uma, nem outra extremidade. Amolenta-se bem em gua, depois se torce e se estira em uma 
tbua, por meio de pregos, e pe-se a secar. Quando bem endurecido o couro, adapta-se um cabo 
a uma das extremidades, corta-se a outra, espontam-se as duas pemas a canivete, e est pronto.
O administrador abriu o tronco, o negro ergueu-se bafo, trmulo, miservel.
Sob a impresso do medo como que se lhe dissolviam as feies.
Caiu de joelhos, com as mos postas, com os dedos nodosos enclavinhados.
Era a ltima expresso do rebaixamento humano, da covardia animal.
Infundia d e nojo.
- Pelo amor de Deus, seu Man Bento, nunca mais eu fujo!
E chorava desesperadamente.
- No faa barulho, rapaz, respondeu o administrador. So ordens do senhor, ho de ser 
cumpridas.
- V chamar o sinh!
- O senhor est deitado, no vem, no pode vir c. Deixe-se de histria, arreie as calas e 
deite-se.
- Nossa Senhora me acuda!
- Voc no chama por Nossa Senhora quando trata de fugir, gritou impaciente o caboclo. 
Vamos, vamos acabar com isto, ande.
O infeliz volveu os olhos em torno de si, como procurando uma aberta para a fuga. 
Desenganado, decidiu-se.
Com movimentos vagarosos, tremendo muito, desabotoou a cala suja, deixou-a cair, 
desnudou as suas ndegas chupados de negro magro, j cheias de costuras, cortadas de cicatrizes.
Curvou as pernas, ps as mos no cho, estendeu-se, deitou-se de bruos.
O caboclo tomou posio  esquerda, mediu a distncia, pendeu o corpo, recuou o p 
esquerdo, ergueu e fez cair o bacalhau da direita para a esquerda, vigorosamente, rapidamente, 
mas sem esforo, com cincia com arte, com elegncia de profissional apaixonado pela 
profisso.
As duas correias tesas, duras, sonoras, metlicas, quase silvavam, esfolando a epiderme 
com as pontas aguadas.
Duas riscas branquicentas, esfareladas, desenharam-se na pele roxa da ndega direita.
O negro soltou um urro medonho.
Compassado, medido, erguia-se o bacalhau, descia rechinante, lambia, cortava.
O sangue ressumou a princpio em gotas, como rubins lquidos, depois estilou contnuo, 
abundante, correndo em fios para o solo.
O negro retorcia-se como uma serpente ferida, afundava as unhas na terra solta do cho, 
batia com a cabea, bramia, ululava.
- Uma! duas! trs! cinco! dez ! quinze! vinte! vinte e cinco!
Parou um momento o algoz, no para descansar, no estava cansado; mas para prolongar 
o gozo que sentia, como um bom gastrnomo que poupa um acepipe fino.
Saltou por cima do negro, tomou nova posio, fez vibrar o instrumento em sentido 
contrrio, continuou o castigo na outra ndega.
- Uma! duas! trs! cinco! dez ! quinze! vinte! vinte e cinco!
Os uivos do negro eram roucos, estrangulados: a sua carapinha estava suja de terra, 
empastada de suor.
O caboclo largou o bacalhau sobre o estrado do tronco e disse:
- Agora uma salmorazinha para isto no arruinar.
E, tomando da mo do administrador uma cuia que esse trouxera, derramou o contedo 
sobre a derme dilacerada.
O negro deu um corcovo; irrompeu-lhe da garganta um berro de dor, sufocado, atroz, que 
nada tinha de humano. Desmaiou.
Lenita sentia um como espasmo de prazer, sacudido, vibrante; estava plida, seus olhos 
relampejavam, seus membros tremiam. Um sorriso cruel, gelado, arregaava-lhe os lbios, 
deixando ver os dentes muito brancos e as gengivas rosadas.
O silvar do azorrague, as contraes os gritos do padecente, os fiar de sangue que ela via 
correr embriagavam-na, dementavam-na, punham-na em frenesi: torcia as mos, batia os ps em 
ritmo nervoso.
Queria, como as vestais romanas no ludo gladiatrio, ter direito de vida e de morte; 
queria poder fazer prolongar aquele suplcio at  exausto da vtima; queria dar o sinal, pollice 
verso, para que o executor consumasse a obra.
E tremia, agitada por estranha sensao, por dolorosa volpia. Tinha na boca um saibo de 
sangue.

Captulo 7
Havia quase uma semana que estava chovendo continuamente. As matas alegres, viosas, 
muito lavadas reviam gua pela fronde. O tapete espesso de folhas mortas, que cobria o solo nas 
matas, estava ensopado, desfeito, ia-se reduzindo a hmus. A terra nua nos caminhos, limosa, 
esverdeada nos taludes e nas rampas, empapada, semilquida no leito plano, cortada 
longitudinalmente pelas trilhas dos carros, batida, revolvida, amassada pelos ps dos animais, ora 
alteava-se em almofadas de lama, ora cavava-se em poas de gua barrenta, amarela em uns 
lugares, em outros cor de sangue. Corria o enxurro torrentoso, rpido, enxadrezado nos declives; 
manso, espraiado em toalhas, banhando as razes das gramneas no chato, no descampado.
Os campos eram brejos, os brejos lagos.
No pomar as laranjeiras pendiam os grelos em um desfalecimento mido; as ameixeiras, 
as mangueiras, os pessegueiros, os cajueiros viavam muito lustrosos. O cu pardo, como que 
descido, parecia muito perto da terra.
O ribeiro transbordando roncava em marulhos.
Lenita sentada, encorujada na rede, com as pernas cruzadas,  chinesa, levava a maior 
parte do dia a ler, conchegando-se no xale, friorenta, aborrecida, esplentica.
Rememorava por vezes as mudanas, as alternativas fisiopsquicas por que tinha passado 
na fazenda, onde no encontrara uma pessoa de sua idade, de seu sexo ou de sua ilustrao a 
quem comunicar o que sentia, que a pudesse compreender, que a pudesse aconselhar, que a 
pudesse fortalecer nessa terrvel batalha dos nervos.
Analisava a crise histrica, o erotismo, o acesso de crueldade que tivera. Estudava o seu 
abatimento atual irritadio, dissolvente, cortado de desejos inexplicveis. Surpreendia-se 
amiudadas vezes a pensar sem o querer no filho do coronel, nesse homem j maduro, casado, a 
quem nunca vira; sentia que lhe pulsava apressado o corao quando falavam nele na sua 
presena. E conclua que aquilo era um estado patolgico, que minava um mal sem cura.
Depois mudava de pensar: no estava doente, seu estado no era patolgico, era 
fisiolgico. O que ela sentia era o aguilho gensico, era o mando imperioso da sexualidade, era 
a voz da carne a exigir dela o seu tributo de amor, a reclamar o seu contingente de fecundidade 
para a grande obra da perpetuao da espcie.
	E lembrava-lhe a ninfomania, a satirase, esses horrores com que a natureza se vinga de 
fmeas e machos que lhe violam as leis, guardando uma castidade impossvel; lembrava-lhe o 
horror sagrado que aos povos da Grcia e Roma inspiravam esses castigos de Vnus.
	Entrevia como em uma nuvem as ninfas gregas de Dictynne, as vestais romanas, as 
odaliscas molitas, as monjas crists plidas, convulsivas, com os lbios em sangue, com os olhos 
em chamas, a contorcerem-se nos bosques, nos leitos solitrios; a morderem-se loucas, bestiais, 
espicaadas pelos ferres do desejo.
	Desfilavam-lhe por diante, lbricas, vivas, palpveis quase, Pasifae, Fedra; Jlia, 
Messalina, Teodora, Impria; Lucrcia Borgia, Catarina da Rssia.
	Um dia entrou na sala o coronel.
	- Grande novidade! A me vem o rapaz... rapaz  um modo de falar, o velho, o caador do 
Paranapanema.
	- Seu filho?
	- Sim. Tambm era tempo, eu j estava com saudades.
	- Mas no preveniu, no pediu conduo...
	- Pois eu no dizia? aquilo  assim mesmo,  espeloteado. No quer, no sabe esperar; 
no est para demoras. Alugou animais no Rio Claro, e a vem vindo.
	- Como soube?
	- Por um caboclo que partiu de l ao amanhecer, e que agora passou por aqui.
	- Ento seu filho vem tomando esta chuvarada?
	- Isso para ele  um pau para um olho, est acostumado.
	- A que horas acha que chega?
	- So seis lguas de caminho. Ele de certo saiu depois do almoo, s 10 horas. Como a 
estrada est ruim, gastar umas seis ou sete horas. As quatro, s cinco horas ao mais tardar, 
rebenta por a. O que eu quero saber  se voc quer jantar s horas do costume ou se concorda 
em que o esperemos.
	- Havemos de esperar, boa dvida!
	O coronel saiu.
	Lenita saltou lesta da rede, correu ao seu quarto, penteou-se com desvanecimento, ergueu 
os cabelos, prendeu-os no alto da cabea; deixando a nuca bem a descoberto. Espartilhou-se, 
tomou um vestido de merin afogado, muito singelo, mas muito elegante brincos, broche, 
braceletes de nix , calou sapatinhos Luiz XV, cuja entrada muito baixa deixava ver a meia de 
seda preta com ferradurinhas brancas em relevo. No peito,  esquerda, pregou duas rosas plidas, 
meio fechadas, muito cheirosas.
	- Bravo! que linda que est a senhora D. Lenita! bradou o coronel, entusiasmado ao v-la. 
Pena  que esteja gastando cera com ruim defunto: o rapaz no  rapaz, e ainda, por mal de 
pecados,  beco sem sada.
	Lenita corou um pouco, riu-se.
	- Vamos, vamos l para dentro: quero que a velha a veja nesse reto. Francamente, est 
bonita a fazer virar a cabea ao prprio Santo Anto ! Como lhe assenta a voc essa roupa preta 
afogadinha! Sim, senhora!
	Ia quase anoitecendo.
	A chuva caa forte, compassada, ininterrompida: em todas as depresses de terreno 
estancava-se a gua; por todos os declives corria ela em torrentes, em borbotes, em jorros, em 
filetes.	
	No alto do morro fronteiro, cortado pela estrada, assomaram dois cavaleiros e uma besta 
de canastrinhas.
	Vagarosos, escorregando a cada passo na ladeira lamacenta, lisa, comearam a descer 
procurando a fazenda.
A gua da chuva, pulverizada no ar, esbatia-lhes os contornos em urna como atmosfera cinzenta, 
riscada obliquamente pelo peneirar dos pingos grossos. 
	O coronel viu-os por uma janela, atravs dos vidros embaciados.
	- L vem Manduca, disse.
	Coitado! vem como um pinto !
	Lenita parou o movimento brando da cadeira de balano, largou o Correio da Europa que
estava lendo, deixou cair os braos sobre as coxas, recostou a cabea no espaldar, quedou-se 
imvel, muito plida, quase desfalecida. O sangue reflura-lhe ao corao que batia 
descompassado.
	Chegaram os viajantes.
	Ouviu-se o tinir de freios sacudidos nervosamente pelas cavalgaduras, depois o chapinhar 
pesado de botas ensopadas, enlameadas, e o arrastar sonoro de esporas no pedrado do alpendre.
	O coronel, trpego, correu ao encontro do filho.
	- Que raio de tempo! Disse este ao entrar na ante-sala, batendo duro os ps na soleira da 
porta, e tirando a capa de borracha que foi pendurar a uma estaqueira. Adeus, meu pai, vosmec 
bom, eu vejo; minha me na mesma, no?
	- Tudo na forma do costume.
	E voc? boas caadas? boa sade?
	- Caadas esplndidas, hei de lhe contar. Sade de ferro, a no ser a maldita enxaqueca 
que me no larga, e que neste momento mesmo me est atormentando de modo horroroso. Vou 
l dentro ver minha me, e sigo para o meu quarto: deve estar pronto. Mande o Amncio levar-
me uma chaleira de gua a ferver, e uma pouca de farinha mostarda, para eu tomar um pedilvio 
sinapizado.
	- Voc no jantou, e de certo almoou mal : coma alguma coisa que h de fazer-lhe bem.
	- Comer! mal de  mim se comesse estando de enxaqueca.
	- Que maada! Eu e a Lenita que o estvamos esperando para jantar...
	- Lenita! Quem  Lenita?
	-  a neta do meu velho amigo Cunha Matoso, filha do meu pupilo, o doutor Lopes 
Matoso, que morreu logo depois que voc foi para o Paranapanema. No recebeu a minha carta 
nesse sentido?
	- Recebi, lembra-me muito o Lopes Matoso. Com que ento a filha est agora aqui?
	- Est, coitada. No pde ficar na cidade, era-lhe muito dolorosa a falta do pai. Vem c, 
Lenita, vem ver o meu filho. Chama-se Manuel Barbosa.
	Lenita veio da sala, adiantou-se para o recm-chegado, cumprimentou-o com uma 
inclinao da cabea.
	Ele tirou o seu chapu alagado, retribuiu o cumprimento.
	- Um seu criado, minha distinta senhora. Desculpar-me- no apertar-lhe a mo: estou 
imundo, estou que  s barro da cabea aos ps.
	Manuel Barbosa era homem de boa altura, um tanto magro. A roupa molhada colava-se-
lhe ao corpo, acentuando-se as formas angulosas. Cabelos desmesuradamente grandes, 
empastados, correndo gua, cobriam-lhe a testa, escondiam-lhe as orelhas. As barbas grisalhas, 
crescidas, davam-lhe um aspecto inculto, quase feroz. Com a enxaqueca estava plido, muito 
plido, bao, terroso. Piscava muito os olhos para furtar-se  ao da luz. Tinha as plpebras 
batidas, trmulas, e muitos ps de galinha encarquilhavam-lhe os cantos externos dos olhos.
	Lenita, desapontadssima, mirava-o com uma curiosidade dolorosa.
	- Minha senhora, continuou ele, sinto imenso que vossa excelncia tenha esperado por 
mim para jantar, e que a minha negregada enxaqueca prive-me hoje do prazer de sua companhia. 
Queira conceder-me licena.
E varou para o interior, sacudidamente, brutalmente, fazendo soar as esporas, deixando no 
assoalho as marcas midas das botas enlameadas. O coronel acompanhou-o.
	Lenita recolheu-se ao seu quarto, bateu as janelas, no quis jantar, no quis cear, 
respondeu quase com desabrimento ao coronel, que insistia com ela para que fosse  mesa comer 
uma asa de frango, uma talhadinha de presunto, algum doce ao menos.
	Sacou do peito com violncia as duas bonitas rosas, atirou-as ao cho, calcou-as aos ps, 
esmurregou-as, despiu-se freneticamente, aos pinchos, arrancando os botes arrebentando os 
colchetes.
	Com um movimento de pernas rpido, sacudido, fez voar longe os sapatinhos, atirou-se  
cama encolheu-se como uma bola, mordeu os braos, despediu num pranto convulso.
	Chorou, soluou por muito tempo. Esse descarregamento nervoso aliviou-a; acalmou-se, 
sossegou.
	Entrou a refletir.
	Conceber um ideal, pensava ela, anima-lo como uma me amima o filho, ajeita-lo, vesti-
lo cada dia com uma perfeio nova, e, de repente, ver a realidade impor-se esmagadoramente 
prosaica, chatamente bruta, bestialmente chata!
	Idealizar um caador de Cooper, um Nemrod forte at diante de Deus, um atleta 
musculado como um heri da antigidade, e ver sair pela frente um sujeito pulha, enlameado, 
velho, de melenas intonsas e barbas grisalhas, um almocreve, um arneiro que quase a tratara mal!
	E ainda por cima juraria que ele tresandava a cachaa: sentira-lhe a bifada quando ele 
falou.
	Mas, em suma, que lhe importava a ela esse homem, com quem nunca conversara, que 
nunca sequer tinha visto, cuja existncia at pouco  ignorava?
	Pois no havia ela em tempo desprezado a corte assdua de uma nuvem de pretendentes? 
	E nesse momento mesmo, debaixo de certo ponto de vista, no estava at melhor, 
relativamente  a coisas do corao? Sem pai, sem me, sem irmos, emancipada, absolutamente 
senhora de si, rica, formosa, inteligente, culta, bastava-lhe mostrar-se na cidade, ou melhor, em 
So Paulo, na corte, aparecer nas reunies, deixar-se admirar para tronejar, para ser soberana, 
para receber ovaes, para haurir, a saciedade, o incenso da lisonja. Por que teimar em 
permanecer na fazenda?
	- Se era a necessidade orgnica, gensica de um homem que a torturava, por que no 
escolher de  entre  mil um marido forte, nervoso, potente, capaz de satisfaz-la, capaz de sacia-
la?
	E se um lhe no bastasse, por que no conculcar preconceitos ridculos, por que no 
tomar dez, vinte, cem amantes, que lhe matassem o desejo, que lhe fatigassem o organismo?
	Que lhe importava a ela a sociedade e as suas estpidas convenes de moral?
	Mas a cor amarelenta de Manuel Barbosa, seus olhos piscos, seus cabelos por cortar, sua 
barba repugnante, sua roupa molhada!
	E o fartum de pinga, a bifada?
	No lhe podia perdoar, odiava-o, tinha vontade de esbofete-lo, de cuspir-lhe no rosto.
	Era um contra-senso; estar sempre a recair, a ocupar-se de uma criatura vulgar, 
comunssima, que lhe no merecia dio, com a qual no valia a pena perder um pensamento.
	Voltaria para a cidade... no, iria So Paulo, fixar-se-ia a de vez compraria um terreno 
grande em um bairro aristocrtico, na Rua Alegre, em Santa Efignia, no Ch, construiria um 
palacete elegante, gracioso, rendilhado,  oriental, que sobressasse, que levasse de vencida esses 
barraces de tijolos, esses monstrengos impossveis que por a avultam, chatos, extravagantes,  
fazendeira,  cosmopolita, sem higiene, sem arquitetura, sem gosto. F-lo-ia sob a direo de 
Ramos de Azevedo, tomaria para decoradores e ornamentistas Aurlio de Figueiredo e Almeida 
Jnior. Trastej-lo-ia de jacarand preto, encerado, com esculpidos foscos. Faria comprar nas 
ventes de Paris, por agentes entendidos, secretrias, mesinhas de legtimo Boule. Teria couros 
lavrados de Crdova, tapetes da Prsia e dos Gobelins, fukusas do Japo. Sobre os consolos, 
sobre os dunquerques, em vitrinas; em armrios de pau ferro rendilhado, em tageres, pelas 
paredes, por toda a parte semearia porcelanas profusamente, prodigamente - as da China com o 
seu branco leitoso, de creme, com as suas cores alegres suavissimamente vvidas, as do Japo, 
rubro e ouro, magnficas, provocadoras, luxuosas, fascinantes; os grs de Satzuma, artsticos, 
trabalhos rabes pelo estilo, europeus quase pela correo do desenho. Procuraria vasos, pratos 
da pasta tenra de Svres, ornamentados por Bouchet, por Armand, por Chavaux pai, pelos dois 
Sioux; contrapor-lhes-ia as porcelanas da fbrica real de Berlim e da imperial de Viena, azuis de 
rei aquelas, estas cor de sangue tirante a ferrugem; enriquecer-se-ia de figurinhas de Saxe, ideais, 
finamente acabadas, deliciosssimas. Apascentaria os olhos na ptina untuosa dos bronzes do 
Japo, nas formas to verdadeiras, to humanas da estaturia grega, matematicamente reduzida 
em bronze por Colas e Barbedienne. Possuiria mrmores de Falconet, terracotas de Clodion, 
netsks, velhssimos, rendilhados, microscpicos, prodigiosos. Mirar-se-ia em espelhos de 
Veneza, guardaria perfumes em frasquinhos facetados de cristal da Bomia. Pejaria os escrnios, 
as vide-poches de jias antigas, de crislitas e brilhantes engastados em prata, de velhos 
relicrios de ouro do Porto.
	Teria cavalos de preo, iria  Ponte Grande,  Penha  Vila Mariana em um huit-ressorts 
parisiense sem rival, tirado por urcos pur-sang, enormes, calorosos, de cor escura, de plo muito 
fino.
	Far-se-ia notar pelas toilettes elegantssimas, arriscadas, escandalosas mesmo.
Viajaria pela Europa toda, passaria um vero em So Petersburgo, um inverno em Nizza subiria 
ao Jungfrau, jogaria em Monte Carlo.
Havia de voltar, de oferecer banquetes; havia de chocar paladares, habituados ao picadinho e ao 
lombo de porco, dando-lhes arenques fumados, caviar, perdizes faisandes, calhandras assadas 
com os intestinos, todos os mil inventos dos finos gastrnomos do velho mundo: seus convivas 
haviam de beber Johannisberg, Tokai, Constana, Lcrima Christi, Chatau Iquem, tudo quanto 
fosse vinho caro, tudo quanto fosse vinho esquisito.
	Teria amantes, por que no?
	Que lhe importavam a ela as murmuraes, os diz-que-diz-que da sociedade brasileira, 
hipcrita, maldizente. Era moa, sensual, rica - gozava. Escandalizavam-se, pois que se 
escandalizassem. 
	Depois, quando ficasse velha, quando se quisesse aburguesar, viver como toda a gente, 
casar-se-ia.
	Era to fcil, tinha dinheiro, no lhe haviam de faltar titulares, homens formados que se 
submetessem ao jugo uxrio que lhe aprouvesse a ela impor-lhes. Era pedir por boca, era s 
escolher.

Captulo 8
	Cessara a chuva, estava um tempo esplndido. A luz branca do sol coava-se por um ar 
muito fino em um cu muito azul, sem uma nuvem. A natureza expandia-se alegre como um 
enfermo que volta  vida, como um convalescente.
	Lenita levantou-se de boa sade, mas aborrecida, contrariada. A lembrana do Manuel 
Barbosa torturava-a. Ter de encontrar-se com ele a todas as horas,  mesa, na sala, v-lo passear 
pela casa, pelo terreiro, v-lo refestelar-se, bamboar-se nas cadeiras de balano, com as melenas, 
com as barbas grisalhas... era horroroso.
Quando a chamaram para almoar foi cheia de displicncia, contrariadssima. Atara os cabelos 
negligentemente, envolvera-se em um xale, ao desdm, sem se espartilhar, sem se apertar sequer. 
Calara chinelos.
	Entrou na varanda com os olhos baixos, resolvida a no encarar o antiptico comensal.
	A mesa estava o coronel. 
	- Bom dia, Lenita, ento, como vai isso agora? muito desapontada com o rapaz, no? Pois 
olhe, ele ainda f-la melhor: partiu hoje de madrugada para a vila.
	Tinha um negcio urgente a tratar, pelo menos foi o que disse: chegou e saiu. A 
enxaqueca dele  assim, atormenta-o que  um desespero, mas com uma hora de sono passa sem 
deixar vestgios.
	- Estimo muito que tenha sarado, respondeu Lenita secamente e pensou baixo: que durma 
um dia at no acordar mais. Um animal daqueles o melhor que pode fazer  morrer,  rebentar. 
O mundo  da fora e tambm da beleza, porque em suma a beleza  uma fora. As barbas! as 
barbas! Que leve o diabo a ele, mais a elas. 
	E ficou muito contente por no ter de ver, por no ter de aturar Manuel Barbosa, ao 
menos esse dia.
	Demais estava resolvida, no havia de ficar muito tempo na fazenda, partiria logo para a 
cidade e de l para So Paulo.
	Almoou com prazer, tocou piano, deu um grande passeio a p, jantou, s pensou em 
Manuel Barbosa duas ou trs vezes, isso mesmo com menos indignao, sem ressentimento, 
indiferente quase, achando-se apenas ridcula a si prpria por t-lo arvorado um heri durante um 
longo acesso de extravagncia histrica. Era um pobre diabo, caipiro, velhusco, achacoso. 
Caava por caar, sem intuio potica, bestialmente, como qualquer caboclo. Bebia pinga. 
Verdade era que tinha estado na Europa, mas ter estado na Europa no muda a constituio a 
ningum. Ele era o que ela devia esperar que ele fosse, um tipo muito sem imponncia, reles, 
abaixo at da craveira comum. 
	Ao anoitecer recolheu-se, comeou a arrumar os seus bronzes, os seus bibelots de 
marfim, de porcelana. Envolvia-os cuidadosamente, amorosamente em papel de seda, arranjava-
os no fundo de um enorme ba americano que trouxera, calava-os, protegia-os com jornais 
velhos fuxicados, com guardanapos, com lenos, com pequenas roupas. Tinha cuidados 
meticulosos, maternais, de amadora apaixonada. Por vezes esquecia-se a remirar embevecida 
uma jarrinha de Svres, uma estatueta primorosa: no auge do entusiasmo beijava-a.
	Alta noite, muito tarde, estando j deitada ouviu um tropear de animais, passos de gente, 
tinidos de esporas.
	- A chega o bruto, disse consigo, e continuou a pensar na sua ida prxima para a cidade, 
e de l para So Paulo.
O tempo estava firme: a uma noite limpa, estrelada, fria, sucedera um dia como o da vspera, 
luminoso, assoalhado.
	Lenita levantou-se muito cedo, tomou um copo de leite, deu um passeio pelo pasto. De 
volta entrou no pomar a ver os figuinhos novos, os cachos tenros das vides.
	- De uma laranjeira-cravo, que se erguia folhuda desde o cho, viosa, esparramada, 
esfuziou de  sbito um tico-tico.
	Tem ninho, pensou consigo Lenita, e comeou a procurar, abrindo, afastando os ramos.
	Deteve-se, aspirou o ar: sentia um cheiro bom de sabonete Legrand e de charuto havana.
	Deu volta  laranjeira e topou com Manuel Barbosa que se encaminhava para ela, 
risonho, palacianamente curvado, na mo direita o chapu, na esquerda um cravo rubro, 
perfumado, esplndido.
	Perto o charuto, que ele deitara fora, desprendia uma espiral de fumo, azulada, tnue.
	Lenita parou confusa, atnita, sem saber o que pensasse.
	O homem que a vinha no era o Barbosa da vspera, era uma transfigurao, era um 
gentleman em toda a extenso da palavra.
	A testa alta, estreita, lisa, mostrava-se a descoberto, com uma zona muito alva  raiz do 
cabelo: esse, cortado,  meia cabeleira, recurvava-se a frente em uma elegante pastinha  Capoul, 
a que dava certo realce muitos fios cor de prata. O rosto era regularssimo, estava muito bem 
barbeado.  palidez da vspera sucedera uma cor sadia de pele clara, mordida, bronzeada pelo 
sol. A boca, de tipo saxnio puro, encimada por um bigode cuidadosamente aparado e seu tanto 
ou quanto grisalho, abria-se em um sorriso bondoso e franco, mostrando dentes fortes, regulares, 
muito limpos. Estatura esbelta, ps delicados, mos muito bem feitas, muito bem tratadas.
	Trazia um costume folgado de casimira dar, gravata creme, camisa alvssima, de 
colarinho deitado, mostrando em toda a sua fora o pescoo robusto. Na lapela do veston tinha 
uma rosa de cheiro muito repolhuda.
	Chegou-se a Lenita polidamente, graciosamente.
	- Minha senhora, triste juzo h de vossa excelncia ter feito de mim anteontem. Quando 
estou com enxaqueca deixo de ser homem, torno-me urso, torno-me hipoptamo. Quer fazer-me 
a honra de aceitar este cravo? Olhe, d-me licena, eu sou um velho, podia ser seu pai.
	E com uma familiaridade confiada prendeu a flor no cabelo da moa.
	Depois, afastando-se dois passos, mirou-a, entortando a cabea, com ares de entendedor, 
e disse:
	- Que bem que vai esse vermelho vivo nos seus cabelos pretos. Est linda.
	O olhar que coava por entre as plpebras semicerradas de Barbosa era to doce, to 
paterna, a sua fala era to untuosa, que Lenita no se revoltou, no repeliu a ousadia. Sorriu-se e 
perguntou: - Est agora perfeitamente bom, no tem cansao da viagem, no tem ressaibos da 
molstia?
- Oh! no. Viagens no me fatigam, e a minha enxaqueca, em passando, passou, no deixa 
vestgios. Quer aceitar o meu brao?
- Vamos dar uma volta pelo pomar, fazer horas para o almoo?
	Lenita acedeu.
	Em um instante, como por ao eltrica, seus sentimentos se tinham transformado: aos 
ardores pelo homem ideal da cisma histrica,  antipatia pelo homem real da antevspera, 
entrevisto em circunstncias desfavorveis todas, sucedera a nesse lugar, repentinamente um 
afeto calmo e bom que a subjugava, que a prendia a Barbosa. Achava nele que era de bonomia 
superior, de familiaridade comunicativa que lhe lembrava Lopes Matoso.
	Passearam, conversaram muito. Falaram principalmente de botnica. Barbosa estabeleceu 
um confronto detalhado entre a flora do velho mundo e a do novo; entrou em apreciaes 
tcnicas; desceu a minudncias de sua prpria observao pessoal.  alternativa matemtica das 
estaes do ano na Europa contraps a magnificncia montona da primavera eterna brasileira. 
Fez notar que l domina nas matas o exclusivismo de uma espcie, que h bosques s de 
carvalhos, s de castanhos, s de lamos, ao passo que c acotovelam-se, emaranham-se em 
pequeno espao cem famlias, diversssimas a ponto de no se encontrarem, muitas vezes, dois 
indivduos da mesma variedade em um raio de mil metros.
	Abriu uma exceo em Minas e no Paran para a Araucaria brasiliensis, abriu excees 
para as palmeiras intertropicais, a que chamou legio. Lenita acompanhou-o com interesse sumo, 
revelando conhecimento aprofundado da matria, fazendo-lhe perguntas de entendedora. Citou 
Garcia D'orta, Brtero e Martius, criticou Correia de Melo e Caminho, confessou-se, em relao 
a espcies, sectria, ardente de Darwin, cujas opinies radicou a estima entre ambos; quando 
entraram para almoar estavam amigos velhos.
	- Ol? disse o coronel, da porta, ao v-los chegar de brao dado. Muito bom dia ! Leve o 
diabo as tristezas. Com que amiguinhos, era o que eu esperava. Mas vamos, vamos para dentro, 
que j no  sem tempo; o almoo arrefece de uma vez; h meia hora que est na mesa.
	- Sim, senhor, meu pai, a Exrna. senhora dona Helena  para mim uma surpresa, uma 
revelao. Sabia-a muito bem educada, mas supunha-a bem educada, como o so em geral as 
moas com especialidade as brasileiras - piano, canto, quatro dedos de francs, dois de ingls, 
dois de  geografia e... pronto! Pois enganei-me: a Exma. senhora dona Helena dispe de erudio 
assombrosa, mais ainda, tem cincia, verdadeira,  um esprito superior, admiravelmente 
cultivado.
	-  por demais bondoso o : senhor Manuel Barbosa, volveu Lenita visivelmente satisfeita.
	- Olhem vocs uma coisa, acabem-me com essas excelncias, com essas senhorias.  
Lenita para c, Manduca para l e...toca! Cerimnias s para a igreja: a num me fazem elas mal 
aos nervos, at agravam-me o reumatismo. Vamos almoar.
	Da em diante Lenita e Barbosa no se deixaram: liam juntos, estudavam juntos, 
passeavam juntos, tocavam piano a quatro mos.
	Na sala do coronel armaram um gabinete de fsica eletrolgica.
	A velha quadra de paredes corcovadas, carequentas, povoou-se estranhamente de 
instrumentos cientficos modernssimos, nos quais o brilho fulvo do lato envernizado se casava 
ao preto bao das partes enegrecidas,  transparncia cristalina dos tubos de vidro multiformes, 
ao lustroso da madeira brumida dos suportes,  verdura fresca da seda das bobinas.
	Botelhas de Leyde, jarras enormes, agrupadas em baterias formidveis, mquinas de 
Ramsden e Holtez, pilhas compartimentos Kruikshank e de Wollanston, pilhas enrgica de 
Grove, de Bunsen, de Daniell, de Leclanch; pilhas elegantssimas de bicromato de potassa, 
acumuladores de Plant, bobinas de Ruhrnkorf, tubos de Geissler, reguladores de Foucault e 
Duboscq, bugias de Jablochkff, lmpadas de Edson, telefones, telgrafos, tudo isso por a 
protraa as formas esquisitas, fosco, difano, reverberante a um tempo; absorvendo, refrangendo, 
refletindo a luz de mil modos diferentes.
	A eletricidade sussurrava, multiplicavam-se por toda parte fascas azuladas, ouviam-se 
estalidos secos, tintinaes sonoras de campainhas.
	O ar estava picado de um cheiro acre, irritante, de cido aztico e de ozone.
	Barbosa e Lenita, ocupados, embebidos em experincias, trocavam palavras rpidas, 
quase speras, como dois velhos colegas.
	Davam-se um ao outro ordens breves, imperiosas. De repente um deles batia o p, 
contraa o rosto, piscava duro, sacudia o brao: era que tinha havido um descuido, punido logo 
por um choque. O coronel espiava da porta.
	- Que a sua sala estava convertida em senzala de feitiarias, afirmava ele, que de repente 
havia de vir um raio e espatifar aquelas burundangas todas.
	Aos convites instantes de Lenita e do filho para que chegasse a ver de perto os efeitos 
luminosos da eletricidade no vcuo, as coloraes brilhantes produzidas nos tubos de Geissler, 
recusava-se - que l no entraria nem por um decreto; que para livrar-se por toda a sua santa vida 
do desejo de investigar eletricidades, bem lhe bastavam dois choques que apanhara uma feita, na 
estao telegrfica.
	A observao de que a eletricidade lhe podia ser til para a cura do reumatismo, 
contestava que se curasse quem quisesse com tal medicina, que ele no.
	Satisfeita a curiosidade cientfica de Lenita quanto ao estudo experimental da eletrologia, 
que ela dantes s aprendera teoricamente, passaram  qumica e  fisiologia. Depois foram  
gltica, estudaram lnguas, grego e latim com especialidade: traduziram os fragmentos de 
Epicuro, o De Natura Reram de Lucrcio.
	Em estudos, em conversaes que eram prolongamentos dos estudos, em passeios e 
excurses campestres, voava o tempo. Levantavam-se muito cedo, estendiam os seres at muito 
tarde. Uma vez o moleque, que fora buscar o correio, trouxe para Barbosa um volume lacrado. 
Era a exposio das teorias transformistas de Darwin e Haeckel por Viana de Lima. Lenita ficou 
doida de contente com a novidade escrita em francs por um brasileiro. Comearam a leitura 
depois da ceia, prolongaram-na pela noite adiante, e embeveceram-se a tal ponto que o dia os 
surpreendeu.
	Ao empalidecer a luz das velas com os primeiros albores do dia, foi que deram acordo de 
si. Riam muito, recolheram-se desapontados aos seus aposentos, no dormiram. Compareceram 
ao almoo e depois dele continuaram com a leitura.
	 noite, quando depois de despedir-se de Barbosa, entrava para o quarto, Lenita despia-
se, concentrando o pensamento, refletindo sobre o seu estado de esprito, achava-se feliz, notava 
que tinha afetos brandos por tudo que a rodeava, que via a natureza por um prisma novo. Sentia, 
com uma ponta de remorso, que lhe ia esquecendo o pai. E parecia-lhe interminvel o que 
restava da noite, o que ainda faltava para tomar a ver Barbosa.
	Deitava-se, aconchegava-se, procurava adormentar o crebro, repelindo, baralhando as 
idias que se apresentavam. Adormecia. 
	Cedo, muito cedo, ao amiudar dos galos, acordava: erguia-se de pronto, alegrssima; 
escovava os dentes cuidadosamente, mirava-os com desvanecimento ao espelho, chegando muito 
a luz  boca, arregaando muito os beios para ver as gengivas; refrescava a epiderme do busto 
com uma larga abluo fria, umedecia, perfumava o cabelo com gua de violetas, penteava-os 
com esmero, substitua a camisola de dormir por uma camisa finssima de cambraia crivada; 
apertava-se, vestia-se com garridice; limava, espontava, alisava, coloria, brunia as unhas.
	E tudo isso pensando em Barbosa, antegostando a delcia do momento de v-lo, de ouvir-
lhe a voz em um bom dia afetuosssimo, jubiloso; de apertar-lhe a mo, de sentir-lhe o contato 
quente.
	Barbosa j no era moo, pouco dormia, poucas horas de sono lhe bastavam.
	Deitava-se, procurava ler, mas debalde. A imagem de Lenita interpunha-se entre ele e o 
impresso. Via-a junto de si, absorvia-se em contempl-la nessa semi-alucinao, falava-lhe em 
voz alta, desesperava, depunha o livro ou o jornal, estendia-se, virava-se, revirava-se, adormecia, 
acordava, riscava fsforo, olhava o relgio, via que era noite, tomava a adormecer, tomava a 
acordar, e assim continuava at que amanhecia, at que chegava a hora de levantar-se.
	- Que no sabia o que aquilo era, pensava. Admirao por talento real em uma moa, por 
faculdades inegavelmente superiores em uma mulher? Possvel. Mas em Paris trabalhara ele 
muito tempo com madame Brunet, a tradutora sapientssima de Huxley; com ela fizera 
centenares de dissecaes anatmicas, com ela aprofundara estudos de embriogenia; respeitava-
a, admirava-a; e nunca sentia junto dela o que sentia junto de Lenita. E todavia madame Brunet 
no era feia, bem ao contrrio. No, aquilo no era simples admirao. Mas que diabos, era 
aquilo ento? Amor verdadeiro, com objetivo definido, carnal tambm no era: ao p de Lenita 
ainda no tivera desejo algum lascivo, ainda no sofrera o pungir do espinho da caule. Tivera em 
tempo uma paixo que o levara  tolice suprema do casamento, mas isso passara; tinha-se at 
divorciado da mulher com cujo gnio se no tinha podido harmonizar. Casto, era-o at certo 
ponto: s procurava relaes gensicas, quando as exigncias fisiolgicas do seu organismo de 
macho se faziam sentir, imperiosas, ameaando-lhe a sade. E no ligava a isso mais importncia 
do que o exerccio de uma outra funo qualquer, do que satisfao de uma simples necessidade 
orgnica. Mas que era ento o que sentia por Lenita? Amizade no rigor do termo, como de 
homem para homem, e at de mulher para mulher, no era: a amizade  impossvel entre pessoas 
de sexo diferente, a no ser que tenham perdido todo o carter de sexualidade. Amor ideal, 
romntico, platnico? Era de certo isso. Mas ridculo, santo Deus? que oceano de ridculo! 
Quebradeiras sentimentais na casa dos quarenta, quando a endurao do crebro j no permite 
fantasias, quando a luta pela vida j tem morto as iluses?
	O caso era que no podia estar longe da moa, que s junto dela vivia, pensava, estudava, 
era homem. Estava preso, estava aniquilado.

Captulo 9
Quebrara em Santos uma casa comissria importantssima.
O coronel perdia na quebra cerca de trinta contos.
- Que aquela praa era uma cova de Caco, uma Calbria disse ele ao saber da notcia, um 
dia de manh: que comiam o fazendeiro por uma perna; que misturavam o caf bom, mandado 
por ele, com o caf de refugo, com o caf escolha comprado ao desbarato; que essa honestssima 
manipulao chamavam bater, fazer pilha, no que tinham carradas de razo porque era mesmo 
uma batida de dinheiro, uma verdadeira pilhagem de cobres, que davam contas de venda ao 
fazendeiro como e quando muito bem lhes parecia, e que diabo havia de se ver grego para 
verificar a exatido de tais contas; que  custa do fazendeiro comia o intermedirio, comia a 
estrada de ferro com as suas tarifas de chegar, comia o governo com os velhos e novos impostos, 
comia a corporao dos carroceiros, comia a trs carrilhos o comissrio, comia o zango ou o 
corretor, comia o exportador, comiam todos. Que afinal, para coroar a obra, para evaporar o 
restinho de cobre que ficava, l vinha a santa da quebra, a bela da falncia casual, j se deixava 
ver, porque onde h guarda-livros peritos ningum quebra fraudulentamente.
Ficou decidido que Barbosa partiria no dia seguinte para Santos, a ver se conseguia salvar 
alguma coisa do naufrgio. Logo depois do almoo conversou ele por largo espao com o pai, 
discutiu, fez contas, ajustou condies, disps as bases da negociao e, montado a cavalo, foi  
fazenda do vizinho mais prximo, major Silva com quem era necessrio entender-se, porque 
tambm era interessado no negcio.
Ao dizer-lhe adeus Barbosa, Lenita sentiu-se fazer em torno dela um vcuo imenso, certa 
muito embora de que a ausncia era s at  tarde.
A idia de outra ausncia, da ausncia futura, da ida para Santos torturava-a.
Como lenitivo  sua mgoa, quis ela prpria fazer a mala de Barbosa, pretextando que 
no ficaria bom o arranjo pelas mos descuidosas de uma escrava.
Seguiu a mucama encarregada da roupa branca, entrou pela primeira vez no quarto de 
Barbosa.
Ao fundo uma cama estreita de solteiro, estendida, com lenis e fronhas muito alvas; 
junto da cabeceira um criado-mudo de tampo de mrmore, e sobre ele um castial de alfenide 
com um coto de vela de estearina, uma fosforeira de prata e um nmero de Dirio Mercantil; ao 
alcance da mo uma mesa vasta, forrada de baeta verde com alguns livros, aprestos para 
escrever, dois revlveres, um punhal japons e uma fotografia de Sarah Bernhardt; aos ps da 
cama um mancebo para roupa, com muitos braos. Pelas paredes, nos espaos deixados por um 
lavatrio e uma enorme cmoda, botelhas entranadas de vime, faces, armas finas, de caa e de 
alvo, de carregar pela boca, de retrocarga, de repetio, mareadas por Pieper, por Habermann, 
por Greener, por Fruwirth. Um armrio, uma cadeira preguiosa e vrias cadeiras simples 
completavam o trastejamento.
Entrando, Lenita sentiu-se tomada de embarao inexplicvel. Seu pudor revoltava-se, 
parecia-lhe que respirava indecncia naquele aposento de homem.
Correu-se de pejo, corou e com voz mal segura perguntou  mucama pela roupa branca 
de Barbosa.
A mucama abriu uma cmoda, tirou dela e empilhou sobre a cama camisas brancas 
engomadas, camisas de dormir de flanela macia, ceroulas de linho alvssimo, toalhas, lenos 
brancos e de bretanl1a, lenos de seda de cor, meias de fio de Esccia.
Foi buscar e colocou junto da cama uma grande mala inglesa de bojo elstico de fole; no 
couro preto, punha uma nota viva, um pedao de papel encardido com o letreiro - Tamar, cabin. 
Desafivelou as correias, abriu-a em duas.
Lenita forrou um dos compartimentos com uma toalha de algodo mineiro finssimo, 
crivada, franjada em abrolhos, e, com esse cuidado meticuloso, com esse jeito peculiar s 
mulheres moas, comeou a arrumar pea sobre pea, perfumando cada uma com um borrifo de 
essncia Vitria vaporizada.
Na candidez dos linhos destacava-se, em notas cruas, o vermelho-sangue, o azul-de-rei 
dos lenos de seda, o ouro-fosco, o verde-garrafa, o preto-lustroso das meias de fio de Esccia.
A mucama saiu, passou a outro quarto para trazer umas roupas de casimira que Barbosa 
lhe dissera querer levar.
Lenita ficou s. Foi a tirar a ltima camisa de sobre a cama e notou que, no retesado da 
coberta, havia um afundamento apenas visvel  sobre a travesseira rendada uma depresso mais 
cava. Depois de feita a cama, Barbosa com certeza nela se estendera a descansar.
Inconscientemente, automaticamente, atrada, puxada pelos nervos, Lenita ps as mos 
no colcho fofo, curvou-se, aproximou a cabea.
Da travesseira, misturando-se a um aroma suave de gua de Lubin, desprendia-se um 
cheiro animal bom, de corpo humano, so, asseado.
Lenita, haurindo essa emanao sutil, sentiu quer que era eltrico abalar-lhe o organismo: 
era um anseio vago, uma sede de sensaes que a torturava. Quase em delquio, deixou-se cair de 
bruos sobre a cama, afundou o rosto na travesseira, sorveu a haustos curtos, aodados, o odor 
viril, esfregou, rostiu os seios de encontro ao fusto spero da colcha branca. 
Sentia quase o mesmo que sentira na noite da alucinao com o gladiador, um prazer 
mordente, delirante, atroz, com estranhas repercusses simpticas, mas incompleto, falho.
Trincou nos dentes a cambraia da fronha, gemendo, ganindo em contraes 
espasmdicas.
- Eah! gritou a mucama que entrava, sinhazinha est com ataque! e, atirando sobre a 
cadeira a roupa que trouxera, correu para ela, ergueu-a nos braos, sacudiu-a com fora.
Lenita acalmou-se sem demora: estava plida, trmula, tinha os olhos muito brilhantes, a 
boca pegajosa, a fala travada. 
- No  nada disse, foi uma vertigem, j passou. V buscar um copo d'gua.
- Sinhazinha, ponderou a  mucama, o que lhe fez mal foi o cheiro forte do vidro que 
vassunc estava pondo na roupa: a mim tambm me tonteou. Cuidado.
E saiu.
 tarde, Barbosa, quando voltou da fazenda do major Silva, estranhou a Lenita. Ela no o 
procurava, no lhe falava, mal respondia s suas numerosas e reiteradas perguntas.
Contra o costume recolheu-se	 cedo, antes da ceia, pretextando incomodo.
Barbosa despediu-se do pai e da me: no os queria ir acordar de madrugada, e contava 
partir antes de amanhecer.
Entrou para o quarto mas no pde dormir. A viagem que tinha de fazer contrariava-o 
imenso. No sabia como passar ausente de Lenita. As poucas horas que estivera na fazenda do 
major Silva tinham-lhe parecido eternidades.
Viera a galope. E mais, para coroar a obra, os modos bruscos da moa.
Acabou de arrumar a mala.
- Sim, senhor, disse, a Marciana arranjou isto muito bem. Est admirvel, at com gosto,
com arte. Mas, onde diabo foi ela buscar essncia Vitria? Cheira que  uma delcia. Fez jus a 
cinco mil-ris, h de t-los.
Tirou do armrio uma garrafa de conhaque, bebeu um clice, acendeu um charuto.
Entrou a pensar.
	- Que teria Lenita? Teria adoecido assim de repente? Regras, aquilo de certo eram regras: 
lota mulier in utero bem disse Van Helmont. Mas no era que estava mesmo apaixonado pela 
rapariga? Tinha graa!
Puxou com fora uma fumaa, e continuou a pensar!
- Era casado, era quase um velho. Onde iria parar aquilo?.. No levava a fatuidade ao 
ponto de crer que a rapariga estivesse apaixonada tambm pela sua respeitvel pessoa... mas, em 
suma, por que no? Muitos velhos tinham inspirado paixes. A mulher de Lesseps era uma 
mocinha nova, quase uma criana, e casara por paixo. E demais ele, Barbosa, no era velho, era 
homem maduro apenas. Dado que o que havia entre ele e Lenita no fosse, como no podia 
mesmo ser, uma mera afeio de camaradagem, uma simples estima recproca, que havia ele de 
fazer? Casar com Lenita no podia, era casado. Tom-la por amante? Certo que no. 
Preconceitos ntimos no os tinha: para ele o casamento era uma instituio egostica, hipcrita, 
profundamente imoral, soberanamente estpida. Todavia era uma instituio velha de milhares 
de anos, e nada mais perigoso do que arrostar, contrariar de chofre as velhas instituies; elas 
ho de cair, sim, mas com o tempo, a mesma lentido com que se formaram, e no de chofre, 
como u relmpago. A sociedade estigmatizava o amor livre, o amor fora do casamento; fora era 
aceitar o decreto antinatural da sociedade. Demais, seu pai tivera Lopes Matoso em conta de 
filho; tinha a Lenita em conta de neta: um escndalo mago-lo-ia profundamente, mat-lo-ia 
talvez.
Sentou-se junto  mesa, quebrou em um cinzeiro a cinza do charuto, apoiou o cotovelo do 
brao esquerdo sobre o joelho correspondente, encostou a cabea no rebordo interno da mo, 
engolfou-se em cisma, tirando fumaa sobre fumaa.
Aps largo espao ergueu-se, atirou fora a ponta do charuto, entrou a passear nervoso de 
um para outro lado. 
- No, exclamou de repente,  preciso que isto acabe, h de acabar.
Deitou-se.
s trs horas ergueu-se sem ter conciliado o sono, chamou o pajem, mandou-o encilhar 
os animais, lavou-se, vestiu-se, calou botas, calou luvas, envergou o guarda-p, ps o chapu, 
tomou s pressas uma xcara de caf, que uma preta lhe trouxe, saiu, montou a cavalo e, 
acompanhado pelo pajem, seguiu jornada.
Lenita tambm no dormira.
O cheiro humano masculino que respirara na travesseira de Barbosa fora realmente um 
veneno para os seus nervos. Sentia-se de novo presa do mal-estar do histerismo antigo. Tinha 
anseios, tinha desejos, mas anseios, desejos acentuados, visando a objetiva certo. Ela ansiava por 
Barbosa. ela desejava Barbosa.
A seus olhos avultara ele, tomara propores novas, realizara-lhe o ideal. Deixara-se 
subjugar, dominar pelo fsico robusto e nervoso, pela pujante e culta mentalidade de Barbosa.
A fmea altiva, orgulhosa, mas cnscia da sua superioridade, encontrava o macho digno 
de si: a senhora se fizera escrava.
Ao ouvir o estrupido dos animais na partida, Lenita abriu a janela, ergueu a vidraa, 
acompanhou com o olhar os vultos dos dois cavaleiros que se iam perdendo nas brumas da 
madrugada.
Notou que paravam, que se voltava o cavaleiro da frente, cujo guarda-p muito claro 
punha uma nota muito branca no nevoeiro matutino.
Seria por um dos mil pequenos incidentes de viagem que paravam? seria para contemplar 
Barbosa ainda mais uma vez, a casa em que ela ficara? seria uma despedida? 
Sem o querer, inconscientemente, Lenita apinhou os dedos, levou-os  boca, atirou um 
beijo ao espao.
E desatinada, ardendo em pejo, muito embora certa de que ningum a vira, fechou a 
janela arrojou-se  cama desatou em pranto convulso.
Despontou o sol, trazendo dia radiante, lindssimo.
Lenita ergueu-se, vestiu-se s pressas, saiu a dar uma volta pelo pomar, deixando intactos 
o copo de leite e a xcara de caf que lhe levara a servente.
O ar fino da manh purssima, saturado das emanaes balsmicas das rvores abafava-a, 
sufocava-a: parecia-lhe que respirava chumbo.
A luz do sol, a dourar a verdura mole do campo, era crua e incomparvel a seus olhos. 
Achava algo de hostil na vegetao, em tudo.
Era-lhe odiosa a imobilidade dos cerros vizinhos, das montanhas que ao longe divisava. 
Um terremoto, um cataclismo que desmoronasse as serranias, alteando os vales, derramando os 
rios, convulsionando tudo, iria muito melhor ao seu estado de esprito do que essa calma da 
natureza, brbara, estpida.
Figurava-se-lhe estar dentro de um crculo de altas muralhas de ao brunido, cujo 
dimetro se fosse a cada instante estreitando. Tudo lhe falava de Barbosa, tudo lhe recordava.
Aqui era a laranjeira-cravo junto da qual o vira, como em um avatar, como em uma 
transfigurao, risonho, franco, comunicativo, sob o aspecto que em um momento a cativara.
Ali era um grupo de ameixeiras, que servira de assunto a uma preleo de botnica 
industrial. Lembrava-lhe muito bem - ameixeira da ndia, ameixeira do Canad, nomes 
imprprios, origens falsas. A rvore  autctone da China e do Japo, onde vive em estado 
selvagem,  a eriobotria, Mespilus japonica. Est destinada a um grande papel no futuro, quando 
este pas se tomar industrial. A gelia que produz no tem competidora, e a sua aguardente, 
coobada, levar de vencida a famosa kirchwasser.
Alm era um renque de ananazeiros, a cujo respeito a exposio luminosa e fcil de 
Barbosa lhe tirara muitas dvidas. Como lhe vivia na memria a descrio que ele fizera - 
bromelia arianas, famlia das bromeliceas; folhas em corimbos, duras, quebradias, alfanjadas, 
de perto de metro, s vezes, guarnecidas de acleos; flor vermelha ou roxa, a emergir de um 
clice duro, cor de sangue, em pecolos longos de vinte a trinta centmetros; fruto lindo, 
pinhiforme, verde, branquicento, dourado, vermelho, constitudo por uma srie de bagas em 
hlice, soldadas, unificadas umas com as outras, em escamas orladas de pequenas folhas 
escarlates, coroado tudo por um penacho espinhento. Abacaxi, nan, macambira, onore, uaca, 
achupala, nan-iacua, chamava-se no continente sul-americano essa fruta adorvel que, em 
1514, Fernando, o Catlico, declarou, na Espanha a primeira fruta do mundo. Gonzalo 
Hernandez, Lery, Benzoni descreveram-na em suas obras; Cristvo Acosta deu-lhe o nome que 
hoje tem. Conta nada menos de oito variedades; penetrou na frica at s margens do Congo, na 
sia at o corao da China:  soberbo em Pernambuco, mas onde atinge a perfeio em forma, 
em aroma, em gosto, onde chega a ser divino  no Par.
Ainda alm um mamoeiro...
E Lenita sacudiu a cabea, interrompendo desesperada o seu curso de idias; os 
ensinamentos de Barbosa, a sua erudio, o que ela reproduzia, mais lhe acendravam o desalento 
da saudade.
No o podia crer ausente: ele l estava, l devia estar na sala do coronel, a arranjar um 
aparelho eltrico desmanchado: ou na varanda, a procurar em grossos lxicos uma raiz grega ou 
snscrita. Sim, l devia estar dentro, fazendo uma das coisas do costume. Quem sabe se 
precisava dela para o ajudar...
E correu. Antes de chegar ao porto parou. Tolices, Barbosa estava longe, partira, ela o 
vira partir.
A essa hora j tinha andado umas duas lguas, seis mil braas, treze mil e duzentos 
metros: cada minuto afastava-o dela cento e dez metros. No outro dia, s seis horas e dez 
minutos, precisamente, da tarde, deveria estar, estaria em Santos, a quarenta e cinco lguas, a 
trezentos quilmetros, a trezentos mil metros!
Recolheu-se abatida, mal almoou  jantou ainda pior.
Ao entardecer, quando o sol, no descambar, derramava sobre a terra torrentes de luz 
amarela, suave, cor de ouro-velho, projetando ao longe, gigantescas, as sombras dos animais, das 
rvores, das casas, dos cerros, Lenita com o peito opresso, a arfar em flegos curtos, foi sentar-se 
em um bosquezinho denso de amoreiras, sobre um alcantil,  beira do ribeiro.
Oculta pelo tramado da folhagem, ela abrangia um vasto trato de terreno no arco de 
crculo percorrido pelo raio visual. Na verdura veludosa do pasto, punham notas fortes grandes 
vacas muito pretas, malhadas de branco.
Um touro andaluz, vermelho, mugia ao longe, escarvando a terra. Um rebanho de ovelhas 
fuscas de cabeas e pernas muito negras pascia irrequieto, s cabriolas, tosando a grama aqui e 
ali.
Quase a seus ps, sob o alcantil das amoreiras, o riacho espraiava-se em uma corredeira 
rasa, sobre fundo de seixinhos alvos. Um capo de mato ralo comeava  beira da gua, indo 
morrer a pequena distncia.
Lenita contemplava o amplo cenrio, abstrata, distrada, imersa em cisma, olhando sem 
ver. Um mugido fero, ao perto, chamou-a  realidade.
O touro tinha-se aproximado de uma vaca muito gorda, cuja cria, terneira alentada, 
pastava j longe, deslembrada quase da teta.
Chegara-se farejando ansioso, cheirava o focinho da vaca, cheirava-lhe o corpo todo: 
erguera cabea aspirando ruidosamente o ar, mostrando, no arregaar luxurioso da beia, a 
gengiva superior desdentada; soltara um berro estrangulado.
Fora o que Lenita ouvira.
O touro lambeu a vulva da vaca com a lngua spera, babosa, e depois, bufando, com os 
olhos sangneos esbugalhados, pujante, temeroso na fria do erotismo, levantou as patas 
dianteiras, deixou-se cair sobre a vaca, cobriu-a, pendendo a cabea  esquerda, achatando o 
perigalho de encontro ao seu espinhao.
A vaca abriu um pouco as pernas traseiras, corcovou-se, engelhou a pele das ilhargas 
para receber a fecundao. Consumou-se esta em uma estocada rubra, certeira, rpida.
Era a primeira vez que Lenita via, realizado por animais de grande talhe, o ato fisiolgico 
por meio do qual a natureza viva se reproduz.
Esprito culto, em vez de julg-lo imoral e sujo, como se praz a sociedade hipcrita em 
represent-lo, ela achou-o grandioso e nobre em sua adorvel simplicidade.
Um assobiar requebrado e terno que se fazia ouvir no riacho f-la voltar para esse lado. 
Olhou, viu a Rufina, uma crioula nova de seios pulados e duros, de dentes muito brancos.
Chapinhava na gua rasa da corredeira, de cabea alta, risonha, erguendo as fraldas muito 
alto; descobrindo-se at o pbis, mostrando as coxas grossas, musculosas de um negro mate 
arroxado.
A assobiar sempre, avanou at o comeo da corredeira, onde o lveo se afundava um 
tanto, sofraldou-se mais, prendeu a roupa  cinta, curvou-se, imergiu as ndegas na gua 
murmurosa, e, s mos ambas, procedeu a uma abluo de asseio, tnica ao mesmo tempo e 
excitante.
Depois, com gua a escorrer em filetes lustrosos pela pele escura, baa, internou-se no 
capo.
Ouvia-se-lhe sempre o assobio requebrado.
No levou muito e outro assobio respondeu-lhe.
Por uma trilha do ancantil oposto um preto, moo, vigoroso, desceu a correr, atravessou 
rpido a corredeira, internou-se por sua vez no capo.
Cessaram os assobios.
Lenita ouviu um murmurar confuso de vozes intercortadas, viu agitarem-se uns ramos e, 
pelos interstcios dos troncos, por entre o emaranhado dos galhos, lobrigou indistintamente uma 
como luta breve, seguida pelo tombar desamparado, pelo som bao de dois corpos a bater a um 
tempo no solo arenoso do matagal.
Lenita mais compreendeu do que viu. Era a reproduo do que se tinha passado, havia 
momentos, mas em escala mais elevada:  cpula, instintiva, brutal, feroz, instantnea dos 
ruminantes, seguia-se o coito humano meditado, lascivo, meigo, vagaroso.
Abalada profundamente em seu organismo, com a irritao dos nervos aumentada por 
essas cenas cruas da natureza, torturada pela carne, mordida de um desejo louco de sensaes 
completas, que no conhecia, mas que adivinhava, Lenita recolheu-se titubeando, fraqussima.
O coronel tinha passado a noite mal, com um acesso de reumatismo; conservara-se todo o 
dia na cama.
Lenita foi v-lo, demorou-se pouco, retirou-se para o seu quarto, fechou-se por dentro.

Captulo 10
J tinha anoitecido.
No havia luar, mas a noite estava clara. Na transparncia escura do cu tropical as 
estrelas empastavam-se em um amontoamento inverossmil, como punhados de farinha luminosa 
em tela muito negra.
No terreiro, varado, em frente s senzalas, uma fogueira crepitava alegre, espancando a 
escurido com seu brasido candente, com suas lnguas de chamas multiformes, irrequietas.
Os negros tinham acabado uma carpa nesse dia, e o coronel dera-lhes permisso para 
folgar, mandando ao mesmo tempo que o administrador lhes fizesse uma larga distribuio de 
aguardente.
Ao som de instrumentos grosseiros danavam: eram esses instrumentos dois atabaques e 
vrios adufes.
Acocorados, segurando os atabaques entre as pemas, encarapitados, debruados neles, 
dois africanos velhos, mas ainda robustos, faziam-nos ressoar, batendo-lhes nos couros, 
retesados, s mos ambas, com um ritmo, sacudido, nervoso, feroz, infrene.
Negros e negras formavam um vasto crculo agitavam-se, permeavam, 
compassadamente, rufavam adufes aqui e ali. Um figurante, no meio, saltava, volteava, baixava-
se, erguia-se, retorcia os braos, contorcia o pescoo, rebolia os quadris, sapateava em um frenesi 
indescritvel, com uma tal prodigalidade de movimentos, com um tal desperdcio de ao 
nervosa e muscular, que teria estafado um homem branco em menos de cinco minutos.
E cantava:
	Serena pomba, serena;
No cansa de seren!
O sereno desta pomba
Lumeia que nem meta!
Eh! Pomba! eh!

E a turba repetia em coro:

Eh! Pomba! eh!

A voz do cantor, fresca modulada de um timbre sombrio, coberto, tinha uma doura 
infinita, um encanto inexprimvel.
Fechando-se os olhos, no se podia crer que sons to puros sasse a garganta de um preto, 
sujo, desconforme, hediondo, repugnante.
A resposta coral, melopia inarmnica, mas cadenciada em quebros de uma tristeza 
suavssima, repercutia pelas matas no silncio da noite, com uma grandiosidade melanclica e 
estranha.
A letra nada dizia; a toada, o canto era tudo.
E os atabaques retumbavam, rufavam os adufes, desesperadamente.
O danarino, sempre a cantar, sempre naquela agitao, naquela coreomania estupenda, 
percorria a roda sem sustar-se para retomar alento, sem dar mostras de cansado. Em sua testa 
baa no brilhava uma baga de suor.
De repente, vendo um tio inflamado na mo de um companheiro, asiu-o, entrou a 
descrever com ele no ar figuras caprichosas, crculos, elipses, oitos de algarismo. Bateu-o no 
cho, espalhou na roda milhares de falas... O entusiasmo ascendeu ao delrio.
O danarino deitou fora o tio, arrojando-o longe com impulso vigorosssimo. Depois 
afrouxou, moderou um pouco os movimentos. Entreparou ante um dos da roda, bamboando-se, 
fazendo-lhe gaifonas, como que reptando-o para que sasse ao terreiro.
O desafiado aceitou a provocao, saiu-lhe ao encontro, danando, saracoteando-se, 
tambm.
Eh! Pomba! eh! - gemia o coro.
Os figurantes, que eram ento os dois, comearam de girar em torno do outro, atacando-
se perseguindo-se, fugindo, como duas borboletas amorosas. Recuaram, depois avanaram de 
frente, lento, medindo-se. Deixaram pender os braos, afastaram as cabeas, protraram os 
ventres, curvando as pemas, fizeram estalar uma embigada artstica, sonora, retumbante, que se 
ouviu longe.
Eh! pomba! eh! - continuava a gemer o coro.
O primeiro figurante embarafustou-se por entre os companheiros, rompeu a roda, sumiu-
se, deixando s o sucessor que continuou na faina com a mesma galhardia.
Os que no danavam, que no tomavam parte no samba, grupavam-se aos magotes, 
acotovelando-se; olhavam em silncio, enlevados, absortos.
Do solo batido pelo tripudiar de tanta gente erguia-se uma nuvem de p, avermelhada 
pelo claro da fogueira.
A garrafa de aguardente andava de mo em mo: no havia copos; bebiam pelo gargalo.
Ao cheiro de terra pisada, de cachaa, de sarro de pito, sobrelevava dominante um cheiro 
humano spero, aliceo, um odor almiscarado forte, uma catinga africana, indefinvel, que doa 
ao olfato, que cortava os nervos, que entontecia o crebro, sufocante, insuportvel.
Enquanto se danava no terreiro, Joaquim Cambinda, escravo octogenrio, intil para o 
trabalho, estava sozinho, sentado em um cepo, ao p de um fogo de lenha de perova, no paiol 
velho abandonado, que a rogo seu lhe fora concedido para morada.
Era horroroso esse preto: calvo, beiudo, maxilares enormes, com as esclerticas 
amarelas, raiadas de laivos sangneos, a destacarem-se na pele muito preta. Curvado pela idade, 
tardo, trpego, quando se erguia e, envolto na sua coberta de l parda, dava alguns passos, 
similhava uma hiena fusca, vagarosa, covarde, feroz, repelente. Tinha as mos secas, aduncas; os 
dedos dos ps reviravam-se-lhe para dentro, desunhados, medonhos.
O paiol velho formava uma vasta quadra de telha v de cho de terra, esburacado. A um 
canto um chalo de paus rolios, com uma esteira, um travesseiro negro e lustroso, umas traparias 
imundas: era a cama do africano. Por baixo do chalo, no desvo escuro, punha uma nota branca 
um urinol velho de loua ordinria, desbeiado, com um arquiplago de incrustaes ricas no 
fundo muito ftido, nauseabundo. Junto do chalo, uma caixa de pinho, cuja fechadura nova, 
envernizada, destacava-se muito lustrosa na madeira carunchada, enegrecida pela fumaa. Em 
outro canto, fronteiro ao chalo, sobre uma mesa coxa, um oratrio vetusto, de gonzos 
enferrujados, gastos, rodo de ratos em vrios lugares, muito ensebado. Pelas paredes, saquinhos 
de boca amarrada, samburs, porungas de pescoo, guampas boi cartolas antiqussimas, 
sobrecasacas arcaicas, de trs pontas na lapela, do tempo do rei. Por todo o cho, abboras, 
pepinos maduros, espiga de milho com casca, cabos de instrumentos de lavoura, cepos de 
madeira, cascas de ovos, talos de couve, montes de cisco.
 A porta estava apenas cerrada: abriu-se e entrou uma negra ainda moa, magra, baixinha, 
de olhos fundos, olhar febril. Estava vestida de cores muito espantadas, saia amarela, casaco 
vermelho. Tomou a bno a Joaquim Cambinda, e foi sentar-se em silncio junto do fogo.
Um a um, vieram outros pretos e pretas. Entravam, davam louvado ao velho, e, 
silenciosos, acomodavam-se sobre cepos, ao p do fogo: ao todo dez. 
Quando completo esse nmero, Joaquim Cambinda disse:
- Fssa pta1.
A negra que primeiro chegara levantou-se, cumpriu a ordem, voltou a sentar-se em seu 
lugar.
Reinou silncio por largo espao.
Fora ouvia-se o coro retumbando na noite:
 Eh! Pomba! eh!
Joaquim Cambinda acendera um cachimbo de longo canudo, e fumava tranqilo, sem 
parecer dar f dos circunstantes.
Cerca de meia hora levou absorto, com os olhos cerrados meditando, cochilando, a puxar 
fumaas, morosamente, preguiosamente.
Quando se consumiu o carrego do cachimbo, sacudiu as cinzas, bateu-o bem, 
cuidadosamente, soprou-lhe o canudo, encostou-o  parede. Ergueu-se e, lento, titubeante, 
monstruoso, caminhou para o oratrio, chegou, abriu-lhe as folhas da porta de par em par, tirou 
para fora duas velas de cera que estavam dentro, em castiais de lato, riscou fsforos, acendeu-
as, iluminou o interior do nicho, revestido de papel de prata, mareado.
Dois eram os divos desse mesquinho e srdido laranjo: um So Miguel de gesso, 
cambuto, retaco, muito feio, muito pintado de excretos de moscas; e um manipano, tecido 
inteirinho de cordas finssimas de embira, hediondo, pavoroso, mas admirvel pelos detalhes 
anatmicos, estupendo como obra de pacincia.
Os negros ergueram-se todos, reverentes.
-Zelmo, disse Joaquim
Cambinda, uss penso b nu qu uss vai faz, lapssi?
- Penso, mganga.
- Intonsi, uss qu mmo si riss ni rimanri ri San Migu rizma? - Qu, mganga.

Que era muito bom, explicou Joaquim Cambinda na sua meia lngua, pertencer um preto 
 irmandade de So Miguel das Almas, mas que tambm era perigoso; que quem no tinha peito 
no tomava mandinga; que o branco queria, por fora, saber o segredo dos irmos de So 
Miguel, e que para isso surrava o preto, mas que o preto que revelava o segredo de So Miguel 
morria sem saber de qu. Fez o nefito beijar os ps de So Miguel, f-lo beijar os cornos do 
Satans a ele sotoposto, f-lo beijar as partes genitais do manipano; ditou-lhe juramentos 
solenes, cominou-lhe penas terrveis no caso de infrao. Recebeu dele dinheiro, trinta mil-ris, 
seis notas de cinco mil-ris, que estavam no bolso da cala, muito enleadas em um leno de chita 
muito sujo. Passou  parte doutrinaria, entrou a inici-lo na arte terrvel dos feitios e dos 
contras, a dar-lhe meios de matar, de curar. Ensinou-lhe que a semente do mamoninho bravo 
(Datura stramonium), socada, macerada em aguardente, cega, enlouquece, mata dentro de 
poucas horas; que osso de defunto, cuja carne caiu de podre, raspado e posto em uma comida 
qualquer, produz amarelo incurvel; que o sapo verde do mato virgem, sufocado a fogo lento, 
dentro de uma panela nova coberta por testo novo, morre largando uma espumarada branca, com 
a qual, diluda em gua, se produz uma hidropisia necessariamente mortal; que as folhas do 
jaborandi (Pilacarpus pinnatifolius), pisadas, reduzidas a massa, aplicadas aos sovacos, 
produzem suares e salivao, curam muitas molstias; que a raiz de Guin (Mappa graveolens ) 
e a nhandirova (Fieuillea cordifolia) so contras poderosssimos para todas as coisas feitas.
Ensinou mais uma infinidade de supersties, medonhas umas, outras muito ridculas: 
que a mo ressequida de uma criancinha morta sem batismo  um talism precioso para conciliar 
o amor; que uma lasca de pedra de ara, furtada a uma igreja, fecha o corpo, toma-o invulnervel 
a tiros de arma de fogo, a pontaos de arma branca; que caf coado com gua de banho por 
fralda de camisa de mulher, ou por fundilho de ceroula de homem, sem lavar, capta a simpatia, 
amansa o gnio bravo; que corda de enforcado faz ganhar dinheiro ao jogo; que uma figa de raiz 
de arruda, arrancada em sexta-feira maior,  remdio soberano de quebranto, de mal de olhado; 
que, para inutilizar um mestre feiticeiro, para tirar-lhe o poder,  preciso surr-lo com uma vara 
de fumo e quebrar-lhe na cabea trs ovos chocos.
Passou a curar o nefito, fechar-lhe o corpo, a anestesi-lo para no sentir castigos 
fsicos: mandou que se despisse, que se pusesse de quatro ps, como uma besta. Murmurando 
palavras inconexas, frases de engrimano, untou-o com uma pomada ranosa que tirou de uma 
latinha muito oxidada, borrifou-o com uma gua de uma porunga que desprendeu da parede. 
Disse-lhe que era preciso repetir a operao em mais seis sextas-feiras, para que o encanto 
ficasse completo, e o corpo insensvel de uma vez.
Para provar com fatos o seu poder, para demonstrar a eficcia dos seus sortilgios, 
chamou a preta magra, a primeira que viera. Acudiu ela, aproximando-se ligeira, muito contente.
Passou-se uma cena estranha.
Joaquim Cambinda tirou do oratrio uma agulha de coser sacos, comprida, acerada e, 
tomando o brao esquerdo da preta, atravessou-o de parte a parte, em vrios lugares, por vrias 
vezes, sem que ressumasse uma pinga de sangue: a paciente olhava curiosa para o brao, sem dar 
a mnima mostra de dor.
Joaquim Cambinda largou a agulha, afastou-se um pouco, baixou-se, fitou-a de modo 
particular, por sob a plpebra, com a pupila brilhante, fixa como a de um rptil.
A rapariga soltou um grande grito, e levou as mos ambas ao peito.
A bola! a bola! Sufoco! exclamou.
E caiu desamparada, com os olhos esbugalhados, em alvo, com a boca torta, com os 
membros contorcidos por convulses tetnicas.
Estenderam-se-lhe, inteiriaram-se os braos, os punhos viraram-se para fora; os dedos 
fecharam-se, penetrando quase as unhas nas palmas das mos; a lngua estava negra e pendente, 
betada aqui e ali por fios de baba escumosa.
E revolvia no solo, aos saltos, como uma cobra cortada aos pedaos.
De sbito largou um berro entrecortado, gutural, rouco, que nada tinha de humano. Deu 
uma estremeo, curvou-se para trs, assumiu a forma de um bodoque retesado, quedou-se 
imvel, dura, firme, em uma posio impossvel: por uma parte tinha o alto da cabea apoiado ao 
solo, e, por outra, os dois ps que assentavam em cheio, um pouco separados; ao todo trs pontos 
de apoio.
Os punhos continuavam cerrados, e os braos tesos, ao longo do corpo. A rigidez era 
cadavrica mais ainda, marmrea, metlica.
Joaquim Cambinda sorria-se medonhamente.
Com uma agilidade que desmentia o seu vagar, o seu tolhimento costumeiro, e de que 
ningum o teria julgado capaz, trepou de um salto sobre essa esquisita ponte humana.
Com os olhos reluzentes; como o claro do fogo a refletires-lhe na calva negra, polida 
mostrando os dentes amarelos em esgares diablicos, ele pulava, tripudiava sobre o estmago, 
sobre o ventre, sobre o pbis da convulsionada.
Ela no se abalava, no se mexia sob o impulso dos ps, sob a ao do peso do monstro: 
semelhava uma ponte de arco, feita de cantaria.
Joaquim Cambinda desceu, foi a um canto buscar um cabo de picareta, e com ele entrou a 
bater-lhe duro no peito, no ventre.
Os golpes sucediam-se, crebros, com um som bao, abafado, como se fossem dados em 
um saco de trapos.
De sbito a vtima desinteiriou-se, recobrou moleza vital, recaiu no solo pesadamente, 
em atitude humana.
Inundavam-lhe o rosto grossas camarinhas de suor.
Os assistentes estavam aterrados.
O ttrico hierofante desses horrendos mistrios tinha apagado rapidamente as velas, tinha 
fechado o oratrio, estava de novo silencioso, sentado em um cepo, atiando o fogo.
A rapariga dormia, dormia profundamente, respirando alto, em estertores.
Fora, o samba continuava; ouvia-se tutucar dos atabaques, e o estrupido surdo dos ps; 
sonoro, melanclico, plangente, repercutiu o estribilho:
Eh! Pomba! eh!

Captulo 11
Havia muitos dias que Barbosa partira, e apenas tinha escrito uma carta ao coronel, sobre 
negcios, na qual lhe dava esperanas de salvar trinta por cento do material comprometido.
A princpio Lenita mandava o moleque  vila todos os dias buscar o correio. Muito antes 
da hora de ele voltar, j ela estava  porta a espi-lo. Quando no alto do morro despontava o seu 
vulto, vestido de algodo branco, sacudido pelo chouto de um burrinho ruo velho, a pr uma 
mancha de alvadia e movedia no amarelo bao do caminho, ela corria  porteira da cerca, a 
encontr-lo.
Tomava com mo febril o surrozinho de sola em que vinha a correspondncia, abria-o, 
e, como s cassem jornais, perguntava nervosa, trmula, afagando ainda um resto de infundada 
esperana:
- E as cartas, onde esto as canas?
 indescritvel o seu desapontamento, a sua clera mesmo ao ouvir a resposta do 
moleque, voz lenta, doce, meio cantada, indiferente: - Carta no tem.
Aborreceu-se, no o mandou mais  vila buscar o correio, e, quando ele, de si prprio, lhe 
ia entregar os jornais, dizia ela com mau modo: - Ponha l em cima da mesa.
Um dia, a destacar-se no emaranhamento de letra mida de um mao de Jornal do 
Comrcio, viu ela uma carta volumosa, empanturrada. O sangue refluiu-lhe todo ao corao 
quando reconheceu a letra de Barbosa no subscrito liso, do papel diplomata:
Ilma. Exma. Sra.
D. Helena Matoso.
Vila de *** Provncia de S. Paulo.

Arrancou-a violentamente da mo do moleque, deixando cair por terra os jornais, que no 
curou de erguer: acolheu-se ao seu quarto, apenando-a de encontro ao seio.
Fechou a porta por dentro,  chave; semicerrou as janelas, deixando apenas interstcio por 
onde entrasse a luz necessria. No queria ser vista, no queria que ningum a pudesse 
incomodar.
A tremer, com as mos tactas, despedaou o envelope, impacientemente, brutalmente 
quase.
A carta constava de muitas folhas de papel paquete, pelure d'oignon, cobertas de letra 
cursiva em todas as laudas, tudo numerado muito em ordem.
Lenita leu:

Santos, 22 de janeiro de 1887.
Minha prezada companheira de estudos.

Aqui estou, pela primeira vez em minha vida, no porto de mar de nossa provncia, em 
Santos, terra clida, mida, sufocante, preferida por Martim Afonso aos feiticeiros arredores da 
baa de Guanabara. Os reverendos Kidder e Fletcher, no livro que publicaram sobre o Brasil, 
deram-se a perros para descobrirem a razo da preferncia e... ficaram em jejum. O mesmo me 
acontece. Com efeito, por que teria Martim Afonso preferido isto ao Rio de Janeiro? Tudo 
levava a crer que era o contrrio que se devia dar. Que rasgo de intuio genial, que vista 
interna miraculosa teria revelado ao colonizador portugus a superioridade imensa desta zona 
vicentina em que h terra roxa, em que h um clima sem rival para a lavoura, sobre a orla 
limtrofe, de terra vermelha, rida, sequiosa ? E o caso  que sem razo aparente, sem dados 
aceitveis, houve a preferncia, e qu , essa preferncia criou a primeiro . provncia do Brasil, e 
qui o primeiro dos pequenos estados livres do mundo.
Eu me vejo em apuros, mas  para dizer o que vem a ser esta nesga do litoral em relao 
 climatologia;  para achar-lhe um termo de comparao.
Falam no Senegal: o Senegal  mais quente, valha a verdade, mas no  to abafado. L 
respira-se fogo, mas respira-se. Aqui no se respira nem fogo, nem coisa nenhuma. O ar  
pesado, oleoso; parece que lhe falta algum elemento, isso quando no h o vento clebre que os
noroeste: quando sopra, reina esse semoum africano, esse vendaval-peonha, Santos  
miniatura do inferno: Imagine-se um tufo dentro de um forno.
Os dias so horrveis: se h chuva, o que  raro, o sol queima, esbraseia a terra, a ponto 
de se poderem fritar ovos sobre as pedras das caladas. Mas ainda h coisa mais horrvel do 
que dias, so as noites. A atmosfera queda-se, morre. Olha-se para as flmulas dos navios, 
imveis; para as franas das rvores, imveis; para os leques das palmeiras imveis. A gente a 
asfixiar no irrespirvel e morto parece-se com os mamouths que se encontram inteiros  nos 
gelos ela Sibria, ou com esses insetos mumificados, h milhares de anos, na transparncia 
dourada do mbar amarelo.  uma situao aflita; desespera, tira a coragem, d vontade de 
chorar, lembra os horrores da Treva de Byron.
A vida aqui  uma negao da fisiologia,  um verdadeiro milagre: no h hematose 
perfeita, as digestes so laboriosssimas, sua-se como no segundo grau da tsica pulmonar, 
como na convalescena de febres intermitentes. Eu, se fosse condenado a degredo em Santos, j 
no digo por toda a vida, mas por um ano ou dois, suicidava-me.
Mas, que peixes! que esplndidos mariscos! As pescadas amarelas, uma delcia! as 
garoupas divinas! Comi em Frana ostra de Cancale, de Merennes, de Ostende; comi a ostra 
roscea do Mediterrneo, a ostra lamelosa da Crsega: nada disso se pode comparar  ostra de 
Santos. Tenra, delicada, saborosssima, ela apresenta essa colorao verde, esbatida, to 
apreciada pelos finos gourmets: Moquim Tandon, Valenciennes, Bory de St. Vicent, Gaillon, 
Priestiey, Berthelot inventaram mil teorias cerebrinas para explica-la, e todavia ela  apenas um 
sintoma de molstia,  devida a um estado mrbido, a uma anasarca de molusco.
To detestvel  a terra, o clima em Santos, quanto aprecivel  o peixe, quo superior  
o homem: maus fatores a darem produtos excelentes, verdade paradoxal, mas verdade 
irrecusvel, absoluta.
O povo santista  polido, afvel, obsequioso, flanco: a riqueza que lhe proporciona o 
comrcio de sua cidade f-lo generoso, at prdigo. E tem nervo, tem brio:  o nico povo que 
eu julgo capaz de uma revoluo nesta pacata provncia. No h muito em uma questo de 
abastecimento de gua ele deu mostras de si...
Gosto, gosto imenso, em Santos, tanto do peixe como do homem.
Um pouco de estudo agora, para no perder-se o costume, para voltarmos a nossa 
marotte,  nossa telha.
A costa do Brasil, como muito bem faz observar o conde de Lahure em sua obra sobre 
este pas, oferece desde a ilha do Maranho at Santa Catarina uma singularidade notvel:  
debruada em toda a sua extenso por dois fundos altos, por dois arrecifes, que a bordam, que 
lhe constituem um como molhe natural, que a garantem da impetuosidade elas ondas, 
continuamente agitadas no Atlntico sul-americano.
Um desses arrecifes, o que est mais chegado  costa,  uma como cinta de rochas que 
envolve o litoral. Em lugares rasga-se at o fundo do mar; em lugares ergue-se, mas no lhe 
chega  superfcie, em lugares est de nvel como ela; em lugares alteia-se sobre ela at grande 
elevao.
So os recorres dessa penedia que formam todas as embocaduras, todas as baas, todos 
os portos, todas as abras da costa brasileira.
O segundo aparcelamento, como que uma barbac, do primeiro, est em distncia de 
oito a quarenta quilmetros da costa, em profundeza irregular, quase sempre fraca
Os pontos descobertos constituem ilhas, algumas elevadssimas: as Queimadas, os 
Alcatrazes, o Monte de Trigo so salincias do contraforte externo; a ilha do Engu-Guau ou 
de Santos, a do Guabe ou de Santo Amaro, a da Moela, a encantadora ilhota das Palmas, so 
os picos do arrecife interno.
E que sero esses parcis, essas duas cintas de rochas, seno o aparecimento, as 
primeiras prostraes, ainda marinhas, da Serra do Mar, chamada aqui Serra do Cubato, 
Serra de Paranapiacaba. A cordilheira vem dos abismos do oceano, surde, emerge, levanta-se 
abrupta, fecha o horizonte com seus visos alterosos, que l se enxergam ao fundo, cobertos de 
nuvens, a entestar com o cu, como barbas, como muralhas de um castelo titnico.
Meditemos um pouco; reconstrua o raciocnio o que o homem no pode ver no espao 
breve de sua vida curta.
O mar outrora banhava a raiz da serra, e os ventos do largo, encanados pelas bocainas, 
suscitavam maretas temerosas na plancie onde hoje corre, arfando, a locomotiva.
	As aluvies, os enxurros da cordilheira, grossos de terra, rolando seixos enormes, em 
luta com a fora das mars que se encrespavam em macarus, foram depositando sedimentos, 
detritos, em torno dos ccleos penhascosos do Guabe e do Monserrate. No volver de milhares 
de sculos o fundo alteou-se, emergiu as ondas, constituiu as vastas planuras do sop da 
serrania. Vasas moles ao princpio, lamares, brejos marinhos, essas plancies foram-se 
cobrindo de mangues verdes, de siruvas e, depois, de outras vegetaes mais alentadas: 
formaram terrenos slidos, cortados de muitos esteiros.
	A plancie santista, bem como toda a plancie da costa braslica,  uma conquista da 
cordilheira
	E essa conquista continua ainda, continuar indefinidamente, de dia, de noite, a todas as 
horas, a todos os momentos; lenta, imperceptvel mas intrmina, incessante; no h trguas na 
luta entre a terra e o mar.
	As margens dos esteiros, chamados aqui rios, aproximam-se cada vez mais, o fundo 
sobre. Pelo canal da Bertioga passou,  larga, a frota de Martim Afonso, passava at h bem 
pouco tempo o vapor costeiro Itamb: hoje o pequeno rebocador Porchat passa com dificuldade, 
vira com perigo, por vezes encalha.
	Em santos, junto da cidade, no existe mar no sentido rigoroso do termo: existe um 
esturio de gua salobra, que tende a diminuir, que se vai fazendo raso todos os dias. E no h 
obviar-lhe.
O famoso e protelado cais, caso se construsse, seria um pano quente: melhoraria o 
porto por uns pares de anos, afinal ficaria inutilizado. O fundo vai ganhando, h de ganhar de 
uma vez; o passado aponta o futuro. Debalde o oceano refludo, repulsado, concentra as foras 
sobre outro ponto e ataca So Vicente. Ganhou uma aparncia de vitria,  verdade: sobre a 
antiga povoao de Martim Afonso, ameaa a moderna: mas l est o inimigo, a montanha, 
para det-lo, para sust-lo, para repeli-lo, com avalanches de pedras, com mdo de lodo.
E h exemplos disso, recentes na histria geogrfica do velho mundo: Luiz lX de Frana 
embarcou-se em Aigues-Mortes, para as Cruzadas, duas vezes, uma em 1248; outra em 1269; 
Aigues-Mortes demora atualmente a seis quilmetros do mar. A cidade de Adria sobre o canal 
Bianco, derivativo do P, est hoje a trinta quilmetros do Adritico; pois era banhada por ele, 
foi ela at que lhe deu o nome.
Em tais condies no admira o noroeste, no admira o calor de Santos.
O vento largo, o vento de sudeste encana-se por entre as cordilheiras de Santo Amaro e 
do Monserrate, revoluteia pela plancie, vai  cordilheira e de l, repelido, reboja, volta, mas 
no volta s. Vem misturado, confundido com o vento quente do interior, com o vento aquecido 
nas terras roxas do oeste, aquecido no vasto platau de Piratininga.  o famoso, o temido, o 
execrado noroeste.
Ora ajunte-se o calor qumico, o calor desenvolvido pela fermentao de incalculveis 
massas de detritos orgnicos, em uma plancie vastssima rodeada, quase fechada por 
montanhas; tome-se em considerao que esse calor s  absorvido em parte mnima pelos 
paredes da cordilheira, que  refletido, convergido por eles sobre Santos; atenda-se a que a 
vizinhana do mar tende sempre a elevar a temperatura da atmosfera, e cessar a admirao de 
que seja isto aqui o quinto cmulo trmico do globo, de que em assuntos da calidez s preste 
obedincia a Abissnia, a Calcut, a Jamaica e ao Senegal.
 curiosa Santos como cidade, tem cor sua, inteiramente sua. As casas so quase todas 
construdas de alvenaria, com soleira e portas de granito lavrado.
O ar, salitroso pelas emanaes marinhas, ataca, ri, carcome a pedra. No h ver a 
superfcies lisas. tudo  spero, caraquento, semidecomposto.
Sobre grande parte dos telhados viceja uma vegetao area, forte, vivaz, gloriosa.
Vista do mar, do esturio, a cidade  negra: black town lhe chamam os ingleses. 
Os enormes vapores transatlnticos alemes, os esquisitos e bojudos carregadores 
austracos, as feias barcas inglesas e americanas de costado branco, os mil transportes de todas 
as naes, entram pela ria, encostam-se  praia, varam quase em terra, afundam as quilhas no 
lado negro, constelado de cascas de ostras, de ossos, de cacos de loua, de garrafas, de latas, de 
ferros velhos, dessas mil imundcies que constituem como que os excrementos de uma povoao. 
Comunicam com a terra por pranches lisos, ou canelados a tabicas.
Pelas ruas vai e vem, encontra-se, esbarra-se um enxame de gente de todas as classes e 
de
todas as cores, conduzindo notas de consignao, contas comerciais, cheques bancrios, maos 
de cdulas do tesouro, latinhas chatas com amostras de mercadorias. Enormes carroes 
articulados, de quatro rodas, tirados por muares possantes, transportam da estao do caminho 
de
ferro para os armazns, e deles para as pontes, para o embarcadouro, os sacos de loura 
aniagem, empanturrados, regurgitando de caf. Homens de fora bruta, portugueses em sua 
maioria, baldeiam-nos para bordo, sobre a cabea, de um a um, ou mesmo dois, em passo 
acelerado, ao som, por vezes, de uma cantiga ritmada, montona, excitativa de movimento como 
um toque de corneta.
Nos armazns, vastos cimentados, manobrando ps polidas, gastas pelo uso, batem o 
caf, fazem pilhas, cantando tambm.
E no deixam de ter cena elegncia brbara, com um saco vazio, sobre a cabea,  laia 
de capelhar, moda rabe, talvez reminiscncia inconsciente atvica.
Na praia, a poucos metros da gua, um como mercado pantopolista: sobre mesas 
slidas, de mrmore, estendem-se alinhadas, com reflexos de ao, de prata, de ouro, os peixes 
admirveis do lagamar e do alto - as tainhas gordas, de focinho rombo; os paratis que so 
diminutivos delas;
as corvinas corcovadas, pardas; os galos espalmados, magros; os pargos de dentes e de beios 
redondos, carnudos; as pescadas do alto, fulvas, enormes; os linguados, vesgos, delicados; as 
solhas, linguados gigantescos, macias, chatas; as garoupas, de cor de ferrugem, de olhos 
esbugalhados, atarracadas, escondendo sob formas brutas, um mundo de delcias 
gastronmicas; as pescadinhas brancas, argnteas, com um fio de ouro verde a sulcar-lhes os 
flancos os bugres lisos, visguentos, feios; os camares, brancos, arroxados, com longas barbas, 
em rodas, sobre tampas de vime; os caranguejos, pelados, morosos, batendo uns nos outros a 
couraa sonora; os siris azulados.
Em torno a casa, sob os beirais do telhado, sob toldos de pano,  ao ar aberto, pilhas de 
laranjas, de ananases, de melancias, de goiabas, de cocos, de cachos de bananas, mil espcies 
de frutas em uma abundncia fastidiosa, desanimadora, com um cheiro enjoativo de madureza 
passada; gros, legumes, hortalias, razes, ervas de tempero, tomates, pimentas; quadrpedes e 
aves, domsticas e selvagens, leites, quatis, perus, tucanos; conchas, caramujos, esteiras, 
cordas, quinquilharias, uma babel, um bric-brac infernal.
s trs horas comea de cessar o movimento: a populao emigra para So Vicente e 
para a Barra.  tarde a cidade est silenciosa, deserta, morta. H todos os dias uma transio 
crua, brusca, da agitao para o marasmo, que d tristeza.
Eu subi ao Monserrate.
 uma eminncia de cento e sessenta e cinco metros, quase a prumo, coroada por uma 
igrejinha branca, o que se pode imaginar de mais pitoresco, de mais singelamente grandioso, de 
mais encantador.
Sobe-se por um caminho acidentado.
 O que se vai desenrolando aos olhos durante a ascenso  simplesmente maravilhoso. A 
plancie estende-se ao longe, nivelada pela natureza, coberta de uma alcatifa de mangue; a 
cidade, em quarteires regulares, paralelogramticos, ocupa o sop do morro, betada de ruas 
de calamento pardo, manchado aqui e ali por macio verde de rvores, por uma palmeira 
esguia; ao fundo, de um e outro lado a serra do continente; fronteiras as colinas abruptadas de 
Santo Amaro. O ancoradouro, o pego do Canehu e outros largos do esturio semelham chapas 
de ao polido, com as quais pem notas de vrios tons os pontes desgraciosos, os navios que 
esto sobre ferro. As canoas, os escaleres resvalam como insetos ligeiros; uma outra vela pica 
de branco a escuridade metlica da superfcie da gua, e o sol ilumina tudo com sua luz 
dourada muito suave.
Os esteiros embebem-se pela verdura fofa dos mangais, um deles, muito sinuoso, afunda-
se visvel por espao longo, fraldeia a colina cnica chamada Monte Cabro, some-se, 
reaparece muito longe, refletindo a luz do sol, torna a sumir-se.  o canal histrico da Bertioga.
 direita uma imensidade azul que parece vir do infinito, que dir-se-ia um 
desdobramento do horizonte, avana arfando, em estos chega, beija a praia, morre em uma 
ourela de espuma alva, mvel, murmurosa... Salve, oceano, alma pater, laboratrio da vida 
terrquea, povoador do planeta!
Ah! Lenita.' imagine: o oceano - a fora, o ataque; a terra - a firmeza, a resistncia; o ar 
- hematose, a vida; o sol - o calor, a luz, a fecundao,- tudo em porfia de prodigalidades, a 
construir, a ornar um cenrio vasto de struggle for life, de luta pela existncia, no qual se 
debatem, se fogem, se perseguem, se matam, se devoram todos os seres da criao, o zofito, o 
molusco, o entomazorio, o vertebrado!
Aqui, nestas alturas, sob a imensidade do cu, a dominar a imensidade das guas  que 
sente-se grande,  que sente-se orgulhoso o antropide falante que arranca a esponja do 
abismo, que paralisa a fora incalculvel do cetceo, que fulmina a andorinha perdida na 
amplido, que avassala o oceano, que escraviza o raio, que rasga os vus do espao, que 
desvenda os mistrios do infinito!
Oh! eu a queria, aqui, junto de mim; eu queria ler-lhe a fixidez concentrada do olhar, no 
descoramento de face a profundeza da impresso que em esprito como o seu produz uma cena 
como esta!
..............................
Paulo minora canamus; agora terre  terre.
Esta carta vai um pouco de arrepio com as leis da cronologia; eu inverti a sucesso dos 
fatos, comecei pelo fim, falei de Santos, e calei a viagem.
Fao amende honorable, vou reparar a falta.
At a capital nada havia para mim de novo: conheo de h muito todos os caminhos de 
ferro, todas as estradas de rodagem que a ligam ao interior da provncia;
estudei bem e at com interesse porque dela sou acionista, a  estrada de Ferro Leste, 
impropriamente chamada Estrada do Norte.
Da capital a Santos foi que rolei em pleno desconhecido, foi que se me deparou assunto 
novo de estudo.
Os campos famosos de Piratininga constituem um platau que coleia suave, em outeiros 
mansos, emoldurado  direita pelos cabeos longnquos da Serra do Cubato,  esquerda pelos 
visos azulados da Cantareira, pelos picos verdoengos do Jaragu.
De leste a oeste, um pouco ao norte da cidade, rola o Tiet profundo, negro, taciturno, 
formando um vale extensssimo, muito largo.
A conformao atual desse vale, a turfa pantanosa que o constitui em grande parte, o 
alagamento anual que nele se opera, tudo atesta que ele foi em tempo um lago enorme, sinuoso, 
semeado de ilhas, um mar de gua doce, que ia talvez at Moji das Cruzes.
A serra da Cantareira e a vertente norte da serra do Cubato deram batalha aluvial ao 
mediterrneo doce, venceram-no, entupiram-no: o vale do Tiet  a conquista. As correntes de 
guas perenes conglobaram-se, aunaram-se, cavaram leitos, formaram os rios que hoje 
retalham a plancie.
Vi de relance o casaro que se est fazendo para comemorar independncia, ou melhor, 
para comemorar... por que no diz-lo ? para comemorar o desarranjo funcional que levou o 
Senhor D. Pedro de Bragana e apear-se ali, s quatro horas da tarde do dia 7 de setembro de 
1822.
No h ver nestas paragens aflora maravilhosa das nossas zonas do oeste, os peroves, 
as
batalhas enormes, os jequitibs de cinco metros de dimetro: a vegetao arborescente  
enfezada, baixa, quase an. No  basta, contnua: forma reboleiras, restingas, capes, ilhas de 
verdura, no amarelado pardo do campestre interminvel.
Esta regio  considerada estril, maninha: nada mais injusto. Verdade  que no vinga 
aqui o cafeeiro, que a cana  somenos a de Capivari e mesmo a de Santos, que o algodoeiro no 
se pode comparar com o de Sorocaba; mas, por Deus! nem s caf, acar e algodo  riqueza.
A vinha medra de modo assombroso: com uma cultura inteligente, com uma poda 
antecipada, poderia ela produzir em princpios de dezembro, evitando as chuvas de janeiro que 
lhe guam os bagos, que lhes deturpam os racimos. Em So Caetano, em terras outrora baldias, 
de que ningum fazia caso, h vinhedos formosssimos plantados por italianos. A vista alegra-se 
com a simetria das parreiras, o corao rejubila com a idia de uma prosperidade imensa, 
geral, em futuro no remoto, por todos os ngulos de nosso... de nossa provncia eu ia 
escrevendo estado.
As hortalias so enormes: um dia destes vi eu uma couve vinda de So Paulo que era 
um monstro de desenvolvimento: tinha folhas de cinqenta centmetros de dimetro menor; 
media-lhe o caule muito mais de dois metros.
E por que no h de se cuidar do trigo? os antigos cuidaram com sucesso: em So Paulo 
comeu-se muito po de trigo da terra. Ningum ignora o que a agricultura cientfica tem feito 
das landes infecundas da Gasconha. Pois os campos de Piratininga no admitem confronto com 
as landes da Gasconha: so-lhes infinitamente sublimados.
E a indstria pastoril? Que riqueza imensa a se oferecer espontnea.
De So Bernardo em diante a plancie muda de aspecto. Os capes, as restingas vo-se 
convertendo em um matagal basto, contnuo, verde-negro. Aqui e ali, no dorso de uma colina, 
no cabeo de um outeiro, rubro, semelhante a uma escoriao, serpeia o leito de um caminho. 
Na ch que se vai gradualmente alteando destacam-se as gramneas, moitas de plantas baixas, 
de folhas escuras, de flores roxas, muito grandes.
De um e de outro lado do trem perpassam, fogem sombras compactas, fortes: so os 
primeiros topes da serra. Em vrios lugares desnuda-se o granito lavado pelo enxurro, 
arrebatado pelas brocas do mineiro, esfacelado pela marreta do britador.
Em todas as rvores vem-se parasitas, de flores escarlates, de folhas lustrosas.
 A mquina, arfando, em carreira vertiginosa, arrastando o tender, arrastando a longa 
cauda de carros, triunfante, rumorosa, sobe, galga, vence, domina, salva o declive spero, rola 
em terreno plano. O ar torna-se mais fino, mais mido, a luz mais viva, mais mordente.
 esquerda, rpidas, como que levantadas, emergidas subitamente, alteiam-se 
montanhas, visos, picos, paredes, agruras, despedaamentos de cordilheira.
 direita, em anfiteatro pelo dorso escalavrado de uma eminncia, casebres miserveis; 
sobre o rechano uma igrejinha rstica, desgraciosa, malfeita, com trs janelas, com dois 
simulacros de torres, a picar de branco o azul do cu e o escuro da mata.
 o alto da serra.
Em frente, a alguns decmetros, abre-se, rasga-se um vo, uma clareira enorme, por 
onde
se enxerga um horizonte remotssimo, um acinzentamento confuso de serras e cu, que 
assombra, que amesquinha a imaginao.
Comeam a os planos inclinados por onde, sob a ao das mquinas fixas, sobe e desce 
a vida social da So Paulo moderna, os carros de passageiros e os vages de mercadorias.
Ao ganhar-se o declive, ao comear-se a descida, a cena torna-se grandiosa, imponente. 
De um lado, peno, ao alcance quase da mo, alturas imensurveis, talhadas a pique, 
cobertas de liquens, de musgos, tapando, furtando o cu  vista; pelos grotes desses fraguedos 
rolam cascatas sussurrantes, alvas, espumosas, j esfuziando em filetes, j encanando-se em 
jorros, j espadanando em toalhas.
Do outro lado, ao longe, a amplido, a serra, em toda a sua magnitude selvtica.
s montanhas que entestam com o cu sotopem-se montanhas que vo tambm assentar 
sobre montanhas. Em paredes aprumados umas, arredondadas em cabeos outras, em 
pirmides regularssimas ainda outras, elas abatem, acabrunham o esprito com a enormidade 
de sua massa Dir-se-ia que foi aqui a escalada dos cus pelos gigantes, que se feriu nestas 
paragens a pugna tremenda em que os filhos do cu sufocaram a golpes terrveis, de toda a 
some de armas, a tiros de raios, a arremesso de montanhas inteiras, a revolta tremenda dos 
filhos da terra.
Pelo sop dessas moles imanes, corre um vale profundssimo, a que vo ter roladores 
medonhos, algares vertiginosos, precipcios assassinos.
Uma vegetao abeberada de umidade, cerrada, basta, emaranhada, inextricvel, cobre, 
afoga o dorso da serrania. No h ver aqui os picos escalvados das cordilheiras do velho 
mundo: tudo est coberto por um tapete anegrado, fosco: de longe parece relva, ao perto so 
rvores desconformes.
Nesse verdejar sombrio a canaleira de folhas avermelhadas pe notas alegres, claras: o 
ip florescida pica-o de amarelo cru. As palmeiras, em uma abundncia monstruosa, incrvel, 
obscena acentuam: na massa confusa o desenho saliente de suas copas estreladas.
Ao longe, na crista cerlea, indistinta, do mais elevado contra-forte, um floco longo de 
neblina branqueja muito vivo, como o vu de uma uranide colossal, roto, esgarado na doce 
violncia de um debate amoroso.
Perto, atiro de pedra, rvores esbeltas ostentam, no mesmo galho, flores brancas e flores 
roxas, de ptalas carnudas, cetinosas. A embava de folhagem escura e rebentos vermelhos 
ergue ousada o seu tronco esguio, branquicento.
Os raios do sol acendem, na fronde das rvores vizinhas, cintilaes multicores, atiram 
sobre as cascatas punhados de diamantes: ao longe absorvem-se, no tm reflexo.
Ao findar-se o quarto plano inclinado, primeiro a contar do alto, antolha-se o viaduto da 
Grota Funda, a vitria do atrevimento sobre a enormidade, do ferro sobre o vazio, da clula 
cerebral sobre a natureza bruta.
imagine, Lenita, um algar vasto; mais do que um algar vasto, uma barroca enorme; mais 
do que uma barroca enorme, um abismo pavoroso, atravessado de parte a parte por uma ponte, 
que parece area, apoiada em colunas altssimas, to esguias, to finas, que, vistas em 
distncia, semelham arames.
Ao contemplar-se do meio da ponte essa vacuidade assombrosa, os ouvidos zunem, a 
cabea atordoa-se, a vertigem chega, vem a nostalgia do aniquilamento, o antegosto do nirvana, 
o delrio das alturas e faz-se mister ao homem uma concentrao suprema da vontade para fugir 
ao suicdio inconsciente.
 medida que se desce a natureza muda; o ar toma-se espesso, pesado, quente, carrega-
se
de emanaes salitrados; comea de aparecer a vegetao do litoral, alastram-se pelas encostas 
vastssimos bananais.
Uma prostrao de rocha faz um cotovelo no plano inclinado da raiz da serra: ao 
dobrar-se esse cotovelo, d-se uma matao de cena em pea mgica. A paisagem abre-se, 
rasga-se de vez. Por entre contrafortes, por entre alturas de serrania, que se erguem de um e de 
outro lado, como bastidores titnicos, alonga-se a perder de vista uma plancie extensa, chata, 
lisa, nivelada, pardacenta. De dois outeiros  direita que, simtricos, redondos, suaves, 
emparelhados, lembram os seios de uma virgem, parte uma linha horizontal, muito escura, 
muito tersa;  o mar,  o oceano, cuja vista d nome a serra - Paranapiacaba.
Um como sulco estira-se pela plancie, comando aqui e ali superfcies espelhantes de 
gua sossegada: por esse sulco vai e vem enorme, acaapada, com um desconforme gliptodonte, 
uma coisa chata, que desliza rpida, vomitando fumo: o sulco  a linha frrea; o gleptodonte, a 
locomotiva.
Embaixo, no comeo da plancie, divisa-se um amontoamento de vages que semelha um 
bando de hipoptamos adormecidos ao sol.
Quando o homem pra e contempla das alturas o escalejar da serrania, o vale cortado 
de algares, a plancie, o litoral, a linha do mar a confundir-se com o cu; quando atenta nas 
foras enormes que entram em jogo no mago e na crosta da terra, na gua que a banha, no ar 
que a comprime, na luz que a ilumina, na vida que a ri; quando por generalizao alarga o 
quadro e considera o planeta inteiro; quando dele passa para os planetas irmos, para o sol, 
centro do sistema; quando conclui, por induo irrecusvel, que esse sol, esse centro  por sua 
vez lua, satlite humilde de um astro monstruosamente imane, afogado na vastido, 
desconhecido, incognoscvel para todo o sempre; quando pensa que ainda esse astro gravita em 
torno de um outro que gravita em torno de um outro; quando reflete em que tudo isso  uma 
cena minscula do drama da vida universal, e que o teatro espantosamente incompreensvel 
dessa evoluo intrmina  uma nesguinha insignificante da imensidade do espao, o homem 
sente-se mesquinho, sente-se p, sente-se tomo, e vencido, esmagado pelo infinito, s se 
compraz na idia do no ser, na idia do aniquilamento.
.............................................
.............................................
A estrada de ferro inglesa de Santos a Jundia  um monumento grandioso da indstria 
moderna.
De Santos a So Paulo percorre ela uma distncia de 76 quilmetros.
Todas as obras de arte dos terrenos planos so admiravelmente acabadas, so perfeitas.
At  raiz da serra a distncia  de 21 quilmetros: h trs pontes, uma das quais 
notabilssima, sobre um brao de mar chamado Casqueiro. Mede ela 152 metros, tem dez vos 
iguais, assenta sobre peges robustssimos.
Da raiz da serra at o rechano do alto, contam-se oito quilmetros. A altura  de 793 
metros, o que d um declive quase exato de dez por cento.
Como se calcam esses desfiladeiros, essas agruras vertiginosas ?
De modo simples.
Divide-se a subida da serra em quatro planos uniformes de dois quilmetros cada um. 
Para uma trao, empregou-se um sistema adotado em algumas minas de carvo da Inglaterra. 
Mquinas fixas de grande fora recolhem e soltam um cabo fortssimo, feito de fios de ao 
retorcidos. Presos s duas pontas desse cabo giram dois trens: um sobe, outro desce. A agulha 
de um odmetro indica com exatido matemtica o lugar do plano em que se acha o trem, indica 
o momento de encontro de ambos eles. Um brake de fora extraordinria permite suspender-se a 
marcha quase instantaneamente, e um aparelho eltrico pe os trens em comunicao imediata 
com as respectivas mquinas fixas. O cabo, resfriado ao sair por um filete de gua, corre sobre 
roldanas que se revolvem veniginosas, com um rudo montono, metlico, por vezes fome, por 
vezes muito suave.
O servio  regular e to bem feito, que em grandes extenses h um nico jogo de 
trilhos a servir tanto para a subida como para a descida. Funciona a linha h mais de vinte e 
um anos e ainda no se deu um s desastre. Pasmoso, no ?
Em cada uma das quatro estaes de mquinas fixas h cinco geradores de vapor, trs 
dos quais sempre em atividade. As grandes rodas estriadas que engolem e soltam o cabo, as 
bielas de ferro polido que as movem, os mancais de bronze, os excntricos em que o ferro rola 
sobre bronze com atrito doce, tudo est limpo, luzente, azeitado, funcionando como um 
organismo so. Chamins enormes, que se enxergam de longe, feitas de cantaria lavrada em 
rstico, atiram aos ares balces de fumo, enovelados, densos.
Os desbarrancamentos so remendados a alvenaria; todas as guas perenes, todas as 
torrentes pluviais esto dirigidas, encanadas, por calhas de pedra, de tijolos, de juntas tomadas, 
por bicames de madeira. H encanamentos subterrneos feitos em granitos, gradeados de ferro, 
que fazem lembrar os calabouos dos solares feudais.
Na serra de Santos a obra do homem est de harmonia com a terra em que assenta; a 
pujana previdente da arte mostra-se digna da magnitude ameaadora da natureza.
O viaduto da Grota Funda  simplesmente uma maravilha. Mede em todo o comprimento 
715 ps ingleses, mais ou menos 215 metros. Tem 10 vos de 66 ps e um de 45 entre duas 
cabeceiras de cantaria; assenta sobre colunatas de ferro engradadas (treiilages) e sobre um 
pego do lado de cima. A mais elevada colunata, contando a base, tem 185 ps, 56 a 57 metros. 
A inclinao  a inclinao geral, dez por cento ou pouqussimo menos. Comeou-se esta obra 
assombrosa em 2 de julho de 1863; em maro de 1865 assentaram-se-lhe as primeiras peas de 
ferro; em 2 de novembro do mesmo ano atravessou-a o primeiro trem, 2 de novembro, dia de 
defuntos, os ingleses no so supersticiosos.
Uma empresa hors ligne, esta companhia de estrada de ferro. O resultado foi alm da 
mais exagerada expectativa otimista. O governo geral garantiu cinco por cento sobre o capital 
empregado na construo, e o provincial dois. De h muito, porm, que a companhia prescindiu 
de garantia, e que distribui dividendos fabulosos.
Ganham, ganham muito dinheiro, ganham riquezas de Creso os ingleses, e merecem-nas. 
O progresso assombroso de So Paulo, a iniciativa industrial do paulista moderno; a rede de 
vias
frreas que leva a vida, o comrcio, a civilizao a Botucatu, a So Manuel, ao Ja, ao Jaguera, 
tudo se deve  Saint Paul Rail Road,  Estrada de ferro de Santos a Jundia 
Rule, Bribnnial Hurrah for the English! j que o nosso governo no presta para nada.
Vai longa esta cana: preciso  pr-lhe termo.
Estirei-me, porque escrevendo-lhe afigura-se-me t-la ao meu lado, e eu desejei 
prolongar o mais possvel a figurao...
Estou velho, e todo o velho  mais ou menos autoritrio e pedante. Ora a Lenita ps-se 
no
vezo de condescender com o pendor da idade, escutou-me, deu-me ateno, puxou-me pela 
lngua... Agente-se, pois, com a caceteao, com a seca para falar classicamente; a culpa  
sua.
No sinto saudade da nossa convivncia, de nossas palestras a no stio.- a expresso 
saudade tem poesia demais e realismo de menos. O que h  necessidade,  fome,  sede da 
companhia de quem me compreenda, de quem me faa pensar... da sua companhia.
Imagine que eu levo todo o santo dia e parte da noite a falar s em caf, mas em caf sob 
o ponto de vista comercial, em embarques, em saques, em descontos... E ai de mim, se o no 
fizer: aqui quem se afasta deste tema, quem no discute comrcio de caf, passa por idiota. 
Uma explicao necessria, antes de terminar. Fui minucioso, talvez demais, em 
descrever a serra, os planos inclinados, as obras de arte da companhia inglesa. Como diabo, fiz 
eu tanta observao, onde fui apanhar tantos dados? Em uma descida rpida, vertiginosa, em 
uma descida pelo trem ? No era possvel. Uma inspirao, uma comunicao esprita? Nada 
disso. Confesso com modstia que so humanos os meios de informao de que disponho: a 
cincia infusa foi privilgio dos apstolos, de Santo Toms, de Ventura de Raulica, e ainda hoje 
o  do abade Moigno e do imperador do Brasil. A mim me no armaro processo esses santos 
personagens por empecer-1hes no direito. Nem mesmo me posso gabar de uma simples sugesto 
mental, de um reles ensinamento hipntico. Pairo em regies menos elevadas, aprendo o que sei 
de modo mais grosseiro. Um dia destes, nada tendo aqui a fazer, fui ao alto da serra e de l vim 
a p, vendo, observando, estudando. A est como foi. Fico anelando pelo dia que julgo prximo 
de ir dar-lhe um hands-shake forte, enrgico,  inglesa.

Manuel Barbosa...

Lenita leu a carta com impacincia: os detalhes, os dados exatos, as apreciaes 
cientficas de Barbosa sobre Santos, sobre a serra irritavam-na: passou por aquilo tudo 
rapidamente, nervosamente, sem aprofundar, como quem percorre um catlogo. Procurava o que 
houvesse de ntimo sobre a sua pessoa, qualquer coisa que revelasse, que atraioasse o estado 
afetivo do esprito de Barbosa. 
Demorou-se muito na leitura dos trechos finais: teve um prazer vivssimo, indizvel ao ler 
que Barbosa a supunha, a figurava ao lado de si, e que se prazia nessa figurao. Repetiu as 
frases silabificando, quase deletreando, com o olho esquerdo fechado, com a ateno 
concentrada. Gostou imenso da maneira brusca por que terminava a carta.
O semidelquio ertico que tivera no quarto de Barbosa fora a confirmao de uma 
suspeita: reconhecera que amava a esse homem, loucamente, perdidamente.
Ante a brutalidade do fato, ao pungir gozoso e acerbo da revelao da carne, revoltara-se 
com orgulho, esquivara-se em ltimo assomo de resistncia, evitara a Barbosa na vspera da 
partida.
A insnia da noite, o vcuo enorme que a ausncia de Barbosa lhe produzira em volta, a 
necessidade fatal em que se reconhecera de t-lo junto de si para viver, desejo dele que a mordia, 
o ganho de causa que levava esse afeto novo sobre o amor profundo que votara ao pai, a Lopes 
Matoso; que tudo isso a convencera de que no podia recalcitrar, de que a resistncia lhe era 
impossvel. 
Com a resoluo rpida dos espritos decididos, aceitara o jugo, submetera-se  paixo, 
confessara-se vencida.
Era o mais difcil.
Em curvar-se, de si prpria  que ela tinha vergonha, uma vez cnscia de estar curvada, 
pouco lhe fazia que o mundo inteiro a visse nessa posio.
Amando, mas sem estar de todo vencida, lutaria, defender-se-ia at  morte contra o que 
desejava, isso em uma alcova, em um recinto vedado a todos os olhos; entregue, derrotada 
perante o seu foro ntimo, avaliava em nada o escndalo, desprezava a opinio, era capaz de 
submeter-se ao vencedor em pblico, no meio de uma praa, como as prostitutas de Hyde-Park.
Amava a Barbosa confessara-o a si prpria: era capaz de lho dizer a ele, era capaz de o 
proclamar  face do mundo.
E indignava-se, achava-o tmido, queria que ele a adivinhasse, que lhe retribusse o amor, 
que sentisse por ela o que ela sentia por ele, que se confessasse por sua vez subjugado, cativo.
Amar ela, Lenita, a um homem, e no ver esse homem a seus ps rendido, aniquilado, 
absorvido?! Impossvel.
Releu a carta, mas releu com ateno, meditadamente estudando. As apreciaes 
originais de Barbosa, o seu modo profundamente individual de ver as coisas, o entusiasmo 
comunicativo a que se entregava por vezes, tudo isso reproduzia-o, aviventava-o no escrito, ao 
ponto de que a Lenita parecia-lhe t-lo junto a si, ouvir-lhe a voz, sentir-lhe o hlito.
As teorias sobre a formao da plancie santista e sobre o enchimento do vale do Tiet 
fizeram-na pensar, recordar-se. Tinha estado uma vez em So Vicente, a banhos: conhecia 
Santos, conhecia a Serra. Os fatos que Barbosa consignava eram exatos, as explicaes que deles 
oferecia eram plausveis.
Lenita admirava-lhe cada vez mais a flexibilidade do talento, que a tudo se abalanava, 
que para tudo tinha criterium, que de tudo decidia com justeza.
A admirao pelas faculdades intelectuais elevadssimas de Barbosa envolvia-se 
mansamente, naturalmente, para uma admirao pelas suas formas, para um desejo de seu fsico, 
que a dementava a ela, que a punha fora de si. 
Compreendia ento perfeitamente a histria bblica da mulher de Putifar. A vista segura 
que o escravo hebreu Jos revelara ter das coisas, a sua alta capacidade administrativa, a sua 
intransigncia, a sua energia, a sua modstia, prendera a ateno da formosa egpcia; mirando-
lhe as formas franzinas, esbeltas de efebo, deixara-se cativar e, ardente, banca, provocara-o, 
agarrara-o. 
E Lenita entusiasmava-se por essa mulher to estigmatizada em todos os tempos, e 
todavia to adoravelmente carnal, to humana, to verdadeira: compreendia-a, justificava-a, 
revia-se nela.

Captulo 12
O feitor preto viera dizer a Lenita que uma fruiteira na mata em frente estava ajuntando 
muito pssaro.
A moa mandou que abrisse uma picada desde o carreadouro at  fruiteira, fez limpar a 
sua espingardinha Galand, carregou duzentos cartuchos e, no dia seguinte, de madrugada, 
seguida por sua mucama, foi pr-se  espera.
No tinha cado muito orvalho, e grande era a cerrao.
O caminho coberto por uma camada veludosa de areia fina, amarelenta, embebia-se pela 
neblina espessa que afogava a terra. A selva formava um macio negro, compacto. Uma ou outra 
rvore isolada no pasto transparecia por entre o nevoeiro, como um espectro gigantesco.
Sentia-se um frio seco, picante, sadio. De repente Lenita percebeu o que quer que era , 
retouando na areia levemente mida do carninho, a vinte metros de distncia.
Sustou o passo, levou a arma  cara e, rpida, quase sem pontada, desfechou.
- Que foi que atirou, D, Lenita? perguntou a mulata. 
- V ver, que l est ainda bulindo, volveu a moa, e fazendo gangorrear o cano da arma, 
meteu-lhe novo cartucho.
Com efeito, um animal qualquer estrebuchava convulso, raspava a areia, atirava-a longe.
A rapariga aproximou-se cheia de receio, retraindo o corpo, estendendo o pescoo.
- E candimba! gritou jubilosa, e, baixando-se, apanhou uma soberba lebre que, ferida na 
cabea, ainda no acabara de morrer.
Lenita tomou da rapariga a macia alimria, examinou-a com volpia orgulhosa de 
caadora apaixonada e triunfante, afagou-lhe o plo sedoso, passou-o de encontro ao rosto; 
depois meteu-a em uma bolsa de malhas, entregou-a com cuidado  mulata.
Ia clareando o dia; rareava o vu de neblina. O negror indeciso da mata transmutava-se 
em verdura. Distinguiam-se as moitas festivas das taquaras, os penachos luzidios dos palmitos, 
as copas opulentas das paineiras, revestidas literalmente de um tapete cor-de-rosa, pela 
inflorao precoce.
Perfumes agudos de orqudeas fragrantes, refrescados pelas brisas matutinas, deliciavam 
o olfato, sem irritar e sem atormentar os nervos.
Ouvia-se o gorjear dos pssaros, o zumbir dos insetos que, em hino festivo, saudavam o 
despontar do dia.
Lenita e a mucama penetraram na mata: a tudo era escuro, tudo era treva. O diminuto 
orvalho, cado durante a noite, se condensara nas folhas, e pingava, batendo docemente, 
surdamente, na camada de folhas secas que juncava o solo.
Os pulmes hauriam  larga o oxignio puro, expirado da vegetao ambiente.
As duas companheiras caminharam pelo largo carreadouro, at que chegaram a uma 
peroveira alta, de junto a qual partia a picada, entranhando-se pelo mato,  esquerda. Por a 
enveredaram, seguiram, at que pararam junto de uma caneleira esguia, em frutificao tempor.
Dominava o silncio, quebrado apenas pelo gotejar manso e raro da orvalhada tnue.
Lenita mandou que a mucama se afastasse um pouco, que se sentasse, que se escondesse 
junto de outra rvore qualquer. Olhou para cima.
A folhagem da caneleira recortava-se indecisa no cu obscuro: de sbito acentuou-se, 
amarelou em partes, como se a tivesse borrifado um jato de ouro lquido; beijara-a o primeiro 
raio de sol do dia nascente.
Por cima j luz, vida; por baixo ainda escuridade, mistrio.
Uma sombra escura cortou veloz o espao: era um jacuguau. Pousou, balanando-se, em 
um dos galhos baixos. Ao assentar colheu vagaroso as asas que trazia pandas, librou-se ainda 
nelas, fechou o leque formosssimo da longa cauda, estendeu o pescoo, cauteloso  direita e  
esquerda.
Aps momentos de observao, trepou pelo galho, marinhou aos pulos por entre a 
folhagem, sumiu-se, surgiu no pino da copa, mostrando, banhada de sol, a sua barbela rubra.
Lenita, plida de emoo, com o seio a arfar, com os nervos frouxos, sentindo dobrarem-
se-lhes as pernas, olhava, contemplava exttica a ave elegantssima.
Fazendo um esforo de vontade, aperrou a arma, ergueu-a lentamente, molemente, p-la
em mira.
No desfechou, no teve nimo: retirou-a da cara, e ps-se de novo a contemplar o 
alector.
De repente seus olhos brilharam em um como relmpago negro, contraram-se-lhe as 
feies, seus dentes brancos morderam o lbio rubro, e, fria, resoluta, ela encarou pela segunda 
vez a espingarda, fez pontaria, puxou o gatilho, o tiro partiu.
O jacu, fulminado, revirou, despencou, veio bater no cho com um som bao, abafado.
Saltando como um felino, Lenita empolgou-o trmula de felicidade e prazer; ergueu-o  
altura do rosto, soprou-lhe as penas salmilhadas do peito, queria ver-lhe os ferimentos. Com 
volpia indizvel sentia umedecerem-se-lhe os dedos no sangue tpido que escorria.
A arma ainda estava descarregada, quando ouviu-se um vo forte, sacudido, estalado.
Lenita levantou o olhar.
No mesmo galho, de onde derrubara o jacu, uma pomba legtima fazia brilhar ao sol em 
reflexos furta-cores o seu colo gracioso.
Lenita abriu ligeiro a espingarda, carregou-a, levou-a  cara, fez fogo, e a nova vtima 
caiu ferida, pererecando em desespero, nas vascas da agonia.
A mucama, com os olhos brilhantes, com as feies expandidas pelo entusiasmo, acudiu 
a meter na bolsa os pssaros mortos.
- Uma pomba e um jacu, D. Lenita! exclamou cheia de jbilo.
- Silncio!
No galho fatal um tucano acabava de pousar: virava e revirava, para um e para outro 
lado, o seu grande bico esponjoso. Era uma maravilha o efeito de suas penas dorsais a 
contrastarem negras com o alaranjado soberbo da gorja, com o vermelho-vivo do peito: ao v-lo 
ostentando ao sol ardente do trpico os esplendores dos seus matizes, dir-se-ia um ente 
fantstico, uma flor animada, viva, que viera voando de uma regio desconhecida, que se fixara 
naquela rvore.
Um tiro certeiro de Lenit f-lo tombar, e depois a outro, mais outro e a araaris, e a 
pavs, e a aves de bico redondo - uma carnificina, uma devastao.
Eram quase dez horas: o sol ia em alto, derramando torrentes de luz, enlanguescendo, a 
beijos de fogo, as folhas largas do caet, as folhas cordiformes da periparoba. No cu muito azul 
esgaravam-se nuvens muito brancas, e nesse festival de cores alegres punha uma nota negra um 
corvo solitrio, perdido na amplido.
Fazia calor.
- So horas, j passa at de horas de almoar, disse Lenita. Vamo-nos embora, amanh 
voltaremos.
- Que caado, D. Lenita. Dezenove pssaros grandes e uma lebre. No perdeu um tiro.
- Eu nunca perco tiro, respondeu a moa com fatuidade.
- Ento  como eu, disse urna voz por trs de ambas, tambm no perco tiro.
Era Barbosa.
A espingarda caiu das mos de Lenita: com o corao relaxado, incapaz de injetar sangue 
nas artrias, descorada, quase sem ver, ela teve de encostar-se ao tronco liso da caneleira, para 
no tombar desamparada.
- Que  isto, minha senhora; que  isto, Lenita? acudiu Barbosa, segurando-a solcito.
- Tive um tal susto... murmurou a moa mal recobrada.
- Perdoe-me, fui imprudente. O desejo que tinha de v-la, o prazer de causar-lhe uma 
surpresa.., perdoe-me, sim?
E tomou-lhe as mos frias que apertou nas suas.
- Perdoar-lhe ? Se eu lhe agradeo tanto o ter-me antecipado um pouco o gosto de v-lo. 
Como pde chegar a esta hora da tarde? 
-  que vim a cavalo, para ganhar algumas horas. Caminhei a noite toda. Quando cheguei 
a Jundia, ontem, j no alcancei o trem. Tinha de estar l,  espera, at agora: no tive pacincia.
- No escreveu, no deu parte de que vinha...
- Eu no esperava terminar os negcios anteontem, como terminei. Os homens estavam 
teimosos, tinham-se encastelado na sua proposta. De repente, quando eu menos esperava, 
mudaram de acordo, cederam, aceitaram as minhas condies, e ficou tudo acabado.
- Satisfatoriamente?
- O mais satisfatoriamente que era possvel esperar.
- Meus parabns sinceros.
- Obrigado. Mas que mortandade, que So Bartolomeu! Arrasou a passarada. Cspite! 
Araaris, tucanos, pombas, sabiacis, um jacu e um serelepe... no, no  serelepe, um candimba, 
uma lebre, e grande! Sim senhora!  uma Diana.
E com ares de amador entusiasta examinava as peas de caa.
-Diga-me, perguntou-lhe a moa, como se chamam estes pssaros verdes, de bico 
redondo?
- Chamam-se sabiacis.
- No Brasil os psitacdios sero representados somente por ars e papagaios?
- Em So Paulo, pelo menos, so.
- Quantas espcies temos de papagaios ?
- Ao certo, que eu saiba, seis: tuins, periquitos, cuis, sabiacis, que so estes, baitacas e 
papagaios propriamente ditos.
- E de ars?
- Quatro: tirivas, araguaris, maracans e araras.
- Ao todo, dez?
- Que eu conheo; no serto pode haver mais.
- L ia eu com a minha marotte cientfica! Basta, basta de ornitologia. Deve ter chegado 
cansadssimo e morto de fome.
- Cansado, no; com algum apetite, sim.
- Pois vamos, vamos almoar.
- Confesso que almoarei com prazer.
E seguiram. Era imensa a alegria de Lenita, a gratido mesmo em que se achava para 
com Barbosa por t-la vindo surpreender na mata, por no t-la esperado em casa. Sentia-se 
lisonjeada em seu orgulho de mulher. E mais, Barbosa esquecera ou fingira esquecer os justos, 
mas injustificveis arrufos da vspera da partida. Amava e adquirira a convico de que era 
correspondida.
No percurso da picada que mundo, que infinidade de pequenos gozos! Aqui um tronco 
podre, deitado, a transpor; ali, um ramo espinhoso a evitar; uma ladeira ngreme, escorregadia a 
subir. Barbosa, nessas dificuldades, ajudava-a, tomava-lhe a espingarda, dava-lhe a mo. Ela 
deixava-o fazer, aceitava-lhe o auxilio, no porque se sentisse fraca, porque precisasse; mas para 
dar-lhe a ele o papel de forte, de protetor. Achava uma delcia inefvel em ser mulher para que 
Barbosa fosse homem. A voz mscula, doce, de Barbosa acariciava-lhe o ouvido, acalentava-lhe 
o crebro, envolvia-a em uma como atmosfera de harmonia e amor.
Insensivelmente, sem darem f da distncia chegaram  casa. Esperava-os na porta o 
coronel.
- Com que ento no foi difcil encontrar a Lenita, gritou ele.
E atentando na caa: Deixa ver isso, rapariga! Ih! que razoural No mato no ficou 
pssaro! Esta menina! Olhe, voc devia ter nascido homem... e quem sabe se voc no  mesmo 
homem?
Lenita corou at s orelhas.
O coronel no se deu por achado da inconvenincia.
- Vamos, vamos almoar, que Manduca deve estar a tinir: fez a loucura de caminhar a 
cavalo a noite toda. Vamos!
O almoo correu bem, mas terminou desagradavelmente. Quando estavam tomando caf 
com leite, terminao obrigatria do almoo rural paulista, entrou na sala uma preta velha, 
assustada.
-Acuda, sinh! disse, Maria. Bugra est morrendo!
- Onde est ela? Que  que tem? perguntou surpreso o coronel.
- O que ela tem eu no sei. Est a na sala de fora, eu a mandei trazer para a.
O coronel levantou-se, saiu a ver, aflito, trpego. Barbosa e Lenita seguiram-no.
Na sala de entrada, sobre urna marquesa forrada de couro, encostando-se a um travesseiro 
de marroquim que fora encarnado, estava uma preta fula ainda moa.
Estertorava com a face tumefata, com os tendes do pescoo retesados; os olhos 
protraam-se das rbitas; as pupilas enormemente dilatadas tinham feito desaparecer os limbos 
do ris. Das comissuras dos lbios contrados e deformados escorriam fios de baba, viscosos, 
resistentes, translcidos.
O coronel abeirou-se da enferma, tomou-lhe o pulso.
- Veja isto, Manduca, que pensa voc?
Barbosa aproximou-se por sua vez, procurou sentir o calor da preta na pele do rosto, 
encostando-lhe o dorso da mo, achou-a fria; tateou-lhe o pulso, encontrou-o dbil, 
espaadssimo; beliscou-a, ela no pareceu dar acordo disso.
- Como principiou esta molstia? perguntou ele  preta que tinha ido dar parte.
Eh! sinh moo! Maria estava no paiol, debulhando milho, muito sossegada. De repente 
entrou a queixar de ansiedade, levantou, andou vira-virando, entrou a gritar, a falar as coisas  
toa. Batia com a cabea, escumava, queria morder gente, parecia mesmo que estava louca. 
Depois perdeu o sentido, caiu, ficou assim como est. Eu mandei trazer para aqui, fui chamar 
sinh.
- Sim ! Faz muito tempo?
- No, sinh moo, foi agora mesmo.
- Comeu ela ou bebeu alguma coisa?
- Ela almoou, h de fazer duas horas.
- No bebeu nada?
- Bebeu caf, uma meia tigela.
 - Donde veio o caf?
- Veio da senzala de pai Joaquim.
- Joaquim Cambinda?
- Sim, sinh moo.
Barbosa foi ao seu quarto e, aps breve demora, voltou com um frasquinho a meio de um 
lquido claro como gua. Pediu uma colher; trouxeram-lha. Chamou e enferma, junto do ouvido:
- Maria!
A negra no respondeu.
- Maria! repetiu ele em voz mais alta.
A preta tentou sair do estado soporoso em que se achava, procurou levantar a cabea, no 
conseguiu; deixou-a recair pesadamente no travesseiro, proferindo uns sons inconexos, semi-
inarticulados. De sob as suas roupas exalava-se um cheiro ftido de matrias fecais.
Barbosa, vendo que nada poderia obter, que a vontade estava ali aniquilada, passou o 
frasquinho ao coronel.
- Vou abri-lhe a boca com a colher; vossa merc despejar dentro o contedo deste vidro.
- Todo?
- Todo;  uma dose forte de emtico; convm faz-la vomitar. Introduziu com algum 
custo o cabo da colher entre as arcadas dentrias da doente, e, fazendo dele uma alavanca, 
descerrou-lhe os queixos.
- Agora, meu pai !
O coronel vazou dentro da boca, entreaberta  fora, o lquido do vidrinho.
- Engula! gritou Barbosa.
A negra fez um esforo, deu um safano violento, a colher saltou longe, e o lquido, 
revessado, caiu sobre a marquesa, correu para o soalho. A deglutio era impossvel.
- No ser bom mandar chamar o doutor Guimares?
- Intil, meu pai; nada h a fazer neste caso.
- Assim mesmo...
- O doutor Guimares s poderia estar aqui  noite, e dentro de uma hora a preta j ter 
morrido.
- Manduca, olhe...
- Sei o que isto , meu pai; no h mesmo nada a fazer.
O coronel voltou triste para a sala de jantar; Lenita e Barbosa com ele.
Sentaram-se junto de uma  uma janela abatidos: a molstia da preta lanara-os em um 
desnimo profundo, em uma apreenso de vagas ameaa de perigos desconhecidos.
Entreolhavam-se, no ousando arriscar um dito, uma palavra.
E todavia essa reserva pesava-lhes, era-lhes incomportvel o silncio.
Quebrou-o Barbosa.
- Meu pai, a Maria Bugra morre, e sabe vossa merc de que morre ela?
- Tenho medo de o saber.
- Vejo que me compreendeu. 
- Morre do que tm morrido vrios escravos aqui na fazenda, morre envenenada.
-  bem possvel.
- No  possvel,  certo.
- Lembra-se da morte do Carlos, da do Chico Carreiro, da do Antnio Mulato, da Maria 
Baiana?
- Perfeitamente!
- No apresentaram eles os mesmos sintomas que apresentou e est apresentando agora a 
Maria Bugra?
- Homem, com efeito! Apresentaram.
- Excitao violenta mas passageira, delrio, depois paralisia quase completa, face 
tmida, conjuntivas injetadas, olhos saltados, dilatao de pupilas, deglutio impossvel, queda 
de pulso, esfriamento geral, incontinncia de urina e de fezes?
- Exato.
- Pois tudo isso, estou convencido,  conseqncia da ingesto de um veneno terrvel, 
infelizmente muito comum entre ns, a atropina.
- Muito comum entre ns, a atropina?!
- Sim senhor.
- Pois a atropina no se tira da beladona?
- Tambm se tira da beladona.
- E onde encontrar a beladona? No Brasil s pode haver beladona em algum horto 
botnico.
- Meu pai no conhece aquilo que ali est? E Barbosa apontou para um vasto trato de 
terreno, coberto de plantas baixas, escuras, de folhas repicadas, de flores brancas, em forma de 
trombeta.
- Conheo, respondeu o coronel,  figueira do inferno, mamoninho bravo, um veneno 
terrvel, dizem. Mas voc falou em atropina.
- Cientificamente a figueira do inferno chama-se Dotura stramonium: extrai-se dela um 
alcalide venenosssimo, a que se chama doturina: Ladenburg, porm, e Schmidt verificaram 
nestes ltimos tempos que a daturina  pura e simplesmente a atropina, a mesma letal atropina 
que se obtm da beladona.
- E a sua convico ...
- Que Maria Bugra morre envenenada por uma decoco fortssima de sementes de 
datura, e, conseqentemente, por atropina. 
E tem suspeita de quem tenha sido o propinador do veneno?
No tenho suspeita, tenho certeza.
- Quem pensa que foi?
- Joaquim Cambinda.
A esta acusao precisa, formal, convicta, o coronel baixou a cabea. Pensava Barbosa 
tinha razo. Perdera a fazenda vrios escravos mortos todos de uma molstia esquisita, que 
apresentava invariavelmente o mesmo cortejo de sintomas. E isso comeara depois de que viera 
Joaquim Cambinda. Esse preto, tinha-o ele recebido com outros em herana de uma tia, j velho, 
incapaz de trabalhar. Nunca exigira dele servio; dera-lhe at para morar, a pedido seu, um paiol 
largado, independente, no fundo do terreiro. Tempos havia, morrera na fazenda um feitor branco: 
a viva, lembrava-lhe bem, tinha feito um berreiro enorme, infernal, dissera que o marido 
sucumbira a coisa feita, acusara terminantemente a Joaquim Cambinda. No dera ele, coronel, 
importncia  acusao, e essa acusao ressurgia, feita agora por seu filho, homem inteligente, 
ilustrado, muito sisudo.
- Em que se estriba voc para inculpar o negro velho? perguntou aps minutos de 
meditao.
- Em muita coisa. Primeiro, os fatos, os envenenamentos indiscutveis, e que s 
comearam de dez anos a esta parte, depois que Joaquim Cambinda veio para a fazenda: eu c 
no estava, mas por informaes acho-me ao corrente de tudo. Em segundo lugar a fama de 
mestre feiticeiro que tem ele em todo o municpio: varias pessoas de critrio tm-se interrogado a 
esse respeito. Depois, surpreendi-o eu mesmo, outro dia, a secar cabeas de cobra, razes de 
cicuta e de guin, sementes de datura. E mais... ele tinha seus agravos de Maria Bugra...E 
Barbosa acentuou estas palavras, olhando para Lenita. 
-  verdade, sei, at j tive de tomar providncias por causa disso. Mas so presunes 
apenas...
- Que, reunidas, fazem convico.
- Precisamos de tirar isto a limpo.
-  o meu modo de entender: no podemos deixar correr  revelia uma coisa de tanta 
gravidade.
Realizaram-se as previses de Barbosa: o estado soporoso de Maria Bugra passou para 
coma, e o coma para morte.
 tarde, ao escurecer, depois da revista, o coronel mandou chamar Joaquim Cambinda.
O medonho negro veio arrastando os ps, escorando-se em um bordo, a rojar pelo solo a
imunda coberta parda, de que sempre usava.
Chegou, entrou na ante-sala, largou o bordo a um canto. O cadver de Maria Bugra a 
estava, sobre a marquesa, no meio da quadra, inteiriado, coberto por um lenol fino que lhe 
desenhava as formas duras, angulosas. Quatro velas de cera alumiavam-no lugubremente, 
casando os seus clares aos ltimos clares do dia.
Por entre o cheiro acre de vinagre ferrado e o cheiro enjoativo da alfazema queimada, 
percebia-se um cheiro ftido, um fartum de carne podre, de decomposio cadavrica.
Joaquim Cambinda entrou, olhou com indiferena para a defunta, dirigiu-se ao coronel 
que, junto com Barbosa, a o esperava.
- V sos cristo, sinh. Sinh mandou chamar negro velho, negro velho est aqui, disse 
na sua algaravia brbara, horripilante, impossvel de reproduzir.
- Sabe quem est ali morta, Joaquim?
- Sei,  Maria Bugra.
- De que morreu, no sabe?
- De suas molstias dela.
- Que molstias?
- Eu no sei, eu no sou doutor.
- Ento voc no sabe, no  doutor? No sabe Tambm de que morreu a Maria Baiana, o 
Antnio, o Carlos, o Chico Carreiro?
- Como quer sinh que eu saiba?
- Se voc no confessar tudo o que tem feito, aqui, direitinho mando-o acabar a bacalhau, 
s feiticeiro do diabo!
- Ah! Sinh! Feiticeiro, negro velho, que no tarda a ir dar contas a Deus do feijo que 
ele comeu!
- Deixe-se de histrias, de mamparras, vamos ! Com que matou voc a Maria Bugra? 
- No matei com coisa alguma, sinh. Como hei de eu confessar uma coisa que eu no 
fiz?
- Se fez ou se no fez  o que vamos j saber. Pedro, Joo, venham c, agarrem-me este 
patife.
 porta a negrada acotovelava-se curiosa estendendo uns o pescoo por sobre os ombros 
dos outros.
Os dois pretos chamados abriram caminho, empurrando os companheiros, entraram na 
ante-sala.
- Segurem-me este tratante, conduzam-no  casa do tronco.
Eu j l vou. Levem o bacalhau e uma salmoura forte.
- Que  que sinh vai fazer comigo ? inquiriu rpido Joaquim Cambinda.
- Voc vai ver.
- Sinh, Joaquim Cambinda nunca apanhou de bacalhau...
- Vai apanhar agora; ser ento a primeira vez.
Operou-se uma revoluo medonha em Joaquim Cambinda. Atirou ele para longe de si a 
coberta esfarrapada, endireitou o busto derreado, ergueu a cabea, cerrou os punhos e encarou o 
coronel. Cintilavam-lhe os olhos, os beios arregaados deixavam ver os dentes.
- Ahl voc quer saber, eu digo: fui eu mesmo que matei Maria Bugra.
- E por que a matou voc?
- Porque ela comia o meu dinheiro, e me enganava com a crioulada nova.
- E os outros, o Carlos, a Maria Baiana, o Chico Carreiro, Antnio Mulato?
- Fui eu mesmo que matei a todos.
- E por qu?
- Maria Baiana pelo mesmo motivo que me fez matar Maria Bugra. Os outros para fazer 
mal a sinh.
- Para me fazer mal? Por qu? Pois voc no  o mesmo que forro? Exijo eu algum 
servio de voc? No lhe dou moradia, roupa, comida? Por que me quer mal?
- J que principiei a falar, irei at o fim. Sinh  bom para mim,  verdade, mas sinh  
branco, e obrigao de preto  fazer mal a branco sempre que pode.
- Matar-me cinco escravos !
- Cinco ! S crioulinhos mandei eu embora dezessete. Negro grande, nem se fala: Manuel 
Pedreiro, Tomaz, Simeo, Liberato, Gervsio, Chico Carapina, Jos Grande, Jos Pequeno, 
Quitria, Jacinta, Margarida, de que  que morreram? Fui eu que matei todos.
Ergueu-se grande sussurro de entre o grupo de negros. Ouviam-se gritos, imprecaes.
- Agora tambm voc est mentindo: Jos Pequeno morreu picado de cobra.
- Qual cobra! A cobra que o picou no tinha veneno. E ele morreu, mas da beberagem 
que eu lhe dei para curar.
- Mas todos esses pobre diabos eram pretos como voc. para que os matou? 
- Para sinh ficar pobre: eu queria ver sinh se servir por suas mos.
- E a mim nunca pretendeu voc matar?
- Matar, no : fazer penar s.
- Ento sempre me queria fazer alguma coisa?
- Queria fazer! Eu fiz mesmo.
- Fez? Que  que me fez voc?
- Esse seu reumatismo, sinh, ento que ? Entrevamento de sinh velha donde vem? E o 
negro deu uma gargalhada feroz.
O coronel ficou aterrado.
- Levem, levem daqui esta serpente ! gritou Barbosa. Metam-no no tronco, no quero 
mais
v-lo. Vai para a vila amanh. Os negros apoderaram-se de Joaquim Cambinda, que no ofereceu 
resistncia, rodearam-no, levaram-no a empurres para o meio do terreiro!
- Ento foi voc que matou meu pai ! dizia um.
- Minha me ! bradava outro.
- Meus trs filhinhos to bonitos, que entraram a inchar de repente, na cabea e na 
barriga, a amarelar e que morreram com as perninhas finas como pernas de r! lamuriou uma 
negra e, tomando do cho um caco de telha, bateu com ele na cara do feiticeiro.
Foi como que um sinal.
Os negros todos achegaram-se a Joaquim Cambinda, uns davam-lhe punhadas, outros 
escarravam-lhe, outros atiravam-lhe areia nos olhos.
- Peste do diabo ! Coisa ruim !
- Feiticeiro do inferno!
- Enforque-se j este demnio !
- O melhor  queimar!
- Que se queime! Que se queime!
E numa confuso horrorosa foram arrastando o desgraado.
Ao p do paiol estava um monto de sap seco, e junto dele uma mesa velha de carro,  
com uma roda s, desconjuntada, meio podre.
Em um momento amarraram o msero sobre essa mesa de carro, apesar da resistncia 
louca que ele ento procurou fazer, a pontaps, a coices, a dentadas.
Trouxeram sap, aos feixes, encheram com ele o vo que ficava por baixo da mesa.
- Querosene! gritou uma voz, tragam querosene!
Um moleque correu ao engenho, e de l voltou com uma lata quase cheia.
Um preto tomou-lha, subiu  mesa do carro, comeou a despejar petrleo sobre Joaquim 
Cambinda: o lquido corria em fio farto, claro, transparente, com reflexos azulados, ressaltava do 
peito piloso do negro, da sua calva lustrosa, embebia-se-lhe nas roupas imundas, misturado, 
confundindo com o suor que manava em camarinhas. Os olhos do miservel revolviam-se 
sangrentos, seus dentes rangiam, ele bufava.
- Fsforos! Fsforos! Quem tem fsforos? perguntou o preto, depois que esvaziou a lata, 
e que fez desaparecer Joaquim Cambinda sob um monto de sap.
- Eu! acudiu a negra que dera princpio ao motim, e estende-lhe uma caixa de fsforos.
O preto saltou abaixo, tomou-a, abaixou-se, riscou um fsforo, protegeu-lhe a chama com 
a mo em forma de concha, encostou-o ao sap, junto do cho.
Ergueu-se uma fumarada espessa, azul-claro por cima, cor de ferrugem por baixo; a 
chama cintilou em compridas lnguas gulosas, lambeu, rodeou a mesa do carro, chegou ao sap 
de cima e ao corpo do negro. As roupas deste, embebidas em petrleo, fizeram uma como 
exploso, inflamaram-se repentinamente. Ele soltou um mugido rouco, sufocado, retorceu-se 
frentico...
Tudo desapareceu num turbilho crepitante de fogo e de fumo.
As falas voavam longe, e o vento carregava a distncias enormes as moinhas 
carbonizadas.
Sentia-se um cheiro acre, nauseabundo de chamusco, de gorduras fritas, de carnes 
sapecadas.

Captulo 13
At 1887 vivia-se em pleno feudalismo no interior da provncia de So Paulo.
A fazenda paulista em nada desmerecia do solar com jurisdio da Idade Mdia. O 
fazendeiro tinha nela crcere privado, gozava de alada efetiva, era realmente senhor de barao 
e cutelo. Para reger os sditos, guiava-se por um cdigo nico - a sua vontade soberana. De fato 
estava fora do alcance da Justia: a lei escrita no o atingia.
Contava em tudo e por tudo com a aquiescncia nunca desmentida da autoridade, e, 
quando, exemplo raro, comparecia  barra de um tribunal por abuso enorme e escandalosssimo 
de poder, esperava-o infalivelmente a absolvio.
O seu predomnio era tal que s vezes mandava assassinar pessoas livres na cidade, 
desrespeitava os depositrios de poderes constitucionais, esbofeteava-os em pleno exerccio de 
funes, e ainda... era absolvido. 
Para manter o fazendeiro na posse de privilgios consuetudinrios, estabeleciam-se 
praxes forenses, imorais e antijurdicas. Em Campinas, por exemplo, todo o crime cometido por 
escravos, fossem quais fossem as circunstncias, era sistematicamente desclassificado; a 
condenao, quando se fazia, fazia-se no grau mnimo; a pena era comutada em aoites, e o ru 
entregue ao senhor, que exercia ento sobre ele sua vindita particular.
O sucesso pavoroso, o linchamento atroz do feiticeiro pelos escravos da fazenda, no 
transpirou e, se transpirou, se alguma coisa chegou aos ouvidos das autoridades da vila, elas no 
se moveram. 
O coronel, homem bom, compassivo, horrorizara-se a princpio com o fato que no 
pudera impedir; afinal entendera que o que no tem remdio est remediado, achara at que o 
exemplo no havia de fazer mal. Barbosa, conquanto tivesse passado boa parte de sua vida na 
filantrpica Albio, era filho de fazendeiro, como tal tinha sido criado: no estranhara, pois, o 
sucesso, gostara at da soluo que ele trouxera a um caso complicado e gravssimo.
A atmosfera de tristeza, de desalento, que um sucesso trgico gera sempre, foi-se pouco a 
pouco dissipando.
O viver da fazenda entrou logo em seus eixos: dir-se-ia at havia melhoramento, que se 
estava mais  vontade. Joaquim Cambinda inspirava medo, ningum se atrevia a proferir uma 
palavra contra ele, e, todavia, exceto um pequeno nmero de adeptos de suas prticas, todos o 
odiavam. A sua morte, como a de todo tirano, fora um motivo de jbilo geral, alargara todos os 
pulmes que bebiam ar ento a haustos largos. Desaparecera o perigo invisvel e temeroso que a 
todo o instante a todos ameaava.
A fruiteira continuava a ser muitssimo freqentada por pssaros de espcies vrias, por 
serelepes e at por ourios caixeiros.
Lenita ia por diante com as suas razzias matinais. Acompanhava-a ento Barbosa, que lhe
deixava todo o prazer das caadas, reservando-se o trabalho. Era ele quem ia buscar as aves 
mortas, quem perseguia e apanhava as que caiam ainda vivas. Tendo achado um carreiro batido 
de caa, a alguma distncia da caneleira, escolheu um lugar que lhe pareceu apropriado, limpou-
o em bom espao, deitou milho, fez uma ceva. Ao terceiro dia notou com prazer indizvel que a 
caa acudia, que o milho estava comido. Em pouco tempo teve de renov-lo: tinha acabado. 
Entendeu que era tempo de construir um reparo. F-lo quadrangular, grande bastante para duas 
pessoas. Tapou-o em roda com palmas de guarirova, arranjou dentro um assento de varas, slido, 
relativamente cmodo. Cravou no cho forquilhas para encostar as espingardas, disps olheiros 
por onde pudesse espreitar a caa. Antegostava a surpresa agradabilssima que ia causar a Lenita, 
o arrebatamento, o xtase em que ficaria ela, ao defrontar pela vez primeira com caa de 
importncia com caa de grande plo.
Deixou passar alguns dias para que a caa se familiarizasse com a choa, e, quando 
entendeu ser tempo azado, mandou acordar a Lenita bem de madrugada, muito antes da hora do 
costume. Saram. Para atravessar o carreadouro e a picada, Barbosa teve de ir riscando fsforos; 
estava escuro como breu. Ao chegarem junto da caneleira ainda tudo era trevas. A copa das 
rvores formava uma pasta compacta, negra, indistinta do negror do cu. Lenita tinha sono, 
bocejava. A mucama encolhia-se toda, aconchegando-se no xale.
- Parece que perdemos hoje a hora, que viemos cedo demais, disse Lenita.
- Viemos a hora precisa, respondeu Barbosa.
- Os pssaros no comearo a vir nem nesta uma hora.
- Que venham quando quiserem: nos hoje no estamos c por amor de pssaros.
Ento por amor de que estamos?
-Vai ver. Marciana, voc fica aqui. Sente-se, no faa a mnima bulha. Agora D. Lenita 
venha comigo.
- Onde vamos ns?
- Vai ver, tenha pacincia.
A moa, intrigada ao ltimo ponto, deixou-se guiar silenciosa, dcil. Barbosa ia adiante, 
mostrando o caminho: ora dava-lhe a mo, ora afastava um ramo, para que lhe no batesse no 
rosto. Chegaram  ceva.
- Entre, Lenita, disse Barbosa, colocando-se ao lado da porta do reparo, com modo to 
corts; como se a estivera convidando para chegar ao buffet em um salo de cotillon 
cerimonioso, aristocrtico.
Lenita entrou confiadamente, resolutamente, naquele antro lbrego, onde nada se podia 
divulgar.
Barbosa entrou tambm, riscou um fsforo, mostrou o banco a Lenita, f-la sentar, 
disps-lhe a espingarda sobre a forquilha, assestou-lha sobre a ceva, sentou-se ao lado da moa.
- Mas isto que vem a ser, afinal de contas?
-  uma ceva. Agora silncio, e esperemos.
No recinto, fechado pelo tapume espesso de palmas ainda verdes, havia um conchego 
relativo. Lenita, com as mos agasalhadas em luvas de l, envolta e water-proof de casimira 
encorpada, sentindo o calor doce de Barbosa, achava-se bem. Hauria o ar puro, fresco, da mata, 
respirava as emanaes de guarirova, essas emanaes irritantes de palmeiras, que adormentam o 
crebro em uma lubricidade mstica. Ouvia coar delcias o pingar manso e montono de orvalho 
na camada de folhas secas. E despercebidamente o tempo ia passando. Amanheceu. A luz 
penetrou na mata, deu tom aos troncos, coloriu a folhagem, alumiou o cho pardecento e varrido 
da ceva, no qual o amarelo do monte de milho punha uma nota muito clara.
De repente Barbosa deu com o joelho em Lenita.
Um anima pequeno, esguio, elegante, emergia do mato, e avanava cauteloso, alongando 
o corpo fino. Chegou ao milho, retraiu-se, encolheu-se, fugiu aos corcovos, sumiu-se, reapareceu 
e, sempre arisco, sempre desconfiado, principiou a comer. Pouco a pouco perdeu o receio, 
ergueu as patas dianteiras, sentou-se sobre as traseiras, e, tomando uma espiga entre as 
mozinhas, comeou a ro-la com apetite, vorazmente.
Lenita, com o corao a bater descompassado, descorada, quase sem conscincia, como 
por instinto venatrio, aperrou a arma, fez pontaria, desfechou.
O tiro restrugiu pela mata, repercutiu com um baque seco nas quebradas distantes.
A clareira encheu-se de fumo.
A moa e Barbosa saram correndo a ver o resultado do tiro.
Junto do milho, com o plo arrufado, percorrido a espaos por uma crispao fraca, 
estava o animal, atravessado de banda a banda pela chumbada mortfera.
Era uma cutia.
Ao v-la ferida, prostrada, a exalar o derradeiro dbil alento, o prazer de Lenita foi to 
intenso, que dobraram-se-lhe as pemas, e ela caiu de joelhos, erguendo para Barbosa um olhar 
repassado de gratido.
Levantou-se, largou a espingarda, tomou o animal, sopesou-o com ambas as mos, a 
tremer, dementada pelo triunfo, em arrancos de risos nervosos.
- Agora  irmos para a choa, que no tarda a vir mais caa, disse Barbosa e, raspando 
terra com os ps, cobriu o sangue e o plo que havia no cho; depois ergueu a espingarda de 
Lenita, apresentou-lha e pediu-lhe a cutia para levar.
- Leve-me a espingarda, eu quero levar a cutia, respondeu a moa.
Instalaram-se de novo na choa. Lenita carregou a espingarda, sentou-se, ps a cofia 
diante de si, apoiou as pontas dos ps no seu corpo macio, cravou na ceva olhares vigilantes, 
cobiosos, sfregos.
No esperou muito. Ouviu-se um estalar de ramos quebrados, e, um logo aps outro, 
apresentaram-se dois vultos escuros, grandes, dois enormes porcos de eixo branco. Entraram no 
limpo da ceva confiados, lentos, mansos, caminharam direito ao milho, trombejando, foando, 
fazendo estalar os dentes. Pararam, puseram-se a comer tranqilamente, descuidosamente.
Lenita engatilhou a espingarda, quis met-la em pontaria. Barbosa impediu-a com um 
gesto enrgico.
- No se mova, segredou-lhe rapidamente, ao ouvido. Estamos em perigo srio.
- Em perigo?
Os dois porcos continuavam a trincar, a esmoer o milho, sem suspeitar da vizinhana de 
gente.
Passaram-se dez minutos, dez sculos de ansiedade para Lenita.
Barbosa lento, cauteloso, sem fazer o mnimo rumor, como uma sombra, tirou a 
espingarda de Lenita, e ps em lugar a sua, uma arma excelente de Pieper, canos shoke-rifled, 
calibre 12.
- Atire com esta disse em voz baixa que mal Lenita o pde ouvir, no tenha receio, no 
d coice. 
Lenita armou os dois ces, premendo os gatilhos para que no estalassem os gafanhotos 
nos dentes das nozes, levou a arma  cara e, quase sem apontar, disparou um tiro e outro 
imediatamente.
Os estampidos das cargas fortssimas ribombaram pela mata de modo pavoroso: a fumaa 
enevoou a ceva, tapou tudo; sentia-se o cheiro forte, bom, de sulfureto de potssio, de plvora 
queimada.
Lenita impaciente, incapaz de conter-se, quis sair. Barbosa a reteve.
- Cuidado! disse, esperemos que se dissipe a fumaa. O caso  srio. So queixadas.
- Ento foi a queixadas que eu atirei?
- Foi, e felizmente no h bando, so s dois.
- Se houvesse bando?
- Estaramos perdidos.
- So assim perigosos?
- Em bando, no mato, piores do que ona. Por amor das dvidas, d-me a espingarda, 
quero carreg-la.
Demoradamente foi-se dissipando o fumo. Barbosa e Lenita saram. Junto do milho o 
cho estava escarvado, via-se muito sangue. De dentro do mato, de pequena distncia, vinha um 
como grunhido, um ronco lastimado.
Barbosa ordenou a Lenita que se deixasse ficar e, com a espingarda armada, pronto a dar 
fogo, entranhou-se no mato, do lado donde vinham os grunhidos. No teve que andar muito: a 
pouco espao, perto um do outro, jaziam os dois porcos, alcanados ambos pelos tiros certeiros 
de Lenita. Um estava morto, o outro estertorava enfraquecido nos arrancos da agonia.
- Albo notanda dies lapillo!
Venha Lenita, venha ver o que fez ! gritou Barbosa.
Lenita, apressada, correu sem se importar com os ramos que lhe aoitavam, que lhe 
arranhavam o rosto, sem dar f dos espinhos que lhe rasgavam a roupa. Chegou-se: ao dar com 
as suas vtimas, perdeu de todo a cabea, teve uma como vertigem, soltou um grande grito, 
atirou-se a Barbosa, abraou-o freneticamente. Depois caiu em si, retraiu-se confusa, 
desapontadssima, correu a examinar os queixadas.
Baixou-se junto do que estava morto, examinou-lhe detidamente, minuciosamente : os 
cascos aguados, as cerdas duras, longas, as orelhas tesas, a tromba lisa, os olhos pequeninos, 
sangneos, os colmilhos oblquos, o queixo branco. Tirou as luvas, premiu-lhe, esvurmou-lhe a 
glndula tumefata das cadeiras, fez correr o lquido lcteo, catinguento.
- Foi feliz, disse Barbosa, risonho. Fez uma proeza de que se no podem gabar muitos 
caadores velhos.
- E ao senhor o devo! Obrigada!
Havia tanta doura, tanto sentimento no modo por que Lenita disse essa frase, que 
Barbosa sentiu um calafrio percorrer-lhe o dorso. Foi-lhe preciso uma violncia enorme sobre si 
prprio, para conter-se, para impedir-se de atirar-se  moa, de cobri-la de beijos.
- Ento, perguntou ele, voltarmos ao reparo, a esperar mais caa?
- No, respondeu Lenita, queixadas com certeza no vm mais, e seria profanar o dia e a 
espingarda atirar a caa inferior. Como havemos de levar estes monstros? 
Eu mando um preto busc-los com um cargueiro.
- A cutia ao menos eu quero levar.
- Pois levaremos a cutia.
- Aquele porco menor no quer morrer. Vamos ns dar-lhe mais um tiro?
- No vale a pena, ele morre logo. Est muito mal ferido.
- Mas so mesmo queixadas?
- E dos maiores.
- Boa carne?
- Excelente, melhor ainda que a do tateto.
- Em que se diferencia o queixada do tateto?
- O queixada, Dycotylus torquatus, vive s na mata virgem,  maior e muito mais feroz 
do que o tateto, Dycotylus labiatus, que  pequeno, medroso e que vive s vezes na capoeira. A 
nota, porm, caracterstica que os distingue  ter o queixada o queixo branco, como est vendo.
- E  da que lhe vem o nome?
- Exatamente. Ento, vamos?
- Com franqueza, estou sem nimo de separar-me das minhas soberbas vtimas. Mas 
vamos.
E foram.
A ceva ficou deserta por muito tempo. De sbito, pequenino, atrevido mesmo pela sua 
insignificncia, surdiu um rato, chegou-se sem cerimnias, entrou a roer o milho, o germe 
somente, o corao. Depois veio outro, e outro, um bando. O sol, coando um raio por entre a 
folhagem, ateava ao monte de milho solto e de espigas descascadas um incndio de reflexos cor 
de ouro.
Rojando em ondulaes por entre as plantas rasteiras da mata, entreparando num lugar, 
escutando em outro, veio avanando para a ceva uma cobra de grande talhe. Tinha o dorso fusco, 
sem brilho, maculado de losangos escuros, quase negros. A cabea era chata, o focinho tronco, 
como que aparado, com duas fossazinhas tapadas, duas ventas falsas. De cada olho partia um 
trao escuro que ia fenecer no pescoo. A cauda terminava em um como rosrio curto, de contas 
cmeas, ocas, achatadas, que, ao rastejar do animal deixavam escapar um rudo leve, quase 
imperceptvel, do pergaminho fuxicado.
Chegou, viu os ratos, parou, foi-se torcendo em espiral, formou um rolo, donde emergia, 
atenta, vigilante, a pavorosa cabea. O olhar negro luzente, glido, tinha uma fixidez fascinadora. 
A lngua lrida, comprida, fina, bfida, aoitava o ar em rpidas lambidelas. Um dos roedores 
percebeu o rptil, fitou-o aterrado, encolheu-se, enovelou-se, arrepiou o plo, comeou a chiar 
lastimosamente, miseravelmente. Os outros desapareceram.
Continuava a fascinao.
O desgraado rato tremia. Comeou de mover-se s guinadas, dando saltos irregulares, 
atxicos. No fugia, avanava para a cobra. Chegou-se-lhe muito perto. O rolo hediondo 
distendeu-se rpido, como uma mola de relgio, que se escapa do tambor, deu um bote. O 
animalzinho, ferido pelo dente fulmneo, virou de costas. Dentro de um minuto estava morto. 
A cobra desenrolou-se ento de uma vez, estendeu-se ao comprido, abriu, escancarou 
uma boca enorme, comeou a deglutir a presa, desarticulando as mandbulas para dar passagem 
ao corpo relativamente volumoso...
Depois, saciada, farta, com o repasto a formar um bolo visvel exteriormente no abdome 
dilatado, foi deslizando, lenta, preguiosa, em busca de um abrigo, at que chegou ao reparo, 
entrou, enrodilhou-se embaixo do banco de varas, e a comeou o sono comatoso da digesto 
equdnica.
- Lenita passou o dia contentssima, a lembrar-se a todo o momento da sua brilhante 
faanha venatria. Fechava os olhos, via as cevas, os queixadas. Estava satisfeita consigo, estava 
orgulhosa.
O jantar foi alegre.
Louro, coberto de rodelas de limo, apetitoso, tentador, figurou nele o lombo de um dos 
queixadas. A pea, nobre, a cabea, la hure, desossada magistralmente por Barbosa, que, como o 
velho Dumas, era perito em culinria, campeou em um prato travessa, imponente, majesttica, 
fragrante, cativadora.
- Hoje morro de indigesto, e  voc quem me mata, Lenita, dizia o coronel, repetindo 
pedao sobre pedao. H que anos que me no encontro com porco-do-mato! Essa cabea est 
divina; como ela... s o lombo!
Logo depois do caf, ela, Barbosa e a mucama seguiram para a ceva.
Muito embora seja quente o dia na mata h sempre frescor. A luz no era crua, mordente, 
como em uma campina rasa; esbate-se, quebra-se, d aos contornos dos objetos um aveludado 
mole, uma languidez suavssima. Os sons se abrandam, tomam um como timbre murmuroso. Na
mata domina a  todas as horas o que quer que  de vago mistrio.
Lenita, nessa atmosfera balsmica, sadia, achava-se feliz. Ao bem-estar gozoso, indefinvel, que 
gera a boa digesto de um repasto suculento, juntavam-se alegrias de mente, a conscincia de 
que seu amor por Barbosa era correspondido, o triunfo esplndido, inesperado, incrvel sobre 
duas temerosas feras. Fora por traio que as matara a tiro, escondida...embora! Na luta terrvel 
da vida toda a arma aproveita. A astcia  uma fora. A espingarda de bala explosiva  que 
equipara o homem ao rinoceronte: para mostrar coragem ir o homem atacar o rinoceronte sem 
espingarda de bala explosiva? As alimrias da selva no se deixam aproximar, fogem mal 
farejam a vizinhana do homem; o homem s consegue t-las em alcance escondendo-se, 
dissimulando-se: pois, para ser leal, ir o homem avis-las a gritos de que se acha presente? A 
fora  uma contrao da fibra muscular, o pensamento  uma irritao da clula nervosa: por 
que no empregar uma contra a outra? Na batalha da existncia, seja qual for a arma a empregar,
o que impor  no ficar vencido: o vencedor tem sempre razo. Os queixadas tinham morrido. 
Lenita estava triunfante: o crebro vencera o msculo mais uma vez. O fato era esse, o mais no 
entrava em linha de conta.
Barbosa quedou-se ao p da caneleira, a estudar umas epfitas que descobrira sobre um 
tranco carcomido.
- Ento no vem? perguntou-lhe Lenita.
- J no. Leve consigo a Marciana, que pode ajud-la no que for preciso. Perigo no 
existe mais : queixadas s havia aqueles, desguaritados de uma vara que por aqui estanciou, h 
meses. O administrador conhecia-os, j os tinha visto quando andou a tirar madeiras.
- Ento at logo.
- At j, eu no me demoro.
Lenita seguiu com Marciana por um pouco; mandou que ela se quedasse ali, junto de 
uma rvore, ao alcance da voz, s ordens; chegou-se  ceva, espiando de longe, cautelosa. A ceva 
estava deserta.
Entrou no reparo, sentou-se, disps a espingarda, comeou a esperar. 
Um bando de urus vinham-se aproximando; por duas vezes ouviu ela perto o seu harpejo 
aflautado, sonoro, intercadente. Mostraram-se, invadiram a ceva. Eram doze. Uns deitaram-se, 
desidiosos, disppticos, arrufando as penas, espojando-se; outros entraram a comer gulosamente, 
sofregamente.
Lenita fez um movimento para erguer-se, e pisou em uma coisa mole, que achatou sob a 
presso do seu p. Ao mesmo tempo quase, uma como chicotada surrou-lhe as pemas, e ela 
sentiu no peito do p esquerdo um ligeiro prurido, um pequeno ardor.
Fez-se um rebolio nas palmas do tapume, ao rs-do-cho, e ouviu-se o chocalhar spero, 
nervoso, irritante, como de uma vagem seca de fava, em vibrao frentica.
A um canto do reparo, armada pronta para novo bote, estava a cascavel. Os olhos 
pequeninos, fixos, luzentes como diamantes negros, pareciam despedir relmpagos gelados. O 
extremo da cauda, erguido verticalmente, tremia como o badalo de uma campainha eltrica, 
como um jato de vapor a escapar-se de um conduto estreito.
Lenita sentia-se ferida, conheceu o perigo em que estava. De um salto saiu do reparo, 
atirou-se para o limpo da ceva.
Os urus fizeram uma revoada temerosa, fugiram em todas as direes.
Com admirvel presena de esprito, Lenita sentou-se no cho, descobriu  a perna, tirou o 
sapato e a meia.
Na pele alvssima do peito do p viam-se dois arranhes paralelos, pequenos, de pouco 
mais de um centmetro de comprimento.
Lenita espremeu-os, limpou-os de uma como serosidade amarela que continham, tirou a 
fita que prendia a trana, amarrou a perna, acima do tornozelo, apertou muito a atadura.
Depois gritou pela rapariga, mandou que chamasse Barbosa a toda pressa.
Barbosa no se demorou.
Ao dar com Lenita, plida, sentada no cho da ceva, sem espingarda, com o p descalo, 
ficou pasmado, no sabendo o que pensar.
- Que tem, Lenita, que lhe aconteceu, perguntou acercando-se, ansiado.
- Estou picada de cobra.
- No me diga isso, no brinque assim.
-  srio.
- Onde  que est picada?
- Aqui no p, veja.
- Sabe que cobra foi?
- Cascavel.
Barbosa empalideceu; por um momento ficou como atordoado.
Dominou-se, porm, logo ajoelhou-se, tomou o p de Lenita entre as mos, examinou 
detidamente.
- No h de ser nada; disse.
Nenhuma veia importante foi tocada. A precauo que tomou de atar a perna com esta 
fita foi excelente. Agora, nada de acanhamento, entregue-se a mim deixe-me fazer o que 
entendo.
Tirou do bolso um charuto, trincou-o nos dentes, mascou-o, encheu a boca de tabaco 
dissolvido em saliva, tomou de novo o p de Lenita, com respeito, com adorao quase, chegou-
lhe a boca, entrou a sugar-lhe a ferida a sorvos vagarosos, contnuos, fortes.
Cuspiu, renovou o tabaco, repetiu a operao.
-  curioso, disse Lenita, eu nada sinto, nada absolutamente;  como se no tivesse sido 
picada.
- Mas tem certeza mesmo de que foi cobra, de que foi cascavel?
- Ora! Escute l. Ouve?
No reparo continuava a chocalhada sinistra.
Barbosa tomou a espingarda, aperrou-a, aproximou-se do reparo, olhou pela porta, levou 
a arma  cara, fez fogo. Depois entrou e saiu logo com a cobra, morta, suspensa pela cauda. 
Tinha de seis a sete palmos, era muito grossa, um crtalo medonho, um monstro. 
- Lenita, disse Barbosa, atirando o rptil ao cho, seria fazer-lhe injria dissimular a 
gravidade do que aconteceu. Mas as providncias tomadas do-nos quase ganho de causa: voc 
com a atadura impediu em tempo a circulao do sangue, e por conseguinte a absoro do 
veneno; eu suguei a ferida, e retirei o que era ainda possvel retirar. Sente alguma coisa agora?
Apenas um pouco de turvao na vista.
- Vamos para casa. Vou seguir um processo racional de curativo, e espero v-la logo 
risonha e alegre, outra vez, aqui na ceva. No tire, no deixe afrouxar o amarilho da perna.
Foram. Lenita em caminho teve duas vertigens, quase caiu. Em algumas subidas speras 
Barbosa carregava-a. Marciana acompanhara-os levando as espingardas. Chegaram. Lenita 
despiu-se, deitou-se. Tinha frio, sentia sonolncia.
Barbosa foi ao seu quarto e de l voltou com uma garrafa de rum: abriu-a, encheu um 
clice grande, f-lo beber a Lenita, inteirinho de uma vez.
- Bom, temos meio caminho andado. Agora toda a docilidade, sim?
Lenita aquiesceu com um gesto triste.
Barbosa assentou-se  beira da cama, levantou discretamente uma parte das cobertas, 
tomou o p ferido de Lenita, desfez o atilho da perna. Um vinco em circulo afundava-se lvido, 
um pouco acima do tornozelo. O p estava inchado.
Esfregou por algum tempo a pele, restabelecendo a circulao; tomou depois a pr a 
ligadura.
Lenita entrou a ficar ansiada, aflita.
- Di-me a cabea, foge-me de todo a vista, confundem-me as idias.
-Tome mais um clice de rum,  preciso.
- Torno, mas escute, diga-me uma coisa com franqueza, eu vou morrer, no?
- No, no morre. Eu respondo pela sua vida.
- No morro! Diz isso para me animar. Eu bem sei o que  veneno ofdico.
- Tambm eu, e por isso afirmo que no morre.
- Seja. Em todo o caso quero lhe dizer uma coisa, chegue-se aqui bem perto.
Barbosa aproximou a cabea do rosto da moa.
- A minha convico  que morro e eu no quero morrer sem lhe contar um segredo.
- Diga, Lenita, diga o que quiser, confie em mim, sou seu amigo.
- Amo-o, Barbosa, amo-o muito...
Barbosa teve um deslumbramento. Dominou-se, curvou-se, beijou Lenita na testa, 
castamente, paternalmente.
- Pobre menina!... Mas no morre! Tome mais um clice de rum, sim?
- Ora, o primeiro j me atordoou.
-  mesmo para isso, tome.
Lenita ergueu-se, bebeu a custo, recaiu pesadamente sobre o travesseiro.
- Tenho sono... quero dormir...
E fechou os olhos.
Barbosa velou-lhe  cabeceira quase a noite toda: de meia em meia hora desfazia-lhe o 
atilho da perna e, depois de ter restabelecido a circulao por um pouco, tomava a apert-lo: a 
moa no dava acordo. Inconscientemente, a dormir, murmurando palavras inconexas; ingeriu 
mais dois clices de rum que lhe fez beber Barbosa, meio  fora.
Pela madrugada despertou, chamou a mucama. Barbosa retirou-se discretamente, Lenita 
tornou logo a adormecer.
Quando amanheceu Barbosa interrogou a mucama: 
- D. Lenita urinou?
- Urinou, sim, senhor.
- Deitou voc fora a urina?
- No, senhor, est ali no vaso, dentro do criado-mudo.
- V buscar.
A rapariga trouxe o vaso: estava acima de meio de uma urina carregada, sanguinolenta.
- D. Lenita suou?
- No reparei, no senhor.
- V ver. Se tiver suado, troque-lhe a roupa, e traga-me aqui a camisa molhada.
Dentro de dez minutos a rapariga voltou com o camisolo de dormir, que tirara de Lenita, 
mido, levemente tinto em alguns lugares, de um vermelho deslavado.
Ao meio-dia a moa acordou.
Estava fresca, bem disposta, sentia-se com apetite.
Barbosa mandou vir um caldo de frango, suculento, grosso, f-la tomar uma xcara dele e 
beber um clice de vinho velho.
O coronel, informado do que acontecera, estava aflitssimo.
- Vegetalina, por que no lhe deu vegetalina?  um grande remdio.
- Grande remdio  o lcool, respondeu Barbosa. A vegetalina e outros quejandos 
especficos devem o efeito, que se lhes atribui, ao lcool em que so administrados.
- Olhe que a vegetalina tem arrancado muita gente da sepultura.
- E como se d a vegetalina, no me dir?
- Em cachaa forte, de vinte e quatro graus.
- Ora a est. Lenita no tomou vegetalina, e eu a considero livre de perigo.
- Tinha pouco veneno a cascavel, era pequena?
- Era enorme.
- E Lenita, acha voc que esteja livre de perigo?
- Ela teve a boa inspirao de atar a perna; chupei-lhe as feridas: pouco veneno foi 
absorvido.
- Voc chupou? E ps fumo na boca? No tinha alguma fstula na gengiva, alguma 
escoriao na lngua?
- Felizmente tenho a boca perfeitamente s.
- E que lhe deu voc a beber?
- lcool excelente, rum de Jamaica.
- S?
- S
- Hum! no sei...
- O meu tratamento foi todo racional:  pus em prtica o que aprendi de Paul Bert, que o 
aprendeu de Claude Bernard. Vossa merc conhece bem o jogo da circulao. O sangue 
hematoso nos pulmes vai, pela veia pulmonar, armazenar-se nos compartimentos esquerdos do 
corao: da sai pela aorta, corre pelo sistema arterial, vivifica todo o organismo, chega aos 
capilares, transfunde-se, toma carregado de resduos pelas veias, entra na aurcula direita do 
corao, recolhe os elementos reparadores trazidos pelas veias subclvias, passa para o 
ventrculo respectivo, volta a depurar-se, a reoxigenar-se nos pulmes, e assim por diante, 
sempre. Ora muito bem. No caso de uma infeco qualquer de veneno, de uma mordedura de 
cobra por exemplo, h trs fases, trs etapas indefectveis: primeira, dissolve-se o veneno nos 
humores animais que se encontram na ferida; segunda, penetra o veneno nas veias e  levado ao 
corao; terceira, pe-se o veneno em contato com os elementos orgnicos do corpo por meio da 
torrente arterial. Meu pai sabe que o que constitui venenosa uma substncia qualquer no  a sua 
qualidade, mas sim a sua quantidade: um miligrama de estricnina no  venenoso para o homem 
porque, tomado de uma vez, no o mata: um litro de conhaque  venenoso para ele porque, 
tomado de uma vez, fulmina-o. Um veneno que se elimina antes de exercer ao txica deixa de 
ser veneno. No caso de mordedura de cobra, para que o veneno produza efeito mortfero,  
preciso que a sua eliminao seja desproporcional,  preciso que seja menor do que a absoro:  
indispensvel que haja acumulao no sangue. Pois bem: o veneno est na ferida, mas no pode 
subir, que lho impede uma ligadura. Impossvel prolongar tal estado, traria a gangrena. Fora  
desfazer o atilho, deixar subir o sangue e com ele o veneno. Desfaz-se, deixa-se aos poucos, 
porm, de modo que o veneno que entra com o sangue no seja suficiente para produzir ao 
letal, de modo que seja eliminado antes que venha outra quantidade que, somada com ele, possa 
produzir essa ao. Assim, pois, solta-se a ligadura, aperta-se de novo, toma-se a soltar, toma-se 
a apertar, at que todo o veneno tenha percorrido o corpo e tenha sido eliminado sem efeito 
mortfero. O lcool excita os nervos, aviva a torrente circulatria; ajuda, portanto, facilita a 
eliminao.
- E h exemplos de curas realizadas com esse processo?
- Inmeros. Claude Bernard salvava, quando queria, animais que ele prprio tinha ferido 
com flechas curarizadas. Na provncia do Rio uma amigo meu foi picado por um surucucu 
enorme, e eu salvei-o seguindo este tratamento.
- Ento a Lenita?...
-  o meu segundo caso de cura: julgo-a to livre de perigo agora como estava ontem, 
antes de ser picada.
- Posso v-la?
- Por certo.
Entraram no quarto. Lenita estava sentada na cama, com as pemas encruzadas  chinesa, 
por debaixo das cobertas. Alegre, radiante, tinha esse ar de triunfo que tm todos os doentes 
escapos de molstia grave. Um leno de cambraia alvssima, dobrado em tira, cingia-lhe a cabea 
como um diadema, fazendo sobressair o brilho dos olhos, o negror dos cabelos, o doirado plido 
das faces. Uma camisa de dormir, afogada, de seda crua, mal dissimulava nas pregas largas e 
moles a linha dura dos seios.
- Ento, com que, pronta para outra! disse o coronel. Pois escapou de boa!  no que do 
as caadas. Podia estar morta a esta hora!
- Mas estou viva.
- E no ganhou medo ao mato?
- No, ganhei experincia.
Serei vigilante, cautelosa para o futuro: no assentarei o p em um lugar qualquer sem o 
ter examinado bem primeiro. E, realmente, mais foi o susto. Olhe eu tive um pouco de dor de 
cabea, enfraquecimento geral, sonolncia: sofrer, sofrer mesmo, no sofri.
- Foi feliz, acertou com bom mdico.
Lenita volveu para Barbosa um olhar doce, repassado de gratido.

Captulo 14
O veneno da cobra, parece, deixara viciado o sangue de Lenita.
Sentia-se ela tomada de acessos sbitos de fraqueza moral, exatamente como nos 
primeiros tempos de sua vinda para a fazenda.
Deixara de caar, deixara de ler; extinguira-se-lhe a sede de cincia.
Sentava-se a toda a hora na rede ou em uma cadeira de balano e imergia em cisma. 
Comia pouco, quase nada.
s vezes encostava-se  mesa, debruava-se, pegava em um lpis, em uma flor, em um 
objeto qualquer, e virava-o, revirava-o, batia com ele em ritmo estranho, durante tempo largo, 
com os olhos parados, sem expresso na face, como se estivesse a um milho de lguas das 
coisas da terra.
Barbosa, por sua parte, tomara-se reservado; a confisso de amor que Lenita lhe fizera 
acanhava-o a ele.
Insensivelmente deixara-se prender em um lao de que no cogitara, que nem sequer 
suspeitara. Achava-se em posio escabrosa. Amava a Lenita doidamente, perdidamente; sabia 
que era dela amado; ouvira-lho a ela prpria. Que mais? Ou cortar de vez tudo, fazer as malas, 
embarcar-se para a Europa, ou tomar-se abertamente amante da rapariga. A flirtation 
sentimental, platnica, naquele caso, era uma imbecilidade, um cmulo de ridculo.
E Barbosa passava a maior parte do tempo em visitas e jogos pela vizinhana ele que 
dantes no jogava, que no visitava a ningum.
Andava pelo mato, de espingarda; mas a espingarda era um pretexto; ele no caava.
Uma tarde, ao descambar do sol, sentou-se cansado  raiz de uma figueira branca, no 
centro da mata virgem, olhou para cima maquinalmente; viu um enorme quati-mund, que o 
espiava da bifurcao de um galho, fazendo-lhe gaifonas com o longo focinho pontiagudo. Como 
se no bastasse a tentao, ouviu-se um batido de asas forte, volumoso, e um macuco gigantesco 
veio empoleira na figueira, bem por cima do quati. Pousou, achatou-se em um galho, sacudiu-se, 
aconchegou-se, encolheu a cabea, soltou trs pios altos, seguidos, compassados. Barbosa no 
prestou ateno nem ao quadrpede, nem  ave. A sua espingarda continuou imvel entre os 
joelhos.
Por diante dos olhos, em uma como viso betitifica, esvoaava-lhe a imagem de um p, 
do p de Lenita, branco, cetinoso, brevssimo, com unhas rseas transparentes, e veias azuladas.
E ele beijara esse p, mais do que isso, ele sugara lentamente, por muito tempo, tendo na 
mo o calcanhar adorvel, redondo, rubro, onde a presso de seus dedos deixava marcas muito 
brancas.
Sentia o saibo da pele fina, veludosa, ameaada de morte, mas cheia de vida. Seus lbios 
como que tinham memria, recordavam-se.
E o beijo paternalmente parvo que lhe dera na testa ao confessar-lhe ela o amor que lhe 
tinha. Ainda lhe hauria o perfume natural dos cabelos, o hlito fresco, lcteo, so, como o que 
vem da boca de um bezerro novo.
Por que no aceitar esse amor que se impunha, que se dava, que se oferecia? No 
procurara ele a Lenita, viera ela a seu encontro, cnscia da situao, sabendo que ele era casado, 
que a no poderia nunca desposar legitimamente.
E sem rebuos, com prudncia castssima, fizera uma confisso que as mulheres nunca 
querem ser as primeiras a fazer. Gracejo no tinha sido, a ocasio no era para gracejos.
Que mal adviria ao mundo de que se enlaassem, de que se possussem, de que se 
gozassem um homem e uma mulher que se amavam?
No se podia casar com Lenita? Que tinha isso? Que  o casamento atual seno uma 
instituio sociolgica, evolutiva como tudo o que diz respeito aos seres vivos, sofrivelmente 
imoral e muitssimo ridcula? O casamento do futuro no h de ser este contrato draconiano, 
estpido, que assenta na promessa solene daquilo exatamente que se no pode fazer. O homem, 
por isso mesmo que ocupa o supremo degrau da escada biolgica,  essencialmente verstil, 
mudvel. Hipotecar um futuro incerto, menos ainda, improvvel, com cincia de que a hipoteca 
no tem valor, ser tudo quanto quiserem, menos moral. Amor eterno s em poesias piegas. 
Casamento sem divrcio legal, regularizado, honroso, para ambas as partes,  caldeira de vapor 
sem vlvulas de segurana, arrebenta. Encasacas-se, paramenta-se um homem, atavia-se, orna-se 
de flores simblicas uma mulher: e l vo ambos  igreja, em pompa solene, com grande 
comitiva: para qu? Para anunciar em pblico, em presena de quem quiser ver e ouvir, a 
repiques de sino e som de trompa, que ele quer copular com ela, que ela quer copular com ele, 
que no h quem se oponha, que os parentes levam muito a bem... Bonito! E a multido de 
badauds, velhos e moos, machos e fmeas, de olhos encarquilhados e dentes  mostra em riso 
alvar, dando-se cotoveladas maldosas, segredando obscenidades! Seria ridculo, se no fosse 
chato, sujo.
O amor  filho da necessidade tirnica, fatal, que tem todo o organismo de se reproduzir, 
de pagar a dvida do antepassado segundo a frmula bramtica. A palavra amor  um eufemismo 
para abrandar um pouco a verdade ferina da palavra cio. Fisiologicamente, verdadeiramente, 
amor e cio vm a ser uma coisa s. O incio primordial do amor est, como dizem os bilogos, 
na afinidade eletiva de duas clulas diferentes, ou melhor, de duas clulas diferentemente 
eletrizadas. A complexidade assombrosa do organismo humano converte essa afinidade 
primitiva, que deveria ter sempre como resultado uma criana, em uma batalha de nervos que, 
contrariada ou mal dirigida, produz a clera de Aquiles, os desmandos de Messalina, os xtases 
de Santa Teresa. No h recalcitrar contra o amor, fora  ceder.  natureza no se resiste, e o 
amor  natureza. Os antigos tiveram uma intuio clara da verdade quando simbolizaram em 
uma deusa formosssima implacavelmente vingativa, na Vnus Afrodite, o lao que prende os 
seres, a alma que lhes d vida.
Lenita se lhe oferecia, pois bem, ele seria o amante de Lenita.
E Barbosa ergueu-se robustecido, forte, como quem acaba de tomar uma resoluo 
definitiva, caminhou apressadamente para casa.
Quando chegou era quase noite, j estava escuro.
Entrou no seu quarto, largou a espingarda e a patrona, riscou fsforos, acendeu uma vela, 
lavou as mos.
Saiu.
No corredor, ao chegar  ante-sala, deu com algum: era Lenita.
- Oh ! exclamou ele.
As mos de ambos como que se procuravam no escuro: encontraram-se, entrelaaram-se.
Barbosa puxou Lenita para si, quis beij-la na boca, no teve nimo, beijou-a ainda na 
testa.
Lenita abandonava-se, entregava-se, molemente, sem resistncia.
No corredor tudo eram trevas: Barbosa no via a chama negra da volpia que 
torvelinhava nos olhos da moa; no lhe via a palidez das faces, o rubor dos lbios, a arfarem 
tmidos, mendigando beijos; no lhe via o quebramento langue de pescoo.
A resoluo tomada fraqueou, cedeu: sentiu-se Barbosa sem coragem, sem desejos, sem 
virilidade mesmo. Batia-lhe o corao a estos desordenados, como o de um seminarista que pela 
vez primeira se acha a ss com uma mulher da vida.
De repente, afastou Lenita de si com gesto brusco, fugiu desatinado.
Ouviu-se um soluo triste, dorido, que vinha das trevas do corredor.
A ceia dessa noite correu cheia de constrangimento: nem Barbosa olhava para Lenita, 
nem Lenita para Barbosa. Comiam, ou antes, fingiam comer em silncio.
- Esta menina precisa de tomar remdios, disse o coronel, reparando no abatimento, no 
apetite quase nulo de Lenita. Depois da tal histria da cobra deixou de ser o que era. Se tivesse 
usado da vegetalina, o caso seria outro.
Veio o ch: quando acabaram de tom-lo, Barbosa levantou-se, deu boa-noite ao pai, 
despediu-se de Lenita em voz sumida, soturna, cerimonitica; chamou-lhe minha senhora.
Recolheu-se.
Lenita ainda conversou por algum tempo com o coronel. Seguia, fingia seguir bem o 
assunto, fazendo observaes, multiplicando perguntas, afetando muito interesse. De repente 
deixava escapar uma exclamao forte, descabida, deslocada, que nada tinha com o que estava 
tratando. Caa em si! procurava homologar o que dissera, atrapalhava-se, confundia-se. Dava 
estremees sbitos, como quem recebe inesperadamente uma alfinetada. Corava, empalidecia, 
tinha na voz um timbre esquisisto.
- Menina, sabe voc de uma coisa, disse o coronel, v se acomodar: voc no est boa. Se 
eu no tivesse visto que voc quase nada comeu, diria que a ceia lhe tinha feito mal. Ande, v se 
deitar, procure dormir.
Lenita obtemperou sem replicar.
Foi para o seu quarto.
Um banho momo, em que se demorou, no serviu para acalmar-lhe os nervos, muito pelo
contrrio. Arrepiava-se ao perpassar da esponja, ao sentir as suas prprias mos; a gua tpida 
irritava-a como se fosse um contato humano estranho.
Saiu, enxugou-se em uma toalha felpuda, grande, vestiu uma camisa branca de cambraia 
finssima, deitou-se por sobre as cobertas, de costas, bem estendida, com as mos entranadas 
por baixo da cabea, com uma perna por cima da outra.
A cambraia mole, semitransparente, desenhava-lhe as formas esculturais do busto, do 
ventre, das coxas, e toda essa alvura de pele e de tela sobressaa, realada pelo vermelho-escuro 
do damasco da colcha. O tempo passava. 
Do quarto de Lenita ouvia-se bater compassado, lento, o pndulo do velho relgio francs 
da ante-sala.
Deu dez horas, deu onze, deu meia-noite. Cada pancada do badalo na campainha soava 
muito distinta, muito, vibrante.
Lenita mudava de posio, revolvia-se na cama, no dormia no podia adormecer.
Uma obsesso mordente subia-lhe da periferia do corpo, comprimia-lhe o corao, 
atordoava-lhe o crebro.
Sentia picadas na pele, tinha calafrios, zuniam-lhe os ouvidos.
Sugando-lhe as feridas feitas pelos aguilhes da cobra, Barbosa retirara um veneno, mas 
deixara outro. Lenita nunca mais cessara de sentir a suco morna, demorada, forte, dos lbios de 
Barbosa em torno s picadas, no peito do p. A sensao estranha, deliciosa, incompatvel que 
produzira essa suco perdurava, vivia; mais ainda, multiplicava-se, alastrava. Era um 
formigamento circular que lhe trepava pelas pemas, que lhe afagava o ventre, que lhe titilava os 
seios, que lhe comichava os lbios.
E ela queria Barbosa, desejava Barbosa, gania por Barbosa.
Esperar at amanhecer: uma! duas! trs! quatro! cinco! seis horas! Ouvir o tic-tac do 
relgio, lento, medido, regular, igual, metlico; montono, impiedoso; ouvi-lo sessenta vezes por 
minuto, trs mil e seiscentas vezes por hora, vinte e uma mil e seiscentas vezes nas seis horas 
que faltavam para amanhecer? Impossvel!
Ergueu-se e, descala, em camisa, inconsciente, louca, abriu a porta, atravessou a sala, 
abriu a outra porta, saiu na ante-sala, enfiou pelo corredor, parou junto  porta do quarto de 
Barbosa, a escutar. 
E nada ouvia.
Dentro, fora, dominava um silncio profundo, quebrado apenas pelas pulsaes violentas 
do seu prprio corao.
Encostou o ouvido  fechadura, nada.
O seu ombro fez uma ligeira presso sobre a folha da porta, e esta cedeu, entreabriu-se, 
chiando ligeiramente.
Uma lufada de ar quente, saturada de aroma de charuto havano, veio afagar-lhe o rosto, 
os seios, o busto quase desnudo no decote grande da camisa.
Lenita perdeu completamente a cabea, entrou: em bicos de ps, sem fazer rumor, 
escorregando, deslizando, como um fantasma, abeirou-se da cama de Barbosa.
Curvou-se, apoiou a mo no respaldo da cabeceira, aproximou a sua cabea do peito do 
homem adormecido, escutou-lhe a respirao igual, hauriu-lhe o cheiro msculo do corpo, 
sentiu-lhe a tepidez da pele.
Quedou-se por muito tempo nesse ambiente entorpecedor. De sbito o brao com que se
encostava falseou; ela caiu pesadamente sobre o leito.
Barbosa deu um estremeo, acordou sobressaltado, sentou-se, estendeu as mos, 
encontrou-a, asiu-a, perguntou assustado:
- Quem ? Quem ?
A ctis morna, cetinosa da moa, macieza da cambraia que a envolvia em parte, o 
perfume de penu d'Espagne que de seu corpo exalava, no lhe permitiam dvidas; mas ele 
recusava a evidncia dos sentidos, no podia crer. Achava absurda, monstruosa, impossvel a 
presena de Lenita em seu quarto, quela hora, naquela quase nudez.
E, contudo, era real, ali estava: ele sentia-lhe a carne quente, dura, palpava-lhe a pele 
hspida pelo desejo, escutava-lhe o estuar do sangue, e o pulsar do corao.
Um tropel de idias desordenadas agitou-se-lhe, confundis-se-lhe no crebro excitado; o 
raciocnio ausentou-se, venceu o desejo, triunfou a sugesto da carne.
Sentou-se rpido  beira da cama sem largar a moa, puxou-a para si, cingiu-a ao peito, 
segurou-lhe a cabea com a mo esquerda, e, nervoso, brutal, colocou-lhe a boca na boca, 
achatou os seus bigodes speros de encontro aos lbios macios dela, bebeu-lhe a respirao. 
Lenita tomou-se de um sentimento inexplicvel de terror, quis fugir, fez um esforo violento 
para desenlaar-se, para soltar-se.
Era o medo do macho, esse terrvel medo fisiolgico que, nos prdromos do primeiro 
coito, assalta a toda mulher, a toda fmea.
Baldado intento!
Retinham-na os braos robustos de Barbosa: em suas faces, em seus olhos, em sua nuca 
os beijos dele multiplicavam-se: esses beijos ardentes, faminto queimavam-lhe a epiderme, 
punham-lhe lava candente no sangue, flagelavam-lhe os nervos, torturava-lhe a carne.
Cada vez mais fora de si, mais atrevido, ele desceu  garganta, chegou aos seios tmidos, 
duros, arfantes. Osculou-os, beijou-os, a princpio respeitoso, amedrontado, como quem comete 
um sacrilgio; depois insolente, lascivo, bestial como um stiro. Crescendo em exaltao, 
chupou-os, mordiscou-lhes os bicos arreitados.
- Deixe-me ! Deixe-me ! Assim no quero ! implorava, resistia Lenita, com voz 
quebrada, ofegante, esforando-se por escapar, e presa, todavia, de uma necessidade invencvel 
de se dar, de se abandonar.
De repente fraquejaram-lhe as pemas, os braos descaram-lhe ao longo do corpo, a 
cabea pendeu-lhe, e ela deixou de resistir, entregou-se frouxa, mole, passiva. Barbosa ergueu-a 
nos braos possantes, p-la na cama, deitou junto dela, apertou-a, cobriu-lhe os seios macios 
com o peito vasto, colou-lhe os lbios nos lbios.
Ela deixava-o fazer, inconsciente, quase em delquio, mal respondendo aos beijos 
frementes que a devoravam.
E corria o tempo.
Barbosa no podia prestar f ao que se estava dando.
Descrente de mulheres, divorciado da sua, gasto, misantropo, ele abandonara o mundo, 
retirara-se seus livros, com seus instrumentos cientficos, para um recanto selvagem, para uma 
fazenda do serto. Abandonara a sociedade, mudara de hbitos, s conservara, como relquias do 
passado, o asseio, o culto do corpo, o apuro despretensioso do vestir. Levava a vida a estudar, a 
meditar; ia chegando ao quietismo,  paz de esprito de que fala Plauto, e que s se encontra no 
convvio sincero, sempre o mesmo, dos livros, no convvio dos ausentes e dos mortos. E eis que 
a fatalidade das coisas lhe atira no meio do caminho uma mulher virgem, moa, bela, inteligente,
ilustrada, nobre, rica. E essa mulher apaixona-se por ele, fora-o tambm a am-la, cativa-o, 
aniquila-o. Faz mais : contra a expectativa, tomando realidade o improvvel, o absurdo, vem ao 
seu quarto, interrompe-lhe o sono, entrega-se-lhe... Ele a tem entre os seus braos, lnguida, 
mole, roda de desejos; aperta-a, beija-a...
E... nada mais pode fazer!
No que o detenham preconceitos, receio de conseqncias, no tem preconceitos, j no
receia conseqncias. O que o detm  um esgotamento nervoso de momento, uma 
impossibilidade fsica inesperada.
Debalde procura na concentrao da vontade o tom da fibra nervosa, o robustecimento do 
organismo...
Sente o ridculo da posio, desespera, tem as mos frias, banha-se em suor, chega a 
chorar. Afastou-se de Lenita, dementado, louco, escalavrando o peito com as unhas.
- No posso! No posso! exclamou, ululou desatinado.
Deu-se uma inverso de papis: em vista dessa frieza sbita, desse esmorecimento de 
carcias, cuja causa no podia compreender, nem sequer suspeitar; no furor do erotismo que a 
desnaturava, que a convertia em bacante impudica, em fmea corrida, Lenita agarrou-se a 
Barbosa, cingiu-o, enlaou-o com os braos, com as pemas, como um polvo que aferra a preia; 
com a boca aberta, arquejante, mida, procurou-lhe a boca; refinada instintivamente em 
sensualidade, mordeu-lhe os lbios, beijou-lhe a superfcie polida dos dentes, sugou-lhe a 
lngua...
E o prazer que ela sentia revelava-o na respirao aodada; no hlito curto, quente; era 
um prazer intenso, frentico, mas... sempre incompleto, falho.
Barbosa arquejante tinha mpetos de levantar-se, de tomar uma pistola, de arrebentar o 
crnio.
Pouco a pouco operou-se uma reao.
Sentiu Barbosa que menos agitado lhe circulava o sangue, que um calor doce se lhe 
expandia pelos membros, que o desejo fsico se despertava, dominante, imperativo.
Recobrou-se de vez da passageira fraqueza, achou-se forte, potente, varo.
Com o mpeto irresistvel do macho em cio, mais ainda, do homem que se quer desforrar 
de uma debilidade humilhosa, retomou o papel de atacante, estreitou a moa nos braos, afundou 
a cabea na onda sedosa e perfumada de seus cabelos que se tinham soltado...
- Lenita!
- Barbosa!
E um beijo vitorioso recalcou para a garganta o grito dorido da virgem que deixara de o 
ser...
Depois foi um tempestuar infrene, temulento, de carcias ferozes, em que os corpos se 
conchegavam, se fundiam, se unificavam; em que a carne entrava pela carne; em que frmito 
respondia a frmito, beijo a beijo, dentada a dentada.
Desse marulhar orgnico escapavam-se pequenos gritos sufocados, ganidos de gozo, por 
entre os estos curtos das respiraes cansadas, ofegantes.
Depois um longo suspiro seguido de um longo silncio.
Depois a renovao, a recrudescncia da luta, ardente, fogosa, bestial, insacivel.
Pela frincha da janela esboou-se um rastilho de luz tnue.
Era o dia que vinha chegando.
- Deixe-me ! Deixe-me, Barbosa!  preciso ir, est amanhecendo, est clareando.
- No, no ! Ainda no ! Aquilo no  o dia,  o luar.
- Vou ! Deixe-me, deixe-me.
E, fazendo um esforo violento, Lenita escapou-se do leito e dos braos de Barbosa.
No desvo da porta entreaberta enquadrou-se, por um momento, a sua sombra indecisa. 
Desapareceu.
Barbosa ergueu-se, vestiu-se rapidamente, saiu, fechou a porta, tirou, guardou no bolso a 
chave.
Lenita do seu quarto ouviu-lhe, contou-lhe as passadas que ressoavam fortes.
A moa estava com febre; tinha a cabea em fogo; sentia-se zonza, atordoada; via a todo 
momento discos luminosos, com um ncleo que se alargava, cambiando de cores, passando do 
verde-escuro ao vermelho-cobre; ardia-lhe a garganta, a boca estava peganhenta. No quarto 
deserto de Barbosa o rastilho de luz, coado pela frincha da janela, ia bater sobre a cama 
desarranjada: na alvura dos lenis amarrotados punham notas muito vivas algumas manchas de 
sangue frescas, midas, rubras.

Captulo 15
Que lindo est o dia, exclamou o coronel, chegando  porta que dizia para o terreiro. - 
Um tempo firme, sim senhor! Jacinto!
- Sinh ! acudiu um preto velho.
- Para onde foi a gente hoje?
- Foi a cortar arroz, sim, sinh.
- Onde est Manduca?
- Sinh moo mandou ensilhar o rozilho, e foi para a banda da vila, sim sinh.
O coronel respirou  larga o ar fresco, puro, da manh resplendente. Dormira toda a noite, 
no tivera dores, estava bem disposto. Queria expandir-se, queria conversar.
- Logo hoje que estou sequioso por uma prosa  que me foge o Manduca,  que se deixa 
ficar na cama a Lenita! Forte coisa ! Vou fazer uma extravagncia, vou dar uma volta pelo 
cafezal.
E mandou arrear uma gua velha, muito mansa, andadeira, uma rede, dizia ele. Saiu, foi 
visitar o cafezal, coisa que fazia raramente, uma ou outra vez por ano.
Quando voltou era quase meio-dia. Perguntou por Barbosa, no tinha vindo; por Lenita, 
ainda estava deitada. Veio com fome. Mandou pr a mesa; enquanto esperava foi ao quarto de 
Lenita, bateu  porta.
- Que  isto? perguntou. Temos macacoa?
- Macacoa, no; sono, respondeu a moa.
- Ainda estava dormindo?
- Acordei com o seu batido.
- Olhe, levante-se, venha-me fazer companhia. O Manduca no sei para onde foi. Eu 
ainda no almocei, e no quero almoar sozinho.
- J vou.
- Pois fico esperando; venha logo, que estou com o estmago a dar horas.
A cabo de meia hora Lenita apareceu. Estava plida, macilenta: tinha as plpebras 
vermelhas, os olhos batidos, grandes olheiras. Veio embrulhada em uma pelia.
De quando em quando estremecia com um calafrio. Sentou-se  mesa meio de lado, 
alquebrada, lnguida.
-Melhor cara traga o dia de amanh! Gritou o coronel ao v-la. Parece e passou a noite no 
cemitrio. Que  que teve?
- Uma ligeira indisposio.
- Hum! J eu estava vendo isso mesmo ontem  noite. Ai moas, moas ! Isso enquanto 
no casam... Que h de querer um mingauzinho de car?
- No, obrigada.
- Olhe estas ervas...
- Obrigada.
- Um pedao de fiambre?
- Fiambre... quero, mas pouco, sim?
O coronel serviu-lhe uma naca larga, rsea, marmoreada de veios de gordura branca.
Lenita polvilhou-a de sal modo, comeu com apetite.
- Est gostando de salgados, hein? Eu quando digo... Mais uma naquinha, sim?
Lenita aceitou, mandou buscar ginger-ale, bebeu um copo cheio.
Conversou com o coronel por cerca de duas horas.
Ao cair da tarde sentiu-se fraca, tomada de invencvel soneira.
Recolheu-se, dormiu. Levantou-se ao escurecer. Quando ia saindo do quarto, deu com 
Barbosa que, de p junto de um consolo, fingia examinar uma estatueta.
- Boa tarde, Lenita, disse ele com voz trmula, tmido, desapontado.
A moa no respondeu: com um arranco nervoso tomou-lhe a cabea entre as mos, 
curvou-a, beijou-a sofregamente, esquisitamente, no alto, afundando, sumindo o rosto nos 
cabelos curtos, levemente crespos.
	- Lenita, segredou em voz sumida, tnue como sopro,  perigoso, podem v-la, encontr-
la. Eu virei  melhor.
- Aqui dorme a rapariga.
- Fcil  afast-la sob qualquer pretexto. Deixe as portas cerradas.
Foram para a sala de jantar.
O coronel j tinha feito acender o lampio; estava de p, junto  mesa, lendo a 
correspondncia que minutos antes tinha chegado da vila.
- Olhe, Lenita, disse, a esto os seus jornais, e tambm uma carta. Leia, leia logo a carta; 
 coisa que lhe interessa.
- Sim! Como sabe?
- A letra do sobrescrito  mesma desta que eu recebi. Leia.
- Que ser? interrogou-se a moa, rasgando o envoltrio com gesto fatigado, aborrida. 
Desdobrou a folha de papel, leu sem manifestar sentimento algum, com absoluta indiferena. 
Depois passou-a aberta ao coronel.
-Ora! Exclamou, arrastando a voz, com fastio.
- Ento? Perguntou o coronel.
- Leia, est a.
- Pois no  do Dr. Mendes Maia?
- .
- E que lhe diz voc?
- Eu digo... digo... no  digo coisa nenhuma.
- J se deixa ver que quer cala ...
- Nem sempre consente. O Dr. Mendes Maia perdeu o seu tempo, a sua retrica, o seu 
papel, a sua tinta e o seu selo. Eu no me caso com ele.
-  um pedido de casamento? perguntou Barbosa, ansiado.
- Em forma.
- E quem  esse Dr. Mendes Maia?
- Esse Dr. Mendes Maia  um bacharel em direito, nortista; fez seu quatrinio, e est na 
corte,  espera de um juizado de direito aqui na provncia.
- E donde o conhece D. Lenita?
- De Campinas. Estivemos juntos em um baile, no Club Semanal, h de haver trs anos. 
Danou comigo, fez-me a corte por duas horas, e agora pede-me em casamento.
- Meu pai tambm o conhece?
- Conheo: ele andou viajando por estas bandas com um primo que queria comprar stio 
de caf. Veio-me recomendado de So Paulo, e at pousou aqui, uma noite.
- Que espcie de homem ?
- E um bacharel em direito como a maioria dos bacharis em direito. Parece-me boa 
pessoa. Homem, sou franco, para mim tem um defeito capital,  nortista. No mais, no h que 
dizer. Lenita, que hei de eu responder ao homem?
- Boa pergunta! Responda que eu no me quero casar que agradeo muito a honra da 
proposta, e coisas e tal, uma tbua corts.
- No valer a pena pensar um pouco antes de decidir a coisa assim de talho, sem 
remdio? 
- No h que pensar, no quero.
- Olhe que o rapaz, segundo me diz o meu velho amigo Cruz Chaves, nesta outra carta 
que recebi, tem todos os requisitos para um bom corte de noivo:  inteligente, honesto, 
morigerado, trabalhador, econmico, bom catlico, e muitas coisas mais. Fez o seu quatrinio 
como promotor e juiz municipal, est  espera de um juizado de direito, como voc mesmo disse, 
e h de obt-lo, porque d-se com o Cotegipe e  muito protegido pelo Mac Dowel. E tem seus 
cobres.
- O partido tenta, tenta, mas eu  que me no deixo prender.
- Olhe que isto no vai a matar, no  sangria desatada, pense primeiro, responda depois.
- No h que pensar.
- Esta mocidade! Para que tomar decises de afogadilho, quando h tempo para refletir, 
para pesar todos os prs e iodos os contras?
- A resposta agora, ou daqui a um ano h de ser a mesma: no quero.
- Menina, ningum deve dizer "deste po no comerei".
- E nem to pouco "desta gua no beberei". Sabido, mas eu no quero mesmo.
- Bom, bom; no quer, no quer! Amanh l segue a recusa: que se agente o Dr. Mendes 
Maia.

Captulo 16
Lenita despedira a mucama, e ficara a dormir s no seu quarto. O coronel estranhou, no 
levou a bem tal resoluo. Que era perigoso, que podia ficar doente, ter um ataque alta noite, sem 
que ningum lhe acudisse.
Que no, respondeu Lenita, que estava perfeitamente boa, que no havia ataque a recear; 
e mais, que a rapariga ressonava forte, e que isso a impedia de dormir.
Por volta das onze horas vinha Barbosa, mansamente, p ante p, entrava na sala, fechava 
a porta por dentro, a chave.
As ferragens cuidadosamente azeitadas funcionavam veleiras, em atritos macios, suaves, 
sem o mnimo rangido.
A fechadura era das portuguesas antigas, de chapas furadas coincidentemente: para evitar 
que algum pudesse espiar pelo buraco o que se passava na sala, espionagem alis improvvel, 
Barbosa pendurava na chave o seu chapu. 
Em liberdade absoluta, perfeita, no se contentava com o prazer material de possuir 
Lenita. Queria o pecado mental inteligente, os mala mentis guadia de que fala Virglio; queria 
contemplar, comer com os olhos a plstica soberba do corpo da moa, ora em todo o esplendor 
da incandescente nudez, ora realado pelos atavios, pelas extravagncias da moda.
Despia-a, punha-a na posio de Vnus de Milo, arranjava-lhe os braos, como 
conjecturam os sbios terem estado os da esttua; enrolava-lhe um lenol de volta aos quadris, 
arrufava-lho, em pregas suaves, em panejamentos artsticos.
Depois arrancava-lhe esse ltimo vesturio, mudava-lhe a atitude: erguia-lhe o busto, 
avanava-lhe a arca do peito, fazia sobressair o relevo insolente dos seios erguidos e duros.
Por meio de um refletor poderoso focava, dirigia a luz branca de uma lmpada belga, 
fazia cair sobre a moa uma toalha de reflexos suaves e vivos, cientificamente combinados.
Afastava-se, aproximava-se, tomava a afastar; mirava, estudava, gozava  Lenita, como 
Pigmalio  Galatia, como Michelngelo ao Moiss.
Chegava um momento em que se no podia conter: com um grito rouco, spero, 
sufocado, de bode em cio, atirava-se, ela atirava-se tambm, e ambos caam sobre um sof, sobre 
o assoalho, estreitando-se, mordendo-se, devorando-se.
Por vezes fazia com que Lenita se frisasse, se espartilhasse, se enflorasse, se enluvasse, 
com todo o capricho, com toda impertinncia de uma leoa da moda, que se prepara para um baile 
do high-life, para um sarau diplomtico.
Ele ajudava-a, servia-lhe de camareiro, orgulhoso, radiante.
Todo aquele aparato do mundus mulieris, toda aquela expanso de garridice era para ele, 
para ele s, para mais ningum.
E sentia o que quer que era do prazer exclusivista, egostico, do rei Lus da Baviera, a 
assistir em um teatro vazio, como espectador solitrio, nico, a uma pera de Wagner, 
majestosamente posta em cena, divinamente cantada por artistas de primor.
Adorava a macieza tpida, perfumosa, da pele nua de Lenita; mas, refinado em 
lubricidade, gostava de lhe premer as mos quando caladas de luvas de pelica ou de peau de 
Suede; gostava do contato quente dessas mos, atravs das malhas das mitaines de retrs, 
gostava de lhe sentir a viveza do corpo por entre as asperidades brandas das rendas , por entre as 
flores relevadas do tule. 
Em breve no lhe bastaram mais esses desbragamentos noturnos, de paredes a dentro, 
clandestinos: quis moldura mais larga para os seus quadros vivos, quis palco mais espaoso para 
suas encenaes carnais, quis o amor ao ar livre,  luz do dia, em liberdade plena. A pretexto de 
caar, ia com Lenita todos os dias, afundava-se na mata.
Enquanto na estrada, deixava-a seguir, ficava alguns passos atrs, para ver-lhe o 
remoinho agitado dos calcanhares na fmbria roagante do vestido de fazenda mole.
Esse movimento de saias estuoso, contnuo, que ia em ondulaes confundir-se com o 
bamboar das cadeiras, causava-lhe uma excitao estranha, particularssima.
Quando na mata se lhe deparava uma grota profunda, uma barroca sombria, uma clareira 
afestoada de crecimas, de taquaras, parava.
Junto de um velho tronco, ao p do leque esmeraldino e ainda baixo de uma palmeira 
nascente, bem sob a ao de um feixe de raios solares, colocava a moa despida, fazendo com 
gosto de artista, com percia de devasso prtico, que lhe destacasse a alvura da pele banhada de 
luz, no fundo verde da mata afogado na sombra. Lenita prestava-se a tudo com docilidade de 
rainha complacente, de deusa satisfeita; deixava-se adorar, recebia contente o culto de latria 
dirigido a sua carne.
Barbosa mirava-a, remirava-a, voltando-lhe em torno; os crculos concntricos que 
descrevia iam-se estreitando como os de um aor em volta da preia: chegava-se, ajoelhava-se; e, 
trmulo, com a respirao aodada, beijava-lhe as unhas rseas e a pele branca dos ps, erguia o 
busto, alteava-se ousado, osculava-lhe as coxas rolias, pousava a cabea de encontro ao ventre 
liso, aspirando, sorvendo, de olhos semicerrados, as emanaes ss, provocantes, da carne 
feminina irritada.
Uma vez no corao da mata acudiu-lhe  lembrana a Aurora de Michelngelo, que vira 
no tmulo dos Mdicis. Uma anfractuosidade de terreno fora a idia acidentalmente associada, 
que lhe avivara a memria.
Perto estava uma rvore velha coberta de musgo: colheu-o s braadas, fez um monto, 
alcatifou, alfombrou com ele a acidentao do terreno que lhe recordara o mrmore florentino.
Nervosamente, brutalmente, foi despindo a Lenita: no desabotoava, no desacolchetava; 
arrancava botes, arrebentava colchetes. Quando a viu nua, f-la reclinar-se sobre o musgo, 
dobrou-lhe a perna esquerda, apoiou-lhe o p em uma salincia de pedra, dobrou-lhe tambm o 
brao esquerdo, cuja mo, em abandono, foi tocar o ombro de leve, com as pontas dos dedos; 
estendeu-lhe o brao e a perna direita em linha suave e  frouxa, a contrastar com a linha forte, 
angulosa, movimentada, do lado oposto.
Desceu um pouco, deitou-se de bruos e, arrastando-se como um estlio...
Lenita desmaiou em um espasmo de gozo... 
Uma noite Barbosa no foi ao quarto de Lenita.
A moa passou em claro, ralada de cuidados. Pela madrugada ergueu-se e, sem se 
importar com a possibilidade de que algum a visse, de que algum a encontrasse, sem tomar 
precaues, foi ao quarto de Barbosa, empurrou a porta, entrou. 
O pavio da vela, quase inteiramente gasta, afogava-se em um lago de estearina derretida, 
que se acumulara na aucena do castial: a chama vasquejava, bruxuleava, ora iluminando 
vivamente o quarto, ora desaparecendo, quase submergindo tudo em trevas.
Barbosa estirado de costas, na cama, com as mos a comprimir as tmporas, gemia. 
Lenita debruou-se.
- Que tem? Que  isto? Perguntou-lhe.
- No   nada,  a minha enxaqueca. Mas retire-se, olhe que a vem, vai amanhecer.
- Retirar-me, eu? Deix-lo assim sofrendo, s? No me conhece.
- Conheo, conheo muito bem. Eu no a repeliria, se me fosse precisa, se me fosse 
mesmo til a sua presena. Mas nada me pode fazer. Isto no  molstia,  incmodo; eu no 
estou enfermo, tenho dores.
- Quero ficar, eu no posso v-lo padecer sem ao menos procurar alivi-lo.
- Nada conseguiria seno me afligir e me agravar o sofrimento. Isto passa com o tempo, 
s com o tempo. V, peo-lhe, v.
Lenita foi, muito contrariada.
Eram horrveis as enxaquecas de Barbosa.
Comeavam por uma dor surda de cabea. Pouco a pouco acentuava-se urna displicncia 
inexplicvel em tudo e para tudo; as foras abatiam-se, prostravam-se; o rosto ficava plido, 
dilatava-se a pupila do olho direito.
Penoso qualquer movimento, impossvel qualquer esforo: Barbosa tinha de procurar o 
leito forosamente, fatalmente. Um suor glido umedecia-lhe, banhava-lhe a fronte. Do lado 
direito a artria temporal saltava tumefata, engurgitada: o globo do olho contraa-se, minguava e, 
como se estivesse contundido, pisado, era sensvel  mnima presso. No alto da cabea havia 
um ponto doloso, a sensao como de um prego que a estivesse fincado. Cada pulsao, cada 
jato de sangue nas artrias era uma manelada que parecia fazer estalar o crnio e afundar mais o 
prego. O estmago enchia-se de bile. Uma fraqueza extrema, uma necessidade imperiosa de 
alimentos se fazia sentir; mas  simples idia da ingesto de qualquer coisa, exacerbavam-se os 
sofrimentos todos. Na retina havia cintilaes, moscas luminosas, subjetivas; o menor rudo, 
como avolumado por um microfone infernal, tomava-se em fracasso, em cataclismo de estrondo 
e dores no ouvido hiperestesiado. No havia concentrar a ateno, pensar. Se nesses momentos 
viessem dizer a Barbosa que um incndio devorava os seus livros preciosos, que seu pai e sua 
me pereciam nas chamas, ele nada poderia fazer, nem sequer tentar um esforo: a vontade 
estava abolida.
E durava, ia sempre at  noite esse sofrer inenarrvel, essa tortura de rprobo.
Amanheceu.	
Logo que se abriam as portas, que comeou a vida da fazenda, voltou Lenita para o 
quarto de Barbosa, sentou-se-he  cabeceira, inquirindo solcita do que havia a fazer, do que era 
possvel aproveitar em casos tais.
Que nada, que nada mesmo havia de tentar, repetiu Barbosa impaciente; que aquilo era 
um estado nervoso especial, hiperesttico, s passava com o tempo, que  noite havia de estar 
bom.
Lenita com o tato indizvel, com o jeito especialssimo que tm as mulheres para 
enfermeiras, arranjou-lhe as almofadas e a travesseirinha em uma posio que lhe deu alvio; foi 
ao armrio, procurou entre mil frascos, achou um quase cheio de xarope de cloral, trouxe, fez-lhe 
tomar quase  fora duas colheres de sopa, grandes, a transbordar.
Depois apalpou-lhe os ps, sentiu-os frios, mandou vir uma botija com gua quente, 
envolveu-a em uma toalha, ps-lha sob eles, enrolou tudo em um cobertor, habilmente, quase 
sem incomod-lo, como se no fizesse movimentos.
Os gemidos de Barbosa foram esmorecendo em um como queixume flbil, indistinto; 
cessaram, ele adormeceu.
Foi um sono longo, de duas horas pelo menos.
A moa no arredou p um minuto: sentada  cabeceira, imvel; em silncio 
contemplava-o a dormir.
De repente ele acordou, sentou-se rpido, fez sinal, ordenou-lhe com gesto impaciente, 
irritado que se retirasse.
Lenita no obedeceu.
Barbosa, plido, com as feies desfeitas, curvou-se, abriu desordenadamente, 
atabalhoadamente o criado-mudo, tirou o vaso, colocou-o junto de si sobre a cama. Ajoelhou-se.
Abdome, estmago, diafragma, esfago, contraram-se em uma nusea violenta: os 
zigomticos distenderam-lhe a pele descorada e macilenta do rosto, e um jato de bile amarela e 
espumosa golfou no fundo do vaso, tingindo-lhe as paredes com os salpicos peganhentos.
Seguiu-se outro jato, e outro, e outro, vinha a bile, sem esforo no mais amarela, no 
mais espumosa, porm verde, lquida, linda at em sua pureza transparente.
Lenita, com d profundo debuxado nas feies, sustentava-lhe a testa mdida.
Extenuado, Barbosa deixou-se cair pesadamente nos travesseiros, gemeu por um pouco, 
tornou a adormecer.
Lenita mandou retirar, lavar, trazer o vaso: depois retomou o seu posto junto do enfermo, 
velando-lhe com amor o sono sossegado.
Quando a chamaram para almoar, foi em bicos de ps, sem fazer o mnimo rumor.
 narrao circunstanciada do incmodo do filho, fez observar o coronel que lhe no 
dava aquilo cuidado, que o rapaz era atreito a enxaquecas desde a meninice, que at tinha 
melhorado com a idade, que os acessos iam ficando mais quarteados.
Lenita voltou para o quarto.
Ao virar do meio-dia, Barbosa acordou. Estava bom, completamente restabelecido, sentia 
fome, mando vir comida.

Captulo 17
havia muito que tinha comeado a nova moagem: ia ela j quase em meio, quando se deu
um desastre. Um crioulinho deixou-se prender nos cilindros do engenho e teve um brao 
esmagado.
Ao ver a msera criana segura, atrada pelo revolver lento, implacvel, do mecanismo 
bruto, o pai dela, o negro moedor, tomou uma alavanca de ao que achou  mo, entalou entre os 
dentes dos rodetes.
Ouviu-se um grande estalo metlico, um tinir sonoro de ferros partidos, o engenho parou.
Salvou-se a vida do negrinho, mas as moendas inutilizaram-se; rodetes, pescoos, 
mancais, tudo ficou arrebentado.
Que fora uma caipora, que fora o diabo aquele desastre em meio da moagem, disse o 
coronel arreliado. L pelo crioulinho, no: era ingnuo, era 28 de setembro, ficasse aleijado, 
pouco prejuzo havia. Que o azar era a interrupo da moagem, quando ia tudo correndo to 
bem, em um tempo como se no havia de ter outro. Que remendos no engenho no queria, que 
de longa data andava. com idias de reformar tudo aquilo, e que ia reformar, embora levasse a 
casqueira a safra.
E ficou assentado que, no outro dia, Barbosa havia de seguir para o Ipanema, a entender-
se com o Dr. Mursa, sobre planos e dimenses para a nova mquina que urgia ficasse pronta 
dentro de poucos dias.
Lenita, ao saber da viagem, teve um sobressalto, ficou plida, quase desmaiou: lembrava-
lhe o muito que sofrera com a ida de Barbosa a Santos, quando ele no era ainda seu amante, 
quando ela nem sabia sequer ao certo que o amava.
Como havia de ser ento, que as coisas se achavam em p diversssimo? Uma tortura 
inenarrvel, impossvel, o inferno.
E no foi.
Lenita ajudou a Barbosa nos seus aspectos de viagem, sem sentir por forma alguma o que 
sentira da vez passada. As expanses lbricas, desenfreadas, a que ele se entregou na despedida 
noturna, contrariaram-na, mortificaram-na, mesmo.
Admirava-se da transio brusca, repentina que se lhe operara no esprito: sentia-se fria, 
indiferente, aborrecida quase; achava-o a ele grosseiro, vulgar, impertinente, ridculo, chato.
Na hora da partida apertou-lhe a mo; viu-o montar a cavalo, dar de rdeas, seguir 
vagaroso em uma nuvem de p que se levantava da estrada; distinguiu-lhe o gesto de adeus que 
lhe fez ele ao transpor o viso da colina, ao sumir-se-lhe da vista.
E no se entristeceu ; em torno de si no sentiu vcuo algum: achou-se at mais  vontade 
por ficar s, em companhia de si prpria, senhora de pensar, de agir em liberdade, sem sugesto.
Todavia era-lhe grata  vaidade a idia de que Barbosa ia cogitar ininterrompidamente 
nela, s nela; de que levava a sua imagem estereotipada, viva, na memria; de que todo o 
pensamento, todo o ato dele a ela se reportava, tinha-a por objetivo.
E, analista sutil, no se enganava sobre os seus prprios sentimentos: no prazer que tinha 
com a sujeio de Barbosa, descobria mais a satisfao do orgulho lisonjeado do que o 
contentamento do amor correspondido.
Foi ao quarto de Barbosa, comeou a pr em ordem as coisas dispersas, os livros e 
jornais que atravancavam a mesa, o mrmore do criado, as cadeiras.
Ningum em casa, nem mesmo o coronel, estranhava mais esses cuidados: a amizade 
estreita a intimidade que reinava entre ela e Barbosa justificavam-na; todos achavam muito 
natural o papel de ecnoma que ela a si chamara.
Nas senzalas, porm, o viver excntrico e liberdoso que ela levava com Barbosa j 
comeava a servir de pbulo  maledicncia caracterstica da raa negra: os pretos e 
principalmente as pretas murmuravam, comentavam as caadas improdutivas, sublinhavam 
ditos, aventavam torpitudes. 
Ao puxar uma gaveta da mesa de Barbosa, para recolher as miudezas que achara 
dispersas, Lenita deu com uma caixinha oblonga de tartaruga, incrustada de metal  e 
madreprola.
Abriu-se por abrir, sem curiosidade. Encontrou dentro quatro papis dobrados, uma 
medalha muito oxidada de Nossa Senhora da Aparecida, flores secas e vrias bolinhas de l 
branca, desfiada.
Fez-lhe espcie aquilo: que diabo poderia ser? Barbosa no era religioso, a medalha no 
tinha explicao como coisa dele. E as bolinhas de l? Com certeza tinham cado de uma manta 
de malha, de uma sada de baile, em que se envolvera, em que se agasalhara uma mulher, para 
procur-lo a ele na sua casa, no seu quarto, no seu leito. E as flores secas? E os papis? Ah! os 
papis... Os papis continham de certo a chave do enigma davam a soluo de tudo aquilo.
Desdobrou o primeiro, encontrou um anel de cabelos castanhos, quase pretos, cetinosos, 
muito finos.
Desdobrou o segundo, era um bilhetinho em poucas linhas: a letra bonita, fina, redonda, 
de mulher. Dizia: 
Espero-o sbado sem falta; se no vier zango-me. No o esqueo um s momento. Adeus.
Lenita empalideceu, mordeu os beios e, trmula, com os olhos a despedir chispas, abriu 
o terceiro papel, uma folha grande, larga, de almao Fiume. Estava escrita pela letra de Barbosa, 
um
cursivo feio, muito legvel. Era evidentemente uma srie de impresses lanadas no papel sur 
place, no momento mesmo em que se tinham produzido, inconexas, cortadas de reticncias.
Lenita leu:
O trem ia partir.
Ela estava na plataforma da Estao da Luz, com o marido, em bota-fora de no sei 
quem.
Olhou-me, eu a olhei; ela baixou os olhos, uns grandes olhos verdes; corou. O brao esquerdo 
estava passado no do marido enfastiadamente, aborrecidamente; o direito, em abandono, 
pendia-lhe ao longo do corpo, fome, musculoso, muito branco. A mo estava sem luva, era 
pequenina, bem feita, anho no anelar uma marquesa de muito brilho. Levantou os olhos, 
encarou-me, tomou a baix-los, avanou o p direito, um pezinho adorvel, bateu com ele 
freneticamente, como se estivesse muito contrariada. O marido disse-lhe o que quer que foi 
alemo, ela respondeu-lhe na mesma lngua. Saram, eu segui-os. Tomaram o bonde que vinha 
de Santa Ceclia.............. Olhos verdes...........amor............venusta............................
Tornei a v-la.
Era no Grande Hotel: ela estava jantando,  mesa do centro. Dava-me as costas. 
Recostava-se na cadeira, pendendo o corpo para a esquerda; a perna direita, passada por sobre 
a esquerda, agitava-se com um movimento sacudido, nervoso; o p muito pequeno, estreitado 
em uma meia de seda carmezim, recurvando-se, descalava em parte o sapatinho Clark,  
mostrava o calcanhar redondo, diminuto, delicioso. O p esquerdo assentado firme no cho. O 
vestido rodeava, cobria pane da poltrona em fartos panejamentos, e por sob ele entrevia-se uma 
orla de saia muito branca.  A aragem que entrava pelas janelas altas agitava-lhe os crespinhos 
dourados da nuca. Levantou-se, rodando para a esquerda, com o busto curvado, em um 
movimento gracioso, que ps em relevo a exuberncia dos seios a avultarem reprimidos no 
corpete retesado, em contraste provocador com a exigida da cintura.
O quarto papel, amarelo, pudo nas dobras, continha uma poesia escrita tambm por letra 
de Barbosa. 
Lenita leu:
M.I.
No sei se s feia ou bonita,
Segundo as regras da arte;
Sei, sim, que gosto de ver-te,
Que gosto at de estudar-te.

Nas faces sedosas tuas
No brilha o rubor das rosas,
Retinge-as a palidez
Das compleies biliosas.

Estranhas cintilaes
Mordentes, frias, geladas
Tens nos olhos baos, vtreos,
Azuis, da cor das espadas.

Teu lbio, sempre agitado
De leve tremor nervoso
Parece ressumar sangue
Com sede infrene de gozo.

Contorce-te as mos pequenas
Espasmo fabricitante
Tem no sei qu de felino
Teu breve corpo ondulante...

Queres ento que eu te diga
Meu sentir quando te vejo ?
Amor no te tenho no;
Porm morde-me o desejo.

A moa teve um deslumbramento: em seu esprito, subitamente iluminado, fez-se vcuo 
enorme, desmoronou-se fragorosa a mole das iluses.
Pensava - Barbosa era casado na Europa, ela o tinha conhecido como tal, no podia 
exigir-lhe conta dos afetos que ele voltara em tempo  esposa, das recordaes que dela 
porventura conservasse.
Mas ali no se tratava da esposa, tratava-se de trs mulheres pelo menos - a dos cabelos 
que, escuros, tinham naturalmente por correlativo olhos pretos ou castanhos; a do fragmento em 
prosa, de olhos verdes; a da borracheira potica, de olhos azuis, cor de ao.
E quem sabe se no seriam seis ou mesmo sete: o bilhete podia ser de uma outra; a 
medalha azinhavrada, de uma outra; as flores secas, de uma outra, as bolinhas de l branca, de 
uma outra ainda.
E que eram aquelas bolinhas de l branca seno lembranas, trofus amorosos, colhidos 
de certo em cama desfeita, sobre lenis ainda quentes, aps uma noite de delrios erticos?
Aquele homem era um devasso; um Dom Joo de pacotilha, e ela, Lenita, no passava de 
uma das suas muitas amantes.
Quem lhe dizia a ela que uma ddiva sua, que uma pave qualquer que lhe tivesse 
pertencido, no iria aumentar aquela ignominiosa coleo.
Em que dera seu orgulho, o alto conceito que ela formava do seu sexo, que ela formava 
de si prpria!
Amante de um devasso, barreg de um homem velho, casado, que guardava trofus das 
conquistas... Bonito! Esplndido!
Estava castigada e achava justo o castigo.
Tinha ido pedir  cincia superioridade sobre as outras mulheres; e na rvore da cincia 
encontrara um verme que a polura.
Quisera voar de surto, remontar-se s nuvens, mas a carne a prendera  terra, e ela 
tombara, submetera-se; tombara como a negra boal do capo, submetera-se como a vaca mansa 
da campina. Revoltada contra a metafsica social, pusera-se fora da lei da sociedade, e a 
conscincia castigava-a, dando-lhe testemunho de quanto ela descera abaixo do nvel comum da 
mesma sociedade.
 loucura quebrar de chofre o que  produto de uma evoluo de milhares de sculos. A 
sociedade tem razo: ela assenta sobre a famlia, e a famlia assenta sobre o casamento. Amor 
que no tenda a santificar-se pela constituio da famlia, pelo casamento legal, aceito, 
reconhecido, honrado, no  amor,  bruteza animal, desregramento de sentidos. No, ela no 
amara a Barbosa, aquilo no tinha sido amor. Procurara-o, entregara-se a ele por um desarranjo 
orgnico, por um desequilbrio de funes, por uma nevrose. Como a Fedra da fbula, como as 
bblicas filhas de J, como a histrica mulher de Cludio, ela cara sob o ltego da carne e, 
empurrada por um devasso ilustrssimo, resvalara ao fundo do pego,  ltima estratificao da 
vasa. No, ela no amara, ela no amava a Barbosa. O que por ele sentira fora uma atrao 
paulatina, gradual, viciosa, mrbida. A primeira impresso que recebera, ao v-lo, no tinha sido 
boa; e as primeiras
impresses  que fazem f, porque so as que se produzem instintivamente no esprito 
desprevenido. Nesse momento em que ficava conhecendo a Barbosa como Barbosa realmente 
era,  que ela podia avaliar o bratro em que se despenhara. Pomba inocente, procurara por seu 
p o aor, metera-se-lhe nas garras, e ele a conspurcara, no somente lhe arrancando a 
virgindade, mas debochando-a em prticas infames para despertarem os sentidos embotados...
Meteu tudo s pressas, desordenadamente, na caixinha, atirou a caixinha para a gaveta, 
empurrou com violncia a gaveta, saiu, foi para seu quarto, entrou, fechou-se por dentro, atirou-
se na cama; desatou em pranto.
De repente ergueu-se.
Que era aquilo? perguntou-se a si prpria. Pois ela era mulher para chorar, para carpir-se, 
como qualquer criadinha de servir, violentada pelo filho da patroa? No ! Cara, mas cara 
vencida por si, s por si, por seu organismo, por seus nervos. O homem no entrava em linha de 
conta, no passava de mero instrumento: fora Barbosa; poderia ter sido o administrador, poderia 
ter sido o velho coronel. Enquanto quisera, gozara; estava saciada...
Uma idia terrvel atravessou-lhe o crebro.
De pouco tempo, de um ms a essa parte, sentia-se modificar de modo estranho, 
moralmente, fisicamente: tomara-se irritadia, tinha impacincias febris. Uma nuga, um nada a 
punha fora de si. Mal se alimentava:  simples vista da mesa posta, vinham-lhe engulhos, 
chegava mesmo a vomitar. Aberrara-se-lhe o apetite, desejava coisas extravagantes. Uma tarde 
vira um cacho de caraguat  beira de um valo : quisera por fora comer, comera, queimara a 
boca com o sumo custico da fruta da bromelicea. 
Com pasmo grande, sem poder dar a razo por que, via que Barbosa j lhe no inspirava 
admirao. As tiradas, as dissertaes cientficas, alis corretas, que lhe fazia enfastiavam-na: ela 
achava-o desajeitado, vulgar, pretensioso; ganhava-lhe averso; cria at perceber-lhe no corpo e 
na roupa um cheiro esquisito, enjoativo, o que quer que era como catinga de rato. Repugnavam-
lhe as carcias dele, e, para chegar bem  verdade, elas incomodavam-na, de fato, topicamente.
Acudiu-lhe o dizer de Rabelais - "Les btes sur-leurs ventres n'endurent jamais  te mal 
masculant".
Estaria grvida? 
Correu  cmoda, puxou uma gaveta, tirou um calendariozinho de algibeira, percorreu os 
meses, virando as folhas com rapidez: estavam a 20 de agosto, e o ltimo dia marcado com uma 
cruzinha vermelha era o dia de So Pedro, 29 de junho. Mediava um espao de cinqenta e dois 
dias...
Desabotoou o corpinho, desceu o cabeo da camisa, fez sair o seio esquerdo, globuloso, 
duro: baixou a cabea para v-lo, estendendo o beio inferior. O aurolo, outrora rseo, 
imperceptvel, acentuava-se retrato, pardacento, constelado de papilas ouriadas. No havia 
duvidar, estava grvida.
Sentiu ou julgou sentir que uma coisa qualquer se lhe agitava, se lhe enovelava dentro do 
tero. No mesmo instante apoderou-se dela um afeto imenso, indizvel, por esse quer que fosse, 
que assim ensaiava os primeiros movimentos na ante-sala da vida. Era o desencadear de uma 
tempestade, de uma inundao nevrtica, que a invadia, que a alagavam como as guas de um 
aude roto invadem e alagam a plancie. No amor enorme de que se via repassada, Lenita 
reconheceu o sentimento to ridiculamente guindado ao sublime pelo romantismo piegas, e 
todavia to egostico, to humano, to animal - a maternidade.
- Que iria fazer? perguntou-se a si mesma, e, sem hesitar, respondeu-se - levar a bom 
termo a gestao, parir, criar, educar o filho, ver-se nele, ser me.
Dois dias se passaram sem que Lenita sasse do quarto, seno para ir a uma ou outra 
refeio.
Ao almoo do terceiro dia, uma quinta-feira, disse ao coronel que no domingo tencionava 
seguir para a vila, de l para a cidade, e da cidade para So Paulo; que seus tarecos estavam 
arranjados, suas malas feitas; que precisava do carroo para conduzi-los, do trolley para 
conduzi-la a ela; que, saindo bem cedo, chegaria a tempo, teria ainda de esperar pelo trem, talvez 
uma hora.
- Que nova loucura era aquela? perguntou o coronel. Que ia Lenita fazer a So Paulo, 
assim de repente, sem qu nem para qu?
 insistncia de Lenita, que a nada se demoveu, fez ele sentir que ao menos era preciso 
esperar ela vir Barbosa do Ipanema para lev-la; que, s, ela no podia, no devia ir; que ele, 
coronel, ameaado e at j principiando a sofrer de um insulto de reumatismo, achava-se incapaz 
de uma vez para cumprir o dever de acompanh-la.
- Que iria muito bem s com o moleque at  vila, volveu Lenita inabalvel; que na 
estrada de ferro no se fazia mister companhia; que lhe era impossvel deixar de ir.
As splicas da entrevada, as instncias e amuos do coronel, de nada aproveitaram.
O carroo coma bagagem partiu no sbado de tarde, e, no domingo cedo, Lenita de 
guarda-p e chapu de abas largas, abraou, chorando a velha; abraou o coronel que soluava 
como uma criana, subiu para o trolley, seguiu.
- Rapariga, gritou-lhe de longe o coronel, limpando os olhos, engasgado, voc tem m 
cabea, mas seu corao  bom, e eu quero-lhe bem deveras. Em toda e qualquer emergncia 
lembre-se de que eu e seu av fomos como irmos, de que eu tive sempre a seu pai na conta de 
filho. Para tudo, mas mesmo para tudo, aqui fica o velho.
E acrescentou consigo:
- Nalguma coisa haviam mesmo de dar as fsicas e as botnicas e as caadas: foi nisto. 
Antes nunca esta rapariga se lembrasse de ter vindo aqui para a fazenda, ou antes Manduca l se 
tivesse deixado ficar pelo Paranapanema. Agora  pegar-lhe com um trapo quente.

Captulo 18
Seis dias depois da partida de Lenita chegou Barbosa. De nada sabia ele: o coronel no 
lhe tinha escrito.
Desde que transpusera a crista do morro, vinha alongando os olhares,  espera, a todo o 
momento, de divulgar o vulto da moa uma janela no terreiro, em qualquer parte. Antegozava o 
prazer de v-la estremecer do jbilo ao enxerg-lo, de v-la correr-lhe ao encontro plida, 
trmula, convulsionada pela emoo.
Lembrava-se da noite, e tinha calafrios; afastava, expediu da mente a lembrana do gozo, 
para tambm esquecer que lhe era preciso esperar tantas horas.
E s janelas ningum assomava. No pardo sujo do terreiro esburgado, agitavam-se, 
passavam rpidas de uma para outra parte manchas azuis e encarnadas: era um lote de 
crioulinhos a correr, a bancar, vestidos de camisolas do baeta. Mais nada.
- Melhor, disse Barbosa consigo, vou surpreend-la na varanda, em prosa com o velho 
Desceu, chegou  porteira.
A crioulada reuniu-se em um magote, e, alando as mos e tripudiando, comeou de 
gritar
uma melopia cadente, afinada:
- Ai vem nhonh! a vem!
- Cala o bico, canalha! Barbosa, cruzando nos lbios ndice da mo direita.
A crioulada afeita a obedecer, emudeceu.
Ele apeou-se, descalou as esporas, atravessou o terreiro, entrou em casa, foi andando nas 
pontas dos ps at  varanda.
Estava deserta.
Dirigiu-se ao quarto do pai. Encontrou o coronel deitado, a gemer com o reumatismo. N 
chaise-longhe do costume cabeceava a velha entrevada.
- Como vai, meu pai? Como est, minha me?
E beijou a mo de um e a testa de outra.
- Na forma do louvvel...respondeu o coronel, sofrendo sempre... ai!... Este maldito 
reumatismo no larga... Como foi voc de viagem?
- Muito bem.
- O engenho?
- Vem a, chega amanh a estao.
- Assim, pois,  preciso que sigam os carroes a esper-lo, hoje mesmo?
- Basta que sigam amanh. 
- E veio coisa boa?
- tima. Algumas peas foram fundidas especialmente; fizeram-se os moldes sob meu 
risco.
- Muito bem, e quanto custou?
- Ficou barato; no anda em mais de trs contos.
- Ai !... Voc j jantou?
- No, senhor.
O coronel sentou-se com esforo, tirou de sob o travesseiro uma chavinha, levou-a aos 
lbios, arrancou um assobio estridente, prolongado.
- Sinh, gritou de dentro uma escrava, que logo assomou  porta do quarto.
- Nhonh est aqui, e ainda no jantou.
- Sim sinh, meu sinh.
E, voltando-se rpida, desapareceu.
Barbosa no quis perguntar por Lenita. Ela estava de certo no quarto. Ele l iria ter com 
ela. Pediu licena ao pai para sair: que se no demoraria, disse: que voltaria logo, para 
conversarem. 
Chegou  sala de Lenita e sentiu um grande aperto do corao ao ver os consolos 
despidos, sem um bronze, sem uma estatueta, sem uma jarra de Svres, sem um defumador de 
Satzuma.
Foi  porta do quarto dormir, empurrou-a, estava fechada a chave; foi ao outro quarto, 
vazio. Empalideceu-se, encostou-se  ombreira da porta para no cair. Que era aquilo? 
perguntou-se. Para onde tinha ido a moa?
Voltou aos aposentos do pai.
- Meu pai, onde est D. Lenita?
- Se realizou o que tinha na inteno, est em So Paulo, em casa de um parente, do 
Fernandes Faria, ou qualquer hotel. Aquilo  uma doidinha.
- Pois D. Lenita foi para So Paulo? ! exclamou Barbosa, como que recusando a 
evidncia, como que fugindo  brutalidade do fato.
- Se foi ! Voc a conhece pelo menos to bem como eu: e desencabritando, desencabrita 
mesmo: no h pegar-lhe.
Barbosa deixou-se cair em uma cadeira.
No estava plido, no estava lvido: estava uma e outra coisa: tinha manchas cor de 
chumbo no rosto cor de terra.
Em suas feies havia alguma coisa da expresso que deve Ter uma mscara de bronze, 
que, cada em uma fogueira, comea a entrar em fuso.
Conservou-se sentado por muito tempo, mal respondendo s perguntas do pai.
Chamaram-no para jantar; foi, sentou-se  mesa, cruzou os braos sobre ela, afundou a 
cabea no ngulo formado pelo brao esquerdo, deixou-se ficar, imvel.
Refletia.
Lenita ali no estava, no estava na sala, no estava no quarto, no estava no terreiro, no 
estava no pomar, no estava na fazenda. Ele a no veria mais, no lhe ouviria mais a voz suave, 
no lhe beijaria mais os lbios corados, no lhe beberia mais a frescura do hlito... S... s... 
estava s !
Ela o provocara, ela se lhe oferecera, ela o procurara, ela se lhe entregara, ela se prestara 
a todos os seus caprichos, mansa, dcil, submissa, para depois assim abandon-lo, a ss com as 
lembranas, entregue  tortura da saudade!
No, no era possvel: Lenita ali estava, do outro lado da mesa; no se fora...
Ergueu a cabea, abriu os olhos esgazeados e s viu diante de si a crioulinha servente, 
que abanava moscas, movendo preguiosa e mole, para a direita e para a esquerda, um ramo de 
alecrim bravo.
Barbosa deixou cair de novo a cabea, continuou no cismar doloroso, como quem se praz 
a revolver em uma ferida o ferro que a produziu.
Louco que fora!
Tinha tido dezenas de amantes, tinha sido, era ainda casado, conhecia a fundo a natureza, 
a organizao caprichosa, nevrtica, inconstante, ilgica, falha, absurda, da fmea da espcie 
humana; conhecia a mulher, conhecia-lhe o tero, conhecia-lhe a carne, conhecia-lhe o crebro 
fraco, escravizado pela carne, dominado pelo tero; e, estolidamente , estupidamente, como um 
fedelho sem experincia, fora se deixar prender nos laos de uma paixo por mulher!
O tempo ia passando: o jantar arrefecera.
Barbosa levantou-se.
- Nhonh no janta? perguntou triste a preta cozinheira que o observava da porta do 
corredor.
- No, Rita, estou sem vontade, estou doente.
Saiu, chegou  porta do terreiro, circunspecionou os arredores. 
Parecia-lhe morta a natureza: a paisagem figurava-se-lhe um cadver, vasto, enorme.
Do diafragma subia-lhe para o corao um aperto constante, ininterrompido, doloroso, 
que lhe tolhia o flego, que o sufocava. 
Queria chorar; o pranto, julgava, far-lhe-ia bem, seria um desabafo: impossvel. Um ardor 
seco, febril, queimava-lhe os olhos.
No imvel do arvoredo secular, na calma impassvel das encostas amareladas, havia, ele 
pelo menos sentia, o que quer que era de hostil: essa indiferena majestosa irritava-o, era como 
um escrnio  angstia em que se estorcia seu esprito.
E tudo lhe fazia lembrar Lenita; na ante-sala, a cuja porta estava, a vira ele pela vez 
primeira por entre as torturas de uma enxaqueca; no pomar, de que avistava um ngulo, com ela 
tivera a primeira entrevista; no pasto, que se lhe estendia entre os olhos, quantas vezes no 
tinham passeado juntos; a mata fronteira, as caadas, os pssaros, a cutia, os porcos, a cascavel... 
ah! a cascavel! Por que no sucumbira Lenita ao veneno da cobra? Por que a fizera ele viver? ! 
Morta naquele tempo, ela seria apenas uma saudade doce, e no a lembrana voraz que o havia 
de matar.
Anoiteceu.
A escuridade, o silncio, reproduo cruel da escuridade e do silncio das noites de 
outrora, das noites de amor, que no mais voltariam acenderam-lhe, exacerbaram-lhe o pungir do 
sofrimento, o rolar da soledade.
Lembrou-lhe o suicdio.
- Ainda no, disse: esperemos.
Entrou para o seu quarto, deitou-se, fez uma injeo de morfina, dormiu.
No dia em que era esperado chegou o maquinismo.
Barbosa desenvolveu uma atividade febril.
Desengradou-o, armou-o, ele prprio. Multiplicou-se, dividiu-se: fez-se carpinteiro, 
pedreiro, serralheiro, maquinista.
Queria esquecer de dia, hipnotizava-se com trabalho, de noite, com morfina.
Pronto o engenho, a moagem continuou.
Barbosa tomou-a a si, dirigiu o servio. O acar da fazenda criou fama.
- Eta ! rapazinho destorcido! dizia o coronel,  pau para toda a obra! Quem havia de dizer 
que ele entende mais de fabricao do que eu que lido com cana desde que me conheo por 
gente? Quem estuda sabe mesmo.
Mas... eu no ando contente com ele: estes modos que ele agora tem no so naturais, ele 
no os tinha. Aquela Lenita...
Em um dos dias da primeira quinzena de outubro, o moleque trouxe da vila, na 
correspondncia, duas cartas sobrescritas por uma letra redonda, fina, bonita letra, letra de 
mulher.
Era de Lenita.
Barbosa a conheceu imediatamente.
Uma lhe era endereada, outra ao coronel.
Barbosa tomou a sua, abriu-a e, plido, muito plido, com um ligeiro tremor a agitar-lhe 
as mos, comeou a leitura.
Dizia:

So Paulo, 5 de outubro de 1887.
Ao Sr. Manuel Barbosa envio muito saudar.
Mestre.
Ao chegar  fazenda, surpreendeu-se de cerro com a minha partida um tanto brusca.
Procurou-lhe explicao, no achou: nem eu. Lembro-lhe o que diz Spinoza: "A nossa 
iluso do livre-arbtrio vem de ignorarmos ns os motivos que nos dirigem ". No caso desta 
minha partida, eu poderia bem crer que tinha livre-arbtrio. Demais sou mulher, sou fantasque 
Quem vai discutir, explicar caprichos de mulher? Vale infinitamente mais non ragionar di lor, 
guardar, passar.
Qual tem sido a minha vida desde que vim da fazenda? Nem eu mesma sei.
Estudar, no tenho estudado; fui sbia, fui preciosa tanto tempo, que achei de justia 
dar-me o luxo de ser ignorante, de ser mulher um poucochinho.
Mas, qual! ningum  sbio impunemente. A cincia  uma tnica de Dejanira: uma vez 
vestida, gruda-se  pele, no sai mais. Quando se tenta arrancar, deixa pedaos de forro, que  
o pedantismo.
E a prova  estar-lhe eu escrevendo, por no poder resistir ao prurido de comunicar as 
minhas impresses, de conversar um bocadinho com quem me entenda.
Que saudades no tenho eu s vezes das nossas palestras, das nossas lies, nas quais 
tanto se dissipava a treva da minha ignorncia  luz do seu profundo saber.
O passado, passado: fomos como dois astros vagabundos que se encontraram em um 
recanto do espao, que caminharam juntos, enquanto foram paralelas as suas rbitas, e que ora 
esto separados, seguindo cada qual o seu destino.
Vamos ao que serve.
So Paulo  hoje uma grande cidade, dou-lhe, sem receio de erro, sessenta mil 
habitantes.
Dia a dia, para nome, para sul, para leste, para oeste, est crescendo, est-se 
alastrando,  o que mais , est-se aformoseando. 
Os horrveis casebres dos fins do sculo passado e dos princpios deste vo sendo 
demolidos para dar lugar a habitaes higinicas, confortveis, modernas. Os palacetes do 
perodo de transio,  fazendeira,  cosmopolita, sem arte, sem gosto, chatos, pesados, mas 
solidamente construdos, constituem um defeito grave que no mais desaparecer. Obras, 
porm, h feitas, nestes ltimos cinco anos, pelo arquiteto Ramos de Azevedo, pelo italiano 
Pucci e por outros estrangeiros, que so realmente primores de arte. Gosto imenso da 
Tesouraria da Fazenda que est construindo Ramos de Azevedo:  um edifcio que honra So 
Paulo pela severidade e elegncia do estilo, pela robustez que ostenta desde os profundssimos 
alicerces at o levantado coruchu. Aquela mole enorme forma um todo compacto, homogneo, 
sem o mnimo defeito, sem uma trinca sequer de tassement. Quem viu o que ali estava.. cruzes!.'.' 
Para se avaliar o que era basta que se veja o anual Palcio do Governo, da mesma procedncia. 
Os manes do Sr. Florncio de Abreu podem se limpar as mos  parede dos Campos Elsios, se 
 que os Campos Elsios tm parede. Desmanchar a velha, a macia,  a histrica,  a legendria 
construo dos Jesutas, para estender por ali fora aquele pardieiro medonho No sei por que 
no mandou botar abaixo tambm a capela... O Sr. de Parnaba desvendou os mistrios da 
cripta dos padres de Loyola, rasgando uma porta no andar da torre dessa capela.  esquerda de 
quem entra, vem-se distintamente seis covas sepulcrais, seis catacumbas, superpostas, em duas 
ordens, de trs cada uma, praticadas na grossura enorme da parede. Entraram j cadveres os 
que ali jazem, ou foram emparedados vivos, segundo a lei terrvel do cdigo secreto da 
Companhia? Ao governo, ao bispo diocesano, incumbe, corre o dever de mandar abrir aqueles 
jazigos, onde talvez se encontrem documentos importantes para a histria da provncia.
O Ch, lembra-se bem, era mato quando eu estive com meu pai em So Paulo, pela 
primeira ver hoje  um bairro populoso, constitudo por um vasto enxadrezamento de ruas 
direitas e largas, arejadas e mordidas de luz.
H na cidade vrios calamentos a paraleleppedos. O antigo, famoso largo de So 
Francisco est que  um brinco.
A academia foi reformada.
Talvez eu no tenha razo; mas o caso  que eu a preferia exteriormente como ela era 
outrora. Tinha pelo menos o mrito de representar o gosto arquitetnico dos religiosos que 
dirigiram a colonizao do Brasil. Hoje no representa coisa nenhuma, tem uma aparncia 
limpa, mas desgraciosa e at caturra.
No alastrar da cidade, bairros unem-se, vo desaparecendo as solues de continuidade 
predial: a Luz j pega com o Brs pela rua de So Caetano.
O comrcio tem-se desenvolvido de modo assombroso, e a indstria segue-o de perto.
H em So Paulo fbricas de mveis, de chapus, de chitas, de bordados, de luvas, que 
rivalizam com as do Rio, e que estabelecem concorrncia sria aos produtos europeus.
Nas ruas de So Bento e da imperatriz  enorme o acervo de lojas, e de armazns, de 
casas bancrias, de estabelecimentos de todo o gnero.
As vitrines das casas de jias entram em compita de riqueza e gosto: aqui a relojoaria 
sua, delicada, elegantssima, ostenta os seus primores, os seus inexcedveis "Patek Philippe", a 
par dos artefatos slidos da relojoaria americana, dos "Waltham" feitos a mquina, grossos, 
esparramados, angulosos, profusa e desgraciosissimamente ornamentados. Ali a prata do Porto, 
aereamente, maravilhosamente filigranada, casa sua alvura mate aos reflexos flvos da 
ourivesaria francesa, s cintilaes mgicas dos brilhantes purssimos do Brasil, dos diamantes 
coloridos do Cabo, dos rubis, das safiras, dos topzios, das ametistas, das opalas irisadas. A luz 
brinca nos lavores dos metais e nas facetas das pedrarias em um tal deboche de magnificncia, 
que faz lembrar os contos de fadas, a caverna de Aladim.
Entrei ontem em uma casa de modas, a Mascote.
Atraram-me a ateno bronzes de Barbedienne, expostos em uma vitrine interior.
Alguns eram reprodues dos que eu possuo, o hoplitodromo conhecido por gladiador 
Borghse, a Vnus de Milo, a Vnus de Salona: outros eu ainda no conhecia, o menino da 
cesta, por Barrias; a bacante do cacho, por Clodion.
Que bronze adorvel este; que verdade nos panejamentos! Que morbidez suave de 
postura.! No rosto o metal parece ter o emaciamento, a transparncia fosca da pele viva. Os 
olhos como se cerram em um xtase de volpia...
Encomenda de Jlio Ribeiro, um gramtico que se pode parecer com tudo menos um 
gramtico: no usa simonte, nem leno de Alcobaa, nem pince-nez, nem sequer cartola. Gosta 
de porcelanas, de marfins, de bronzes artsticos, de moedas antigas. Tem, ao que me dizem, uma 
qualidade adorvel, um verdadeiro ttulo de benemerncia - nunca fala, nunca disserta sobre 
coisas de gramtico.
Veio receber-me um dos proprietrios da loja, rapaz afvel, parisiense nos modos, flor 
na botoeira do palet, sorriso engatilhado.
Fiz alguns pedidos: tomou nota deles, para mandar-nos a casa, o outro scio, irmo 
creio,
do primeiro; moo grave,  srio, de fisionomia leal, sempre ao bureau, sempre a escrever, tipo 
acabado do portugus antigo, trabalhador, honesto, pontual, p de boi.
Em frente - a Casa Garraux, vasta Babel, livraria em nome, mas verdadeiramente bazar 
de luxo, onde se encontra tudo, desde o livro raro at a pasta de ao feita, passando pelo 
Cliquot legtimo e pelos cofres a prova de fogo.
L fui ver a exposio permanente.
Mal tinha eu entrado, entrou tambm um grupo de homens, trs ou quatro, se bem me 
lembra.

Era um sujeito corpulento, coroado, limpo, no descambar da idade viril, ou melhor, no 
verdor da velhice. O bigode farto, betado aqui e ali por um fio de prata, e as longas costeletas 
acentuavam-se com nitidez no rosto fresco, caprichosamente escanhoado. O cabelo dividia-se 
em pastinhas despretensiosas no alto da testa vasta, ligeiramente redonda. Colarinho de pontas 
quebradas, gravata branca de n, colete fechado at o n da gravata, fraque, flor enorme na 
lapela, calas de casimira preta com listinha de seda branca, chapu preto, alto, mole, sapatos 
Clark, pince-nez.
Belo homem, Ramalho Ortigo, j adivinhou.
Um dos que o acompanhavam era um rapaz alto, cheio de corpo, alvo de cabelos 
castanho-claros, quase louros, ondeados, de bigode crespo, de lbio inferior coroado, mido; 
um causeur adorvel, que o mestre disse-me ter encontrado uma vez em Campinas, e a quem eu 
fui apresentada um dia destes, em uma festa de anos, Gaspar da Silva. 

Ramalho entrou em conversas com um dos scios da Casa Garraux: eu, fingindo que 
examinava um livro, prestei-lhe toda ateno. Apanhei, dissequei, analisei cada uma de sua 
palavras.
Voz agradvel, bem timbrada; pronncia distinta, corretssima; sotaque alfacinha puro, 
estranho, muito estranho a ouvidos paulistas.

Ramalho Ortigo  incontestavelmente um homem de combate, um grande escritor. Eu, 
porm, no gosto dele. Acho-o trabalhado, limado, castigado demais; acho qu'il pose toujours. 
No escreve como Garrett, vazando a alma no papel: calcula o efeito de cada palavra, de cada 
frase, como um jogador de xadrez calcula o alcance do movimento de cada pea. Nos seus 
escritos h notas, h quantidades constantes, que reaparecem fatalmente. Encontra-se sempre 
uma admirao exagerada por tudo quanto  vigor muscular, por tudo quanto  manifestao de 
fora humana fsica. O estadulho, a bengala grossa so fato imprescindveis das suas teorias de 
moralizao social. Afeta pelo asseio, pelo cuidado do corpo um culto que chega a se tomar 
impertinente. No perde ensejo de contar que se banhou, que se barbeou, que mudou a roupa 
branca. Tanto repete, tanto insiste, que at parece ter um secreto receio de que o no acreditem. 
Escreve ele um livro novo: os seus leitores habituais j lhe conhecem, j lhe esperam as ficelles. 
H de falar por fora nas malas, nos apeiros de toilette, nos desinfetantes, na abundncia de 
cuecas e pegas. Tem frases feitas, uma por exemplo - todos os seus estandartes, todas as suas 
bandeiras, todas as suas flmulas, todos os seus galhardetes, esto sempre a palpitar 
gloriosamente, esto sempre a bater em palpitaes gloriosas.
Os livros de Ramalho Ortigo so excelentes, no h neg-lo, quer pelo fundo, quer pela 
forma. Bom senso e correo de linguagem at ali: ensinam a pensar, e ensinam Portugus.
O que eu no creio  que eles sejam um espelho, uma cmara escura para se estudar a 
individualidade do autor. 
Entendo que no se pode ficar conhecendo a Ramalho Ortigo nem no Em Paris, nem 
nas Farpas, nem na sua parte de Mistrio da Estrada de Cintra, nem nas Caldas e Praias, nem 
nas Impresses de Viagem, nem na Holanda, nem no John Bull: melhor do que em isso, 
fotografa-se ele nos seus depoimentos sobre a questo Vieira de Castro.
Seja como for, ontem foi para mim um grande dia: conheci um
grande homem.
Agora, ns: o que mais de perto nos toca...

Seguiam-se algumas linhas criptogrficas, em uma cifra que Barbosa e Lenita tinham 
combinado, desde os primeiros tempos de convivncia.

Estou grvida de trs meses mais ou menos.
Preciso de um pai oficial para nosso filho: ora pater est is quem instae nuptiae 
demonstrant.
Se tu fosses livre, fazamos justas na igreja as nossas nuptias naturais, e tudo estava 
pronto. Mas tu s casado, e a lei de divrcio, aqui no Brasil no permite novo enlace: tive de 
procurar outro.
"Tive de procurar"  um modo de dizer: o outro deparou-se-me, ofereceu-se-me; eu me 
limitei a aceit-lo e ainda impus-lhe condies.
 o Dr. Mendes Maia.
Ao chegar aqui, escrevi-lhe para a corte; ele veio imediatamente, tivemos trina 
conferncia larga, eu fui franca, contei-lhe tudo e... e... e ns nos casamos amanh, s 5 horas 
da madrugada.. Pelo trem do Norte, que parte s 6, seguimos para a corte, e da corte para a 
Europa no primeiro vapor.
Sei que te hs de lembrar sempre de mim, como eu sempre hei de lembrar de ti: 
calembour   parte, o que entre ns passou no se ouvida
No me guardes rancor. Fomos um para o outro o que podamos ter sido; nada mais, 
nada 
menos.
A criana, se for menino, chamar-se- Manuel; se for menina, Manuela.
	
A carta ainda continuava.
Barbosa, lvido, com as feies horrivelmente contradas, rasgou-a em dois movimentos,
atirou-a em um lamaal, onde, com gudio infinito, chafurdavam alguns porcos.
- Rameira! Prostituta vil ! exclamou ele.
- Sabe voc que mais? perguntou-lhe o coronel, que se aproximava. A Lenita casa-se! 
Escreveu-me, participando.
- A mim tambm escreveu ela.
- Sim? E ela a dizer que se no queria casar... Fiem-se l em mulheres! Aquela partida 
repentina no teve outra causa.
- No teve, no, volveu Barbosa.
A tarde levou-a ele toda a pensar, a malucar s consigo.
 noite no fez injeo de morfina, passou em claro, nem sequer se deitou.
No dia seguinte, cedo, saiu, deu uma volta pelo pomar, foi  mata, chegou  cova, 
demorou-se a contemplar os destroos do reparo, as do milho que tinham nascido e morrido 
estioladas pela sombra, sem produzir. Viu ainda por entre as folhas secas algumas vrtebras, 
algumas espinhas da cascavel.
Voltou, passou pela fruiteira, em cuja copa uma araponga serrava estridulosa.
Viu no cho uma pena de jacu, desbotada pela umidade, suja de barro.
Ergueu-se, contemplou-a muito tempo, deixou-a cair.
Voltou para casa, no quis almoar, pediu um banho.
Despiu-se, entrou na banheira, deitou-se, revolveu-se com delcia, na gua tpida, 
aromatizada com vinagre de Lubin.
Aps muito tempo saiu, enxugou-se com esmero, calou ceroulas de linho, passadas a 
ferro, cheirosas, frescas, muito macias.
Chamou dois pretos, mandou esvaziar, retirar a banheira.
Foi  mesa, tomou uma garrafa de vinho hngaro, doce, perfumoso, Rusti-Asz; abriu-a, 
encheu um clice, examinou de encontro  luz a transparncia cor de topzio queimado do 
precioso lquido, cheirou-o, hauriu-lhe o bouquet, bebeu-o como fino entendedor, aos golinhos, 
dando estalos com a lngua.
Puxou uma gaveta, e dela tirou uma caixinha oblonga de charo: abriu-a. Havia dentro 
uma seringuinha de vidro, uma cpsula de porcelana, um escarificador de dez lminas e um 
pequeno pote, esquisito, bojudo, de barro preto, arrolhado cuidadosamente com um batoque de 
madeira. Uma etiqueta em letras vermelhas sobre fundo amarelo denunciava-lhe o contedo.
Barbosa disps tudo isso sobre o mrmore do criado.
Tomou o escarificador, f-lo funcionar. Nove das lminas tinham sido quebradas de 
adrede: uma s estava intacta, e essa cortava como uma navalha.
Barbosa largou o escarificador, pegou no potinho, fez cair dele, na cpsula, uns gros 
irregulares, escuros, com quebraduras lustrosas.
Era curare.
De sobre a mesa tirou um moringue, deitou na cpsula cerca de duas colheres de gua, e, 
com o bico da seringa, foi agitando, fazendo com que se dissolvesse o terrvel veneno.
Quando inspissou-se a soluo, assumindo a cor carregada de caf forte, Barbosa encheu 
com ela a seringa.
Tomou de novo o escarificador, engatilhou-o, aplicou-o sobre a face interna do antebrao 
esquerdo, premiu o boto.
Ouviu-se um estalo abafado.
Barbosa retirou o escarificador.
Um pequeno trao, fino como um cabelo, desenhava-se-lhe negro na alvura da ctis.
Uma gotazinha de sangue ressumou, marejou, redonda, rubro, brilhante, como um rubim.
Barbosa largou o escarificador e, a sorrir, sem empalidecer pegou, segurou a seringa 
entre o ndice e o mdio da mo direita, introduziu-lhe o bico afilado na cesura, meteu o polegar 
no anel da haste, calcou firme, empurrou com fora o pisto. O excesso do lquido injetado 
espandanou, desenhando-lhe na brancura da pele um como aracnide sinistro.
Barbosa lanou no ourinol o resto do contedo da cpsula, meteu-a com o potinho, com o 
escarificador, com a seringa na caixa de charo, escreveu em um bilhete de visita - Cuidado, que
isto  veneno - ps tambm o bilhete dentro, fechou a caixa, guardou-a na gaveta, foi ao 
lavatrio, molhou uma toalha, limpou o brao, voltou para a cama, deitou-se de costas, ao 
comprido.
Passaram-se dois minutos.
Barbosa nada sentia, absolutamente nada.
Quis ver a cesura, tentou chegar o brao  altura dos olhos. No pde. O membro 
paralisado recusava-se  ordem do crebro.
Tentou o mesmo com o brao direito, quis mover as pernas: igual impossibilidade.
Tentou sacudir a cabea, fechar e abrir os olhos: sacudiu a cabea, fechou e abriu os 
olhos.
Passaram-se mais alguns minutos.
Tentou de novo sacudir a cabea, fechar e abrir os olhos. Impossvel. A paralisia era j 
quase completa, quase total.
E no sofria dor, constrangimento de espcie alguma.
No terreiro abaixo, ao p do engenho, os pretos estavam a malhar um resto de fego que 
ficara de julho. Cantavam. A toada distante chegava a Barbosa, amortecida, em quebros suaves, 
como os das vozes anglicas de um harmnium. Do teto pendia uma jardineira de vidro com um 
epidendron fragans: Barbosa hauria com delcias os eflvios embriagantes das flores da 
orqudea.
Na boca tinha ainda o ressabo suave, quente do vinho hngaro generoso.
A um canto do forro, aranhas domsticas fabricavam as teias: Barbosa distinguia-lhes 
bem os movimentos hbeis das pernas longas, esguias, nodosas, verdadeiros dedos de tsico.
Veio uma mosca, e pousou-lhe na face: com uma hiperestesia que chegava a ser um 
padecimento, ele sentia o prurido das patas do inseto. Quis enrugar a pele do rosto para afugent-
lo, no pde.
E a percepo de tudo era clara, a inteligncia perfeita.
Lembravam-lhe, acudiam-lhe de tropel  memria as metamorfoses mitolgicas de 
homens, de mulheres em rvores, em rochedos.
O sonho extravagante da imaginao doentia dos poetas helenos era traduzido em 
realidade palpitante, era excedido no domnio dos fatos pela ao misteriosa do veneno 
americano.
- Oh pensava Barbosa, no poder eu ditar a algum o que em mim se est passando, 
descrever o gosto desta morte gradual, em que a vida esvai-se como um lquido que se escoa. 
Que sou eu neste momento? Uma inteligncia que sente e quer, presa em um invlucro morto, 
cativa em um bloco inerte... O esprito, o conjunto das funes do crebro, est vivo, d ordens; 
o corpo est morto, no obedece. Tenho um p na existncia e outro no no-ser. Alguns minutos 
mais, e tudo estar acabado, sem sofrimento, sem dor... J entrevejo o nirvana bdico, o repouso 
do aniquilamento...
- Manduca! Manduca!
Era a voz do pai que o chamava.
Barbosa ficou triste: queria responder e no podia.
- Teresa!
- Sinh!
- Onde est Manduca? Voc no o viu?
- Vi, meu sinh. Ele est a no quarto dele. Estava se banhando. Ainda h pouco Pedro e 
Jos saram com a banheira.
- Que diabo, no responde... S se est dormindo.
E o coronel dirigiu- se ao quarto, entrou.
Ao dar com o filho nu da cintura para cima, estendido de costas na cama, plido, imvel, 
olhos abertos, fixos, o coronel deu um salto.
- Manduca! Que  isso Manduca?! 
E agarrando, abraando o filho, sacudia-o nervosamente.
O corpo de Barbosa, flcido, quente, cedia aos esforos do pai, como um cadver antes 
da rigidez.
E o crebro, ativo, lcido, em exerccio pleno de funes, vivia, compreendia, sentia, 
tinha vontade, queria falar, queria responder ao pai; mas j no tinha orgo, estava isolado do 
mundo.
- Meu filho morreu! Meu filho morreu! bradou o coronel, e saiu desatinado, correndo 
com as mos na cabea.
A esses gritos deu-se um como milagre.
A velha entrevada firmou as mos nas guardas da chaise-longue, fez um esforo 
supremo, ergueu-se, caiu de joelhos e comeou a engatinhar para o quarto do filho, movendo as 
juntas quase anquilosadas de um modo que seria ridculo, se no fosse horroroso.
Em camisa, em uma seminudez indecente, escorregando pelo assoalho, s sacadas, aos 
solavancos, como um inseto mutilado, foi, chegou onde estava o filho, abeirou-se-lhe da cama, 
levantou-se; agarrou-se no colcho, guindou-se com dificuldade dolorosa, abraou o corpo por 
sua vez, colocou-lhe nos lbios os seus lbios de velha, moles, franzidos, frios.
Aos beijos da me, beijos que no podia retribuir, Barbosa sentiu-se tomado de um 
sentimento estranho de uma ternura filial que nunca dantes conhecera.
Me! Pai!
Por que se no devotara com todas as suas poderosas faculdades a minorar os sofrimentos 
daquele casal de velhos, a suavizar-lhes as misrias da senectude?!
Descrente de amigos, descrente de amantes, descrente da esposa, ateu, farto do mundo, 
enjoado at de si, fora pedir aos gelos da cincia exclusivista a morte, a extino dos ltimos 
afetos.
Tomara-se egosta, tomara-se cruel.
E tinha ainda o que lhe prendesse ao mundo: tinha pai, tinha me, tinha a quem se 
devotar, tinha para quem viver!
Que vingana cruel a da natureza!
Entregara-o de mos atadas aos caprichos de uma mulher histrica que se lhe oferecera, 
que se lhe dera, como se teria oferecido, como se teria dado a qualquer outro, a um negro, a um 
escravo de roa, no por amor psquico, mas para satisfazer a carne faminta...
Repleta, farta, essa mulher o abandonara.
Nas cinzas quase frias das suas crenas mortas ateara-se o lume do amor, o fogo da f 
brilhara um momento, mas prestes se extinguira, e a escurido voltara mais ttrica.
Lenita fora procurar e achara um homem vil que lhe vendia o nome para coberta do erro, 
que a aceitava por esposa, desonrada, grvida...
Grvida... Ela estava grvida, ele ia ser pai...
E ela fugia dele, levava-lhe o filho e ainda o ludibriava, descrevia-lhe em cnica missiva 
as suas observaes de viajante, as suas impresses de artista! Fazia ainda mais, dava-lhe parte 
do seu enlace com o minotauro prvio e consciente, informava-o de que o seu filho, o filho dele, 
Barbosa, tinha de dar o nome augusto de pai a um homem sem brios, a um chatim refece de 
honra.
E ele morria, por amor dessa mulher, morria porque ela lhe quebrantara o carter, morria 
porque ela o prendera nos liames da carne, morria porque sem ela a vida se lhe tomara 
impossvel... Covarde!
O remorso personificado na figura lastimosa e quase hedionda de sua desgraada me ali 
estava sobre ele, abraando-o, devorando-o, bebendo-lhe os ltimos alentos.
Oh ! ele queria viver!
E no era impossvel.
Se houvesse quem entendesse de fisiologia, quem estabelecesse a respirao artificial, at 
que fosse completamente eliminado o veneno, arredar-se-ia a morte, a vida voltaria.
Mudassem as circunstncias, outrem fosse o paciente, e Barbosa salvava-o.
Mas por si, para si, nada podia fazer: enclausurado no corpo, como o lepidptero na 
crislida, estava impotente, estava aniquilado: nem sequer lhe era concedido o consolo triste de 
pedir, de implorar o perdo da pobre me, da msera entrevada, a quem a angstia curara em um 
momento.
A placidez da morte sem dor, da morte pela paralisia dos nervos motores, converteu-se 
em um suplcio atroz, pavoroso, para cuja descrio no tem palavras a linguagem humana.
Morto e vivo!
Tudo morrera: s vivia o crebro, s vivia a conscincia e vivia para a tortura...
Por que no ter despedaado o crnio com uma bala?
A paralisia invadiu os ltimos redutos do organismo, o corao, os pulmes, sstole e 
distole cessaram, a hematose deixou de se fazer. Um como vu abafou, escureceu a inteligncia
de Barbosa, e ele caiu de vez no sono profundo de que ningum acorda.

FIM
